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November 29, 2007

O papel social das bicicletas


O texto é de Aziz Nacib Ab`Sáber

O uso habitual e generalizado da bicicleta em uma cidade qualquer depende de alguns fatos essenciais. Num lugar prioritário entra a questão das características morfológicas do sítio urbano, onde a cidade estabeleceu sua estrutura de ruas, praças e tentáculos.

Cidades nascidas e crescidas em rasas planícies de restingas propiciam o uso mais amplo de bicicletas, engendrando um papel social que raramente tem sido registrado. Por sua vez, cidades implantadas em regiões acidentadas, desenvolvidas espacialmente em encostas de morros, morrotes e colinas, têm grandes limitações para o uso mais amplo de bicicletas. É o caso dos organismos urbanos estendidos por colunas onduladas possuidoras de rampas e ladeiras como alguns dos pontos tradicionais, que perderam a chance da utilização mais intensa dos biciclos. Ainda que pudessem ter ciclovias de uso parcial, limitadas a setores mais planos de seu sítio urbano, como planície e terraços fl uviais. No caso, torna-se inoperante a pressão de pessoas simplórias e da mídia na defesa de um sistema urbano de ciclovias. Tendo-se de considerar sempre para as grandes cidades o problema da intensidade do emaranhado de veículos de toda sorte. Não é preciso dizer que estamos pensando no caso da Grande São Paulo. Nessa conjuntura, o uso da bicicleta em redes mais amplas é praticamente impossível. [continua]

Aziz inicia associando o uso da bicicleta a partir do perfil de cada região geográfica. Depois expõe sobre as regiões costeiras, que por serem planas, ofereceriam melhores condições para o uso. Finalmente, cita o exemplo de Ubatuba, algo como uma situação interessante sobre o uso generalizado e social do veículo.

Achei o texto um pouco estranho. Aziz não associa o uso da bicicleta a projetos de urbanização, por exemplo. Ele cita positivamente o exemplo de algumas cidades costeiras que não oferecem condição favorável alguma aos ciclistas, exceto a planície. Ora, algo que seria perfeito, mas falta a um grande número de cidades costeiras, são ciclovias, ou mesmo alargamentos da pista para o uso das bicicletas. Geralmente elas transitam na mesma via que os carros. Especialmente em períodos de temporada, fazer isso é perigoso.

Projetos de urbanização independem de condições geográficas. Obviamente, criar ciclovias em uma região repleta de ladeirões não denota uma decisão muito sábia. Mas salta aos olhos como não se pensa em urbanização diretamente relacionada às bicicletas, especialmente em regiões em que poucas pessoas possuem carros.

November 28, 2007

A Felicidade, e O Brasil nas Copas de 50 a 70


 Uma bela exposição, do Arquivo Nacional
 
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 Com Ademir como artilheiro, a seleção chega à final e perde para o Uruguai. O impacto dramático do resultado obscurece o segundo lugar e o brilho do time de Nilton Santos, Jair Rosa Pinto, Zizinho, entre outros. A Copa de 1954, na Suíça, passa rápido para nós e com três jogos voltamos para casa.

Tudo muda em 1958: o Brasil bossa nova, o Brasil de JK, vence a sua primeira Copa do Mundo, na Suécia, com Pelé, craque aos 17 anos e Garrincha esbanjando genialidade. Finalmente a ‘taça do mundo’ vinha para as nossas mãos. (…)

 Outra exposição belíssima: "Instantâneos da Felicidade", transitando pelo país.  Contém 50 fotos de vários artistas, desde Henri Cartier-Bresson até Sebastião Salgado. Sem contar o belíssimo gol de bicicleta de Pelé em 1965:    
 
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Meias Vermelhas 

 
 
Outra dica interessante é o lançamento do livro Meias Vermelhas e Histórias Inteiras, do hedonista, blogueiro e psicólogo Marcos Donizetti. Será dia 3 de dezembro, em São Paulo. Mais informações sobre o livro e o evento.
 
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Respondendo ao comentário do Robson ;) :
 

Brasil entra no grupo de países de alto IDH


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 O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil aumentou em relação ao ano passado e permitiu que o país entrasse pela primeira vez no grupo dos países de Alto Desenvolvimento Humano.   
 
