October 1, 2007
Capitalismo de costas quentes
Uma reportagem de Marcos Losekann alguns dias atrás tocou sem querer sobre como opera a relação iniciativa privada x financiamento público, no Brasil. Ele se referia ao sistema de transporte Eurostar, dos trens que ligam a Inglaterra ao continente:
Com mais de 50 quilômetros de extensão, o túnel, que ficou pronto em 1993, custou o equivalente a R$ 25 bilhões. Mas os governos da França e da Grã-Bretanha não investiram quase nada; um consórcio formado por empresas européias pagou a conta e ganhou o direito de explorar o sistema.
Quem lucrou com isso foram os oito milhões de passageiros que, por causa das passagens até 15 % mais baratas, trocaram os aviões pelos trens do Eurostar. Hoje em dia, dois em cada três viajantes entre Londres e Paris ou entre Londres e Bruxelas, preferem os trilhos às asas
Duas coisas "curiosas": as empresas privadas pagaram os custos da obra, e receberem o direito de explorar o sistema; e as passagens trazem vantagens aos usuários, por serem relativamente baratas.
Em outras palavras, se nos fiarmos em Losekann, foi investimento privado para retorno privado, criando um mercado favorável ao investidor e ao consumidor. Não parece algo bem diferente do que ocorre no Brasil, quando ou o governo investe para depois "conceder" à iniciativa privada, ou financia investimentos cujo retorno será todo privado?





Robson Says —
E ainda tem gente defendendo o liberalismo (ou neoliberalismo) no Brasil… Os empresários estão lucrando com esse país joão bobo. Quem não lucra somos nozes.
Abraço.
Made on October 1, 2007 @ 12:01 pm
Adriano Says —
“Não parece algo bem diferente do que ocorre no Brasil, quando ou o governo investe para depois “conceder” à iniciativa privada, ou financia investimentos cujo retorno será todo privado?”
E aí caímos naquilo que Heloísa Helena (Psol) dissera em artigo na Folha em 2006: que porcaria de capitalismo é esse no Brasil em que o empresário não tem risco porque o BNDES garante o investimento?
Made on October 1, 2007 @ 3:20 pm
Na Prática a Teoria é Outra Says —
Essa é uma das questões mais importantes do Brasil contemporâneo. A dificuldade de fazer as PPPs decolarem é um negócio seríssimo. Agora, uma parte da aversão ao risco dos empresários provavelmente vem do fato de que podem emprestar dinheiro ao governo por juros altos e risco zero. Nessas condições, os empresários britânicos provavelmente fariam a mesma coisa.
RE: Uma ‘pequena’ diferença com grandes resultados, não é mesmo?
Made on October 1, 2007 @ 6:29 pm
Marcio Pimenta Says —
Como sempre digo, nosso neoliberalismo só serve para discursos.
Abraços!
Made on October 2, 2007 @ 5:35 am
Paulo Says —
Meus caros, se esta obra acontecesse aqui, veríamos barbudos reclamando que a concessão foi concedida por um preço muito barato. Aqueles com fios de barba mais longos proporiam a estatização do Eurostar…
Made on October 2, 2007 @ 2:06 pm
Carlos Maia Says —
Não dá para comparar, pessoal. Europa é Europa, Brasil é Brasil. Aqui existe mais risco, mais indefinição, mais insegurança jurídica. O Eurotunel foi um investimento de risco e ainda é. Em 3 horas se chega de Paris até Londres (ou versa-vice), melhor do que pegar avião em Heatrow ou De Gaulle e ter de pegar taxi para o centro das cidades. Chega-se antes de trêm.
Made on October 4, 2007 @ 3:08 am
Catatau Says —
Concordo Maia, que os modelos são diferentes. Mas isso não é suficiente para criticar a maneira sobre a qual modelos iguais, uniformes, sob os mesmos moldes, são colocados no Brasil sem criar um modelo próprio para esse país peculiar?
O argumento dos modelos diferentes não respinga também no modelo que deveria ser adotado no Brasil? Ou uma hora convém e a outra não a semelhança?
abração,
Made on October 9, 2007 @ 3:26 pm