November 20, 2007

Pergunta para liberais e socialistas

O aniversário de 40 anos da morte de Che, junto com os 90 da Revolução Russa, estão dando o que falar nos blogs brasileiros. Vemos, nos blogs mais independentes, um cuidado para mostrar pesos e medidas dos regimes cubano e russo, no que teriam de melhor e/ou pior. Por outro lado, as opiniões se dividem entre associações entre socialismo real e ideal, em alguns blogs, ou em outras posições ingênuas, como a crença de que as mesmas regras pregadas por Adam Smith no século XVIII funcionariam perfeitamente hoje em dia (é o ‘argumento’ que Diogo Mainardi usa para explicar como se tornou um ‘porco direitista’, por exemplo).
 
Nisso, gostaria de formular uma pergunta aos leitores. Ela fica mais ou menos assim: qual é o estatuto atual do marxismo e do liberalismo, caso enfrentemos o fato de que são idéias dos séculos XVIII e XIX, e que muito duvidosamente foram empregadas de forma plena? Pois, se funciona o argumento de que socialismo ideal não é o real, o mesmo ocorre caso consideremos que a total autonomia do mercado implica diretamente a autonomia de todos os indivíduos. Algo um tanto… inexato.    
 
Certa vez Georges Canguilhem, referindo-se a Jeremy Bentham, mostrava como um certo utilitarismo do século XVIII acabou se transformando em instrumentalismo, nos séculos XIX e XX. Caso consideremos noções como "autonomia" e "liberdade individual", a diferença é decisiva: se o utilitarismo implicava utilidade para o homem, o instrumentalismo visa utilidade do homem. Este deixa de ser fim em si mesmo, para tornar-se meio. Daí encontramos um desnível: se as idéias de Adam Smith estariam mais próximas das noções "utilitaristas", a crítica de Marx ao capitalismo, e nosso contexto atual, mostram práticas mais "instrumentalistas". Tanto um neoliberalismo de grandes corporações, quanto a máquina estatal estalinista, empregam (ou empregavam) o homem como meio.

7 Comments »

  1. Márcio Pimenta Says

    Caro Catatau,

    Interessante questionamento. Mas a bem da verdade, não creio que o mundo de hoje comporte um estatuto marxista. Nem mesmo liberal (embora este resista por ter vencido a Guerra Fria, mas o tempo o desgasta de forma acelerada).

    Creio que o que se pode obter para o mundo de hoje são apenas valores de ambos os pensamentos. O pior das duas linhas foram querer anular a outra, apontando o oposto como o impossível. Todos nós saímos perdendo.

    Abraços!

    RE: O que acho interessante nisso, Marcio, é o debate político brasileiro: debatem-se muitas idéias, ao mesmo tempo em que práticas correm ao largo, alheias ao debate… Ao mesmo tempo, vemos um monte de querelas entre os “lados”. Daí, reponho a pergunta, o que vc acha?
    abração,

    Made on November 21, 2007 @ 1:29 am

  2. Cecilia Arbolave Says

    Catatau!
    Estou procurando teu email… Pode passar ele? Assim mando as novidades do livro (e o convite para o lançamento! =P)
    Beijos!
    Ceci

    Made on November 21, 2007 @ 2:48 am

  3. Dai Says

    Olá, caí aqui através do Curitibocas.
    Prazer ;)

    Ah… depis de tua reflexão aí, meu nobre, me ocorreu que talvez tenhamos sim, um novo Sistema tendencioso num futuro próximo. Talvez a moderação de todos os já conhecidos, mas com um diferencial em consenso: estamos chegando à era das máquinas, do homem-máquina. Me faz pensar (tomara) que o homem - trabalhador e operário, possa se dar finalmente ao luxo de pensar, e pensando talvez haja possibilidades de viajar no tempo e reencontrar Marx e Nietzsche, por exemplo.
    Mas é só um delírio. Quem sabe nem é gente que está teclando aqui hehe.

    Beijo. :)

    RE: Oi Dai, prazer em conhecer!
    Fique à vontade por aqui, puxe um sepo e continuemos a tertulia
    bjs,

    Made on November 21, 2007 @ 1:04 pm

  4. Cássio Augusto Says

    Vale a pena a leitura do livro “Direita e Esquerda” do Bobbio!!!

    Made on November 22, 2007 @ 12:39 pm

  5. carlos maia Says

    Nem uma coisa e nem outra. Nem estatismo exagerado e nem mercado totalmente livre. É impossível imaginar um país como o Brasil resolver seus problemas sem um Estado razoavelmente forte, fiscalizador e controlador e que possa prestar um serviço público eficiente e de certa qualidade para quem efetivamente precisa: a população de baixa ou nenhuma renda.

    RE: Penso que o Maia colocou a pendenga em um bom caminho. Mas aí seria interessante perguntar: em que medida?

    Made on November 23, 2007 @ 4:58 pm

  6. Jonathan Says

    Não sei se é justo chamar de marxismo aquilo que foi empregado nas revoluções de países semi-capitalitas(ou até, pré-capitalista). A não ser que lembremos a famosa frase de Marx que disse “Eu Marx não sou marxista”. Mas um estudioso mais atento do “Socialismo Científico” perceberá facilmente que o liberalismo (econômico e político) para Marx é um condição anterior para o socialismo. Isso não tira o mérito dessas revoluções que são devidamente conceituadas como jacobinas. Se chamarem de “socialistas” é resquício de uma mentalidade coloniza que “importou” o discusso revolucionário das metrópoles que viviam outra realidade. Todo capitalismo moderno nasceu com forte intervenção estatal.

    Made on April 11, 2008 @ 2:23 pm

  7. Jonathan Says

    Não sei se é justo chamar de marxismo aquilo que foi empregado nas revoluções de países semi-capitalitas(ou até, pré-capitalista). A não ser que lembremos a famosa frase de Marx que disse “Eu Marx não sou marxista”. Mas um estudioso mais atento ao “Socialismo Científico” perceberá facilmente que o liberalismo (econômico e político) para Marx é um condição anterior para os socialismo.

    Se são países pré-capitalistas, se todos culminam ou estão culminando para o mais pragmático liberalismo econômico, se para Marx o socialismo só é possível nas condições de capitalismo avançado. Nos resta apenas reconhecer o mérito das revoluções neojacobinas, mas delimitá-las a um outro conceito, que não seja o socialismo, ou pelo menos não o socialismo científico que Marx desenvolveu.

    Made on April 11, 2008 @ 2:27 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.