Em termos absolutos, o país ultrapassou a barreira de 0,800 (linha de corte) no índice — que varia de 0 a 1 —, considerada o marco de alto desenvolvimento humano. Em termos relativos, o Brasil caiu uma posição no ranking de 177 países e territórios: de 69º, em 2006, para 70º este ano. [informe completo]

November 27, 2007

O “Segredo securíssimo para não mais morrer”


O último post do BibliOdyssey traz gravuras do fim do século XVII, e uma fonte de dados tão valiosa que, segundo o Mr. PK, equivale à Livraria do Congresso norte-americano. Vale muito a pena conferir ;)
 
No informe, ele destaca algumas gravuras retiradas desse recurso. Dentre as várias, duas são muito interessantes (tomo a liberdade de reproduzir e trair, quer dizer, traduzir):   
 
 Secreto sicurissimo per non mai morire
No título: "Segredo securíssimo para não mais morrer". Abaixo, a receita: "Quando a morte vier buscá-lo, você deve repentinamente soprar em sua face; mas deve fazer sem parar, pois se parar, você morre"
 
Na outra gravura,
Machina del Mondo, ogn'un cerca di star sopra il compagno A "Máquina do Mundo" apresenta uma pirâmide social, dos maltrapilhos ao rei. Por sobre todos, a Morte declara: "E eu, tudo equilibro".  
 
O tema dessa gravura parece ser bem afim a um antigo post (também referido ao BibliOdyssey), sobre ritos do Renascimento intitulados "Dança da Morte". Lá, por meio de expressões estéticas e rituais festivos, as hierarquias e valores mundanos eram desfeitos e tornados irrisórios, em nome de implicações exteriores aos caprichos do homem. Tratava-se de uma verdadeira invasão da alteridade no seio do convencional, do familiar.
 
O livro de Sebastian Brant, Stultifera Navis, parece corresponder a esse tipo de relação. Os loucos embarcados para um lugar mítico representavam cada tipo mundano, e uma espécie de ironia que zombava de seu caráter irrisório. O que parece interessante, nisso tudo, diz respeito a como essas duas gravuras são bem mais recentes que o Totentanz, ou a Nave de Brant.
 
As duas são de  Giuseppe Maria Mitelli, pintor italiano. O próprio PK fez o trabalho de referenciar outros posts a respeito desse pintor, direcionados ao agora extinto Giornale Nuovo.

November 26, 2007

Nem hagiografias, nem demonizações


Após a declaração de Diogo Schelp sobre Jon Lee Anderson não mais aparecer na Veja (links), olha ele, ironicamente mostrado, no Radar da última edição ("O destemido Anderson: ele escreve e assina embaixo"):

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 No título, "O assassino e fedido Che, segundo Jon Lee Anderson". E Reinaldo Azevedo complementa:

O quadro acima está publicado na VEJA desta semana. A revista exalta a coragem de Jon Lee Anderson por ter escrito a verdade sobre Che Guevara, inclusive o cheiro que exalava o Porco Fedorento. Seus métodos tolerantes e humanistas também estão retratados no livro. Nada que um leitor de Régis Debray já não soubesse. Dá para entender por que Anderson se perdeu na retórica de alguém com a vaidade ferida, mas não contestou uma só informação da revista.

O que faz voltarmos um passo, à resposta anterior de Lee Anderson ao editor Diogo Schelp:

Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’. Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão (…)

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

A operação é curiosa: diante das discussões sobre "lista negra" do jornalismo, e o ainda morno affair, lá está o Lee Anderson. Mas um Anderson peneirado, anti-Che. Contra as hagiografias, demonizações.

Deve haver uma escola de jornalismo que explique tal… operação.

Pensar ainda enlouquece?


As ciências
"das coisas cujas relações são difíceis de apreender porque pouco sensíveis a nossos sentidos, ou porque suas relações demasiado multiplicadas, obrigam-nos a um grande esforço em sua pesquisa, constituem para a alma um exercício que cansa demais o sentido interior através da excessiva tensão contínua desse órgão"
A citação é do Nouveau Traité des Vapeurs (1770), de Jean-Baptiste Pressavin.
"nos letrados, o cérebro endurece, frequentemente tornam-se incapazes de ligar idéias" (Avis aux gens de lettres sur leur santé, de Simon-André Tissot [1767]).
Não consegui encontrar a edição virtual dessas obras. Mas poderia-se complementar que o gosto pelas especulações abstratas, e o excessivo exercício do cérebro sem o cuidado com o corpo, endurece esse órgão da mesma forma que os músculos de um trabalhador manual, segundo esses fisiologistas do século XVIII. O conhecimento, abstrato e distante do sensível, provoca uma tensão excessiva no cérebro, agita os vapores, e pode resultar em loucura.
 
Concluindo: pensar pode levar à loucura (!).  O que talvez seja mais verdadeiro quanto mais nos aproximamos do fim do ano (olha o perigo, Inagaki!) ;)

November 24, 2007

Yanomami, de Claudia Andujar


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*** 
 
Fora por alguns dias, voltando ao ‘normal’. Vários posts dos ‘fellows’, e comentários para ler e considerar.
 
Permanece aberta a pergunta sobre liberalismo x socialismo. Alguém se habilita?
 
E boas-vindas aos novos leitores. ;)  

November 21, 2007

Curitibocas


Você visita Curitiba, conhecida como "cidade modelo", lugar de "gente educada", e afins. De repente, se depara com uma figura assim:      

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O que? Um sujeito de sunga e cheio de óleo, passeando de bicicleta em pleno inverno curitibano? Steven Seagal em nova missão? Arnold Schwarznegger com rabo de cavalo? Elvis Presley, ciclista e reencarnado? Não, é o Oilman!

