October 16, 2007

A corrente da página 161

http://img152.imageshack.us/img152/8686/150pxlionfaceddeitywd0.jpgRecebemos dos Perrusi o "meme" da página 161. Ele é mais ou menos assim:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.”

O livro que estava mais próximo no momento de receber o meme é "Os Evangelhos Perdidos", de Darrell Bock; aquele que recebemos do Batista. Trata-se de um estudo introdutório dos evangelhos apócrifos. Sobre o assunto, Jacir de Freitas tem um belo site. Bock se apoiou na "moda" do Código Da Vinci, tipo de contexto que tende a não dar muita credibilidade a escritos relacionados. Mas também não quer dizer necessariamente que deva ser por isso um mal livro. No fim das contas, é sempre a leitura ‘quem’ resolve.


Pontos negativos: o livro tem uma série de declarações em tom de "instrução", subestimando a inteligência do leitor. Apela também às vezes a analogias bem indigestas com dinâmicas das empresas. Como chamariz editorial, comete logo na capa um pecado: Trata da "verdade por trás dos textos que não entraram na Bíblia".

Pontos positivos: o autor apresenta preliminarmente o debate acadêmico no qual vive. Cita muitos autores, percorre várias hipóteses dos estudiosos, menciona versões e traduções. Enfim, não apenas apresenta, mas também problematiza (mesmo que en passant) o que apresenta.

O livro talvez sirva a um universo de interesses que é mais ou menos o seguinte: gostaria de compreender daqui a uns 30 anos (daí o interesse incipiente em Peter Brown, a Bíblia de Alonso Schökel e seu dicionário, Norman Cohn, e outras coisas) como o cristianismo nascente se diferencia tanto da cultura greco-romana e do judaísmo, constituindo no mesmo movimento uma ortodoxia, e uma série de "práticas de si" herdadas daquelas vertentes, mas ao mesmo tempo recolocadas sobre preceitos novos. Por exemplo, como o tema da "conversão", inspirado em certas práticas da filosofia pagã, se reformula como uma espécie de auto-conhecimento e auto-decifração que alinha o fiel pela Regra à condição divina; como esse tema do auto-conhecimento se distancia das correntes cristãs gnósticas; como o cristianismo continuou como um apanhado de várias práticas, desde as que se fiam na Regra até uma série de atitudes místicas e de certo modo singulares; como certas práticas "místicas" se refletem no cristianismo contemporâneo, em figuras como Thomas Merton; quais as relações entre essas práticas e perspectivas cristãs e o judaísmo da época; e como isso tudo poderia refletir em questões contemporâneas.

Não cheguei na página 161. Mas lá consta uma citação do Discurso sobre a Cruz, de Melito de Sardes. Sustentando ao mesmo tempo o aspecto humano e divino de Jesus, diz o seguinte:

 Ele sustentou cada traço que lhe pertencia numa natureza imutável: ele estava diante de Pilatos e, ao mesmo tempo, estava sentado com seu Pai; ele foi pregado no madeiro, mas era o Senhor de todas as coisas.

***

Imagem acima: Representação do demiurgo gnóstico Yaldabaoth, por Bernard de Montfaucon

Passo a bola adiante para: Eduardo Graça, Leandro, Robson, Palatando e Marcela

Op´s… Acho que reproduzi a primeira frase, e não a quinta… emoticon 

***

Pérola do Evangelho de Tomé (no contexto dos textos ortodoxos acusados de machistas, e os encontrados recentemente, "progressistas"):

Simão Pedro disse: Seja Maria afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida.
Respondeu Jesus: Eis que eu a atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos céus.

2 Comments »

  1. Artur Says

    Curioso, teus interesses são bem diversificados. Cabra voraz. Essa questão que você colocou, isto é, saber como “o cristianismo nascente se diferencia tanto da cultura greco-romana e do judaísmo” é, de fato, muito interessante.

    Bem, sou diletante no assunto, mas um bom ponto de partida (pelo menos, alguns amigos especializados em “sociologia da religião” recomendaram-no) são os estudo de Weber sobre as religiões, em particular sobre o judaísmo e o cristianismo.

    Li trechos — chega a ser estonteante a capacidade de Weber em juntar e articular pesquisa factual e histórica com discussão sociológica. Certo, no fundo, Weber interessa-se pela articulação entre economia e religião, mas, nos seus estudos, ele entra dentro da discussão propriamente religiosa, produzindo quase uma “sociologia das doutrinas religiosas”.

    RE: Muito interessante Artur, nunca imaginei e nem tinha ouvido falar! Especialmente a partte sociologica parece bem interessante, ainda mais se estiver articulada com critérios teológicos, formação das primeiras comunidades, dinâmica das comunidades antigas, e coisas do gênero.
    abração,

    Made on October 16, 2007 @ 4:08 am

  2. Caminhante Says

    Oi! Passei aqui pra dizer que meu blog virou de acesso restrito. Pra receber o convite, me mande um e-mail . Bjs!

    RE: Ué, recebi o convite, já cadastrei!

    Made on October 16, 2007 @ 4:48 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.