October 8, 2007

Impressões de viagem em uma terra (não tão) distante

 De volta ao lar e aos afazeres habituais, gostaria de chover um pouco no molhado. Convido o leitor à chuva (como alguns lugares precisam dela!). Viajei a última semana por algumas terras distantes (ou nem tanto), e gostaria de compartilhar algumas impressões.
 
A primeira é que a passagem abaixo, enviada pela Marcela, esteve presente em vários momentos:
 “O problema com a maioria das formas de transporte, pensou, é que basicamente não valem a pena. Na Terra — quando havia a Terra, antes de ser demolida para dar lugar a uma via expressa hiperespacial — o problema tinha sido com os carros. As desvantagens envolvidas em arrancar montes de lodo preto viscoso do subsolo onde tinha estado escondido em segurança longe de todo mal, transformá-lo em piche para cobrir o chão, fumaça para infestar o ar e espalhar o resto pelo mar, tudo isso parecia descompensar as vantangens aparentes de se poder chegar mais rápido a um outro lugar — especialmente quando o lugar a que se chegava tinha ficado, como resultado, muito parecido com o lugar de que se tinha saído, ou seja, coberto de piche, cheio de fumaça e sem peixe.” Douglas Adams - O Restaurante do Fim do Universo

Atrelada a essas impressões, não sei qual é a situação do leitor, se passa ou já passou algum tipo de necessidade ou carência. Mas gostaria de convidar a todos para que se imaginem, ou se coloquem de fato, em tais situações. O aprendizado pode ser valiosíssimo. Na viagem em questão, foi muito interessante notar (aí chovo no molhado) como quem não possui um carro, em diversas cidades do Brasil, é quase um nada. As ruas, os lugares, a configuração pública, tudo é feito para os carros. Quem não tem…
 
Isso significa muitas vezes que, feitos para os carros, os lugares não são apropriados para os pedestres, ou mesmo para ciclistas. As ruas esburacadas permitem a passagem dos carros. Mas para os pedestres transitarem entre terrenos baldios, ausência de iluminação e calçadas, a tarefa não é muito aconselhável, especialmente em determinados horários. Sem contar como os carros funcionam como uma armadura, e muitos motoristas vivem como se estivessem de fato em uma guerra. Sem calçadas e iluminação, faltam aos pedestres também as "armaduras".
 
Aí surgem, para minimizar os danos, o tal do transporte público, ou os táxis. Em muitos lugares, utilizar o transporte público é também uma aventura diária. Do motorista que leva consigo a peixeira para impedir passageiros inadimplentes, aos jeitinhos e malandragens no trânsito, passando pelas más condições do veículo, tudo é muito interessante. Mas não pense o vivente que o táxi, por ser considerado um bem de luxo, seja muito diferente. Não são raros os taxistas que também vivem em guerra, "vestem" armaduras, e dão sempre um jeitinho para tirar o seu "a mais".
 
Dado o estado das coisas, resta tudo aquilo que é informal. O mais interessante é que, no meio do apuro, sempre aparece uma alma caridosa para ajudar. A informalidade compensa o desbalanço: todos ferrando aos outros em nível formal; ou ajudando, na informalidade. 
 
Tudo tão óbvio, e tão banal, não é mesmo? Qualquer hora conto a história do fulano que viveu alguns anos sem geladeira ou fogão. Ou sobre aquele meu amigo que passou 6 meses apenas com 1 miojo por dia. Mas talvez sejam outras histórias. ;)  
 
*** 
- O Marcus mudou de endereço. Vale muito a pena conferir. 
- Sobre prefeituras e bicicletas, o Leandro escreve e escreveu um ótimo post

3 Comments »

  1. Marcus Says

    Sei lá, acho que sou meio povão mesmo. Uso na boa os ônibus que todo mundo diz que são sujos, e nem acho tudo isso.

    Tá certo que só morei em bairros não muito distantes, com várias opções. Sei que a vida de quem mora na periferia e tem que vir para o centro é bem ruim. Mas também acho que há um pouco de exagero nas críticas.

    Valeu pelo link, é uma honra. Lembro que comecei a ler o seu blog depois que você foi indicado naquele concurso alemão.

    RE: Salve Marcus!
    Esse é que é o negócio: as filas são ruins o suficiente, mas não insuportáveis; a espera pelo ônibus, pela saúde, pelo policial, também. Não estaria aí um grande problema, o de que os bens públicos são ruins, mas não tão ruins assim?
    abração,

    Made on October 8, 2007 @ 11:01 pm

  2. _Maga Says

    O que considero interessante é que quando você resolve quebrar com a regra do absurdo e usar o bom senso é taxado de louco. Existe um medo enorme em testar o que não é convencional, apesar de muitas vezes ser o mais lógico. Mais do que isso: há um medo enorme em pensar.

    E ai seguimos comprando carros cada vez mais caros, instalando alarmes cada vez mais barulhentos, nos escondendo em casa por medo de sair a rua. Mas quanto mais nos escondemos mais medo temos, quanto mais os alarmes disparam menos atenção prestamos a eles, quanto mais caro o carro menos gente carregamos nele.

    É a lógica do improvável. Não é a lógica do impensavel: é apenas a lógica dos que não pensam.

    Um abraço!

    Made on October 9, 2007 @ 2:09 am

  3. leandro Says

    Essa da peixera é nova! Transitar, locomover-se simplismente já virou uma guerra. E os maiores assassinos, os motoristas, sempre podem responder em liberdade. Afinal, eles tem carro, não?

    Made on October 9, 2007 @ 3:52 am

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