October 17, 2007

Os “Evangelhos Perdidos”

 Terminei de ler Os Evangelhos Perdidos, de Darrell Bock, presenteado pelo Batista. Pequena brecha no tempo cheio…

O panorama geral são os novos resultados das pesquisas sobre os textos encontrados em Nag Hammadi. Descobriram-se lá vários evangelhos Gnósticos ou com traços gnósticos. Segundo a moda recente de livros como o Código Da Vinci, esses livros revisariam tudo o que conhecemos sobre o cristianismo. Por exemplo, contra idéias "machistas" dos evangelhos tradicionais, os novos mostrariam também a importância das mulheres.

Junto a esses modismos, uma série de acadêmicos sustentariam as novas teses. Bock pretende refutá-las. Para isso, empreende dois critérios centrais na argumentação. O histórico julga os textos conferindo uma autoridade "relativa" com base na própria antiguidade. Textos mais antigos teriam maior valor por se aproximarem dos ensinamentos mais antigos. O segundo critério seria o da coerência dos textos entre si, não apenas na forma, mas no conteúdo. Textos mais coerentes e antigos tenderiam a se aproximar mais das idéias e práticas dos "fundadores" do movimento.

Quanto à forma, textos tradicionais e ‘apócrifos’ coincidiriam em vários pontos e temas, tais como a ressurreição e a divindade de Jesus. Quanto ao conteúdo, haveriam diferenças marcantes, e mais: separadas em momentos históricos distintos. Bock situa os evangelhos tradicionais no século I, enquanto os textos de Nag Hammadi datariam do fim do século I (partes do Evangelho de Tomé) ao IV. Ainda, enquanto os textos apócrifos não teriam grandes princípios de coerência no conteúdo, encontra-se certa coerência em todos os textos tradicionais.

Conclusão: os textos considerados "tradicionais" são para Bock mais antigos, e mais coerentes entre si, do que os outros textos. Isso permitiria concluir que estariam mais próximos dos ensinamentos dos primeiros cristãos. Ainda, se a ortodoxia cristã foi criada apenas no século III, haviam elementos prévios que a tornaram possível; não foi apenas um gesto arbitrário de padres que "ganharam" poder.

Pontos negativos (como já comentamos): o livro tem uma série de declarações em tom de "instrução", subestimando a inteligência do leitor. Apela também às vezes a analogias bem indigestas com dinâmicas das empresas. Como chamariz editorial, comete logo na capa um pecado: Trata da "verdade por trás dos textos que não entraram na Bíblia".

Pontos positivos: o autor apresenta preliminarmente o debate acadêmico no qual vive. Cita muitos autores, percorre várias hipóteses dos estudiosos, menciona versões e traduções. Enfim, não apenas apresenta, mas também problematiza (mesmo que en passant) o que apresenta.

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