O Oilman é apenas um, dentre outros quase 20 personagens urbanos de Curitiba (mais ou menos "reais"), que João Varella e Cecilia Arbolave entrevistaram para compor o livro Curitibocas - Diálogos Urbanos. Trata-se de um perfil da capital paranaense, contado por várias de suas figuras.

O lançamento ocorrerá dia 7 de dezembro, às 19 horas, na Livraria Saraiva do Shopping Cristal. O livro custará 29 reais.

Para saber mais, o blog do livro publica todas as informações, e também criou um vídeo de divulgação.

November 20, 2007

Pergunta para liberais e socialistas


O aniversário de 40 anos da morte de Che, junto com os 90 da Revolução Russa, estão dando o que falar nos blogs brasileiros. Vemos, nos blogs mais independentes, um cuidado para mostrar pesos e medidas dos regimes cubano e russo, no que teriam de melhor e/ou pior. Por outro lado, as opiniões se dividem entre associações entre socialismo real e ideal, em alguns blogs, ou em outras posições ingênuas, como a crença de que as mesmas regras pregadas por Adam Smith no século XVIII funcionariam perfeitamente hoje em dia (é o ‘argumento’ que Diogo Mainardi usa para explicar como se tornou um ‘porco direitista’, por exemplo).
 
Nisso, gostaria de formular uma pergunta aos leitores. Ela fica mais ou menos assim: qual é o estatuto atual do marxismo e do liberalismo, caso enfrentemos o fato de que são idéias dos séculos XVIII e XIX, e que muito duvidosamente foram empregadas de forma plena? Pois, se funciona o argumento de que socialismo ideal não é o real, o mesmo ocorre caso consideremos que a total autonomia do mercado implica diretamente a autonomia de todos os indivíduos. Algo um tanto… inexato.    
 
Certa vez Georges Canguilhem, referindo-se a Jeremy Bentham, mostrava como um certo utilitarismo do século XVIII acabou se transformando em instrumentalismo, nos séculos XIX e XX. Caso consideremos noções como "autonomia" e "liberdade individual", a diferença é decisiva: se o utilitarismo implicava utilidade para o homem, o instrumentalismo visa utilidade do homem. Este deixa de ser fim em si mesmo, para tornar-se meio. Daí encontramos um desnível: se as idéias de Adam Smith estariam mais próximas das noções "utilitaristas", a crítica de Marx ao capitalismo, e nosso contexto atual, mostram práticas mais "instrumentalistas". Tanto um neoliberalismo de grandes corporações, quanto a máquina estatal estalinista, empregam (ou empregavam) o homem como meio.

Eugenia, biologia, história, e cultura do ódio


 O História Viva publicou um interessante texto (Eugenia, a biologia como farsa) sobre o nascimento da eugenia e seu atrelamento a discursos científicos do século XIX. Especial atenção ao nascimento das várias modalidades de darwinismo social, e a curiosa articulação da nova biologia com medidas institucionais e jurídicas. O artigo menciona até mesmo projetos brasileiros como o de Renato Kehl, no início do século XX.
Em meio ao clima de crença inabalável na ciência, o naturalista inglês Charles Darwin publica em 1859 o livro fundador do evolucionismo: A origem das espécies. As descobertas de Darwin mostravam que no mundo animal, na permanente luta pela vida, só os mais bem adaptados sobrevivem e os mais bem “equipados” biologicamente têm maiores chances de se perpetuar na natureza. As teses de Darwin logo são transportadas para outros campos do conhecimento em uma tentativa de explicar o comportamento humano em sociedade. Surge assim o darwinismo social, que apresenta os burgueses como os mais capazes, os mais fortes, os mais inteligentes e os mais ricos.

O cenário estava armado para que o primo de Darwin, o pesquisador britânico Francis Galton, se apropriasse das descobertas do naturalista para desenvolver uma nova ciência. Seu objetivo: o aperfeiçoamento da espécie humana por meio de casamentos entre os “bem dotados biologicamente” e o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de casais saudáveis. Seu nome: eugenia.

A autora é Pietra Diwan, que publicou Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo
 
A propósito: vale a pena ver o documentário A Cultura do Ódio, disponível no Youtube. O mais cômico - se não fosse trágico - são os skinheads ou carecas paulistas, e suas idéias gestadas no vaso, ou encontradas no lixo. Um deles sintetiza: "Heil Hitler e acabou, não tem idéia". Não é que já se suspeitava? ;)
 
A propósito do propósito: vale a pena conferir o informe sobre Leni Riefenstahl, os carecas, e o nazismo.
 
Sobre racismo e cotas raciais, interessante rever esse texto.
 
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