November 20, 2007

Os blogs políticos e as torcidas

Não encontrei os links de alguns textos publicados recentemente, sobre muitos blogs se tornarem veículos de ódio. Às vezes o "negócio" esquenta nos blogs políticos, e via de regra pelo mesmo mecanismo: cada "lado" da discussão jogando acusações, ofensas, e farpas para o outro. O resultado é previsível. Algo como comportamento de trânsito, e torcida organizada. O que dá a péssima impressão de que o brasileiro só se manifesta publicamente com seus grunhidos privados. No país do jeitinho, dá-se um jeitinho para ser ouvido, nem que seja no grito.
 
Não encontrei também uma outra declaração recente, mas essa sim seria importante. Trata-se de um alto funcionário dos EUA que dizia, para os "intelectuais", e a propósito das guerras dos últimos anos, algo como "enquanto vocês pensam, nós agimos".
 
Passando para nosso contexto, essa frase diz tudo: enquanto certos comentadores e blogueiros se organizam como a Mancha Verde e os Gaviões, ao lado do quebra-quebra tudo se passa muito bem. Ao lado das brigas e grunhidos os acontecimentos passam, e mostram o óbvio: tal posicionamento resumido ao belicismo destitui os próprios debatentes de qualquer voz efetiva.
 
Precisamente essa é a brincadeira que faz Paulo Leminski no seu "Catatau": Descartes vem ao Brasil, e tenta "pensar" por aqui. Mas que nada, os desvarios pululam e formigam, os fumos corroem o cérebro, e tudo se passa muito bem sem o Pensamento. Este se torna apenas um adorno, empregado quando convém, para propósitos que não o requerem necessariamente. Pensar por aqui é uma grande piada! 
 
A grande novidade dos blogs - ou melhor, a novidade das páginas pessoais, algo que se ignora e que já ocorria antes dos blogs - consiste em conferir voz ativa a indivíduos invisíveis, irrisíveis. No voto, uma voz se dissolve em milhões de outras. Mas uma página pessoal br.geocities.com/seunome ou fulano.blogspot.com é apenas um pouco mais difícil de lembrar do que qualquer domínio .com . Basta digitar, e lá está. O acesso, e o ‘risco’ da voz tornar-se efetiva, é muito maior (e ainda teríamos que pensar no fato de que é "maior" apenas para poucos).
 
Mas que nada, talvez seja melhor multiplicar os cunhadismos, os jeitinhos, e nos comportarmos como no estádio de futebol. Uma grande voz ampliada, às vezes muito bonita, que serve ao espetáculo, ou a quebra-quebras eventuais. E só. ;)
 
***
 
Sobre esse assunto, imperdível o post “eu tenho a minha opinião, você tem a sua”, do NossaVia. Toca em um tema cada vez mais frequente: o de que discussões e verdadeiros debates são desfeitos, quando o interlocutor, não aceitando debater os argumentos, solta a pérola. Algo muito comum para evitar discussões em alguns ambientes universitários brasileiros, por exemplo ;)

November 18, 2007

Che Guevara, Lee Anderson, e a Veja

Para não passar em branco (se isso ainda é possível): quando a Veja publicou a última reportagem sobre Che Guevara ("Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa"), Jon Lee Anderson (um dos principais biógrafos de Che) enviou uma carta a Diogo Schelp, editor da Veja. A carta era um manifesto sobre como a reportagem utilizou o livro de Anderson, empregando idéias contrárias às defendidas pelo próprio autor.
 
Sem conseguir contato efetivo, Anderson resolveu tornar pública sua resposta. Ela foi traduzida e publicada no blog Pedro Doria. Reinaldo Azevedo misturou uma série de coisas, como confundir a própria discussão elencada por Anderson com a qualidade da tradução de Doria, chamar esse último de esquerdopata simplesmente pelo ato da tradução, e desviar a discussão sobre o uso do livro na reportagem para uma série de imputações ad hominem. Publicou ainda (mesmo link) a resposta de Schelp.
 
O Hermenauta acompanhou a discussão, que resultou em uma resposta de Pedro Doria.
 
Finalmente, Anderson respondeu (aqui também) a Schelp, colocando a discussão no seu devido lugar (o uso que a Veja fez do livro de Anderson, e a discussão elencada por ele a respeito desse uso). Tomo a liberdade de destacar algumas passagens:
Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivalente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. (…) Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.
 
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.
Está tudo aí: o papel do jornalista como divulgador de informações, a cautela quanto a enunciar juízos ou teses (especialmente amplas e taxativas), a tentativa de rigor e imparcialidade, e afins.
 
Não li a biografia de Anderson para saber para que "lado" ela "tende". Mas vale destacar na carta acima algo sagrado para qualquer profissional das letras: tentar desviar-se das "hagiografias e demonizações" (não em função do mito da imparcialidade, mas do rigor). Especialmente em figuras populares e mistificadas como Che. Vale a pena ler a resposta inteira, e rever a discussão, para avaliar.

A farsa do Aquecimento Global

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"Taming the Yellow Dragon": Exposição de James Whitlow Delano no Digital Journalist, sobre as mudanças climáticas na China (publicamos aqui)

 

 O Velho publicou informações sobre um documentário da BBC intitulado The Great Global Warming Swindle (A grande farsa aquecimento global), da BBC (videos aqui, e com legenda aqui). 
 
O argumento central afirma que, se ocorre aquecimento, não se deve à influência do homem, mas provavelmente a determinados eventos físicos alheios a essa influência.
 
Por outro lado, o ceticismo cabe bem ao interesse dos grandes produtores de petróleