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November 18, 2007

Che Guevara, Lee Anderson, e a Veja


Para não passar em branco (se isso ainda é possível): quando a Veja publicou a última reportagem sobre Che Guevara ("Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa"), Jon Lee Anderson (um dos principais biógrafos de Che) enviou uma carta a Diogo Schelp, editor da Veja. A carta era um manifesto sobre como a reportagem utilizou o livro de Anderson, empregando idéias contrárias às defendidas pelo próprio autor.
 
Sem conseguir contato efetivo, Anderson resolveu tornar pública sua resposta. Ela foi traduzida e publicada no blog Pedro Doria. Reinaldo Azevedo misturou uma série de coisas, como confundir a própria discussão elencada por Anderson com a qualidade da tradução de Doria, chamar esse último de esquerdopata simplesmente pelo ato da tradução, e desviar a discussão sobre o uso do livro na reportagem para uma série de imputações ad hominem. Publicou ainda (mesmo link) a resposta de Schelp.
 
O Hermenauta acompanhou a discussão, que resultou em uma resposta de Pedro Doria.
 
Finalmente, Anderson respondeu (aqui também) a Schelp, colocando a discussão no seu devido lugar (o uso que a Veja fez do livro de Anderson, e a discussão elencada por ele a respeito desse uso). Tomo a liberdade de destacar algumas passagens:
Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivalente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. (…) Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.
 
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.
Está tudo aí: o papel do jornalista como divulgador de informações, a cautela quanto a enunciar juízos ou teses (especialmente amplas e taxativas), a tentativa de rigor e imparcialidade, e afins.
 
Não li a biografia de Anderson para saber para que "lado" ela "tende". Mas vale destacar na carta acima algo sagrado para qualquer profissional das letras: tentar desviar-se das "hagiografias e demonizações" (não em função do mito da imparcialidade, mas do rigor). Especialmente em figuras populares e mistificadas como Che. Vale a pena ler a resposta inteira, e rever a discussão, para avaliar.

6 Comments »

  1. César Says

    Mais uma vez, o pseudojornalismo de Veja é desmascarado.

    Mas, no fundo, penso que tal desmascaramento, apesar de importante, dá em nada, pois a revista só é lida por pessoas que escolhem pseudo-informarem-se.

    Made on November 18, 2007 @ 10:15 pm

  2. Ricardo Cabral Says

    Resolvi seguir essa discussão em outros cantos, tenho ficado basicamente no Pedro Doria. De fato, até agora não vi ninguém desmontar os argumentos do Anderson, no máximo fazer comentários tolos sobre ser despeitado, estar chateado por não mais vir a ser publicado na Veja e outras tolices do gênero… Esperemos os esperneios no RA, e quem sabe mais uma tentativa pueril do próprio Schelp.
    Parabéns pelo blog, voltarei certamente mais vezes!

    Made on November 18, 2007 @ 10:43 pm

  3. Robson Faggiani Says

    Infelizmente, concordo com o César.
    A revista é feita para quem quer continuar nublado.

    Made on November 19, 2007 @ 11:14 am

  4. Rachel Says

    Ah não, Fred! Até vc nesse assunto? :/

    De tão surpreendida até esqueci o que ia falar…

    beejo

    RE: Fred? Sô Fred não!!
    ;)

    Made on November 19, 2007 @ 1:55 pm

  5. Adriano Says

    É incrível como as pessoas odeiam Veja e RA e consideram “ser bem informado” ler aquilo que concorde com sua linha ideológica.

    RE: Concordo que isso é incrível, como também é o mesmo procedimento do RA e de muitos redatores e leitores da Veja. Não se trata propriamente da direita ou da esquerda, mas do modo como as coisas se colocam

    Made on November 19, 2007 @ 5:19 pm

  6. Luis Says

    um artigo para completar esta leitura!
    http://segundasintencoes.wordpress.com/2007/12/05/o-verdadeiro-che/

    Made on December 6, 2007 @ 5:49 pm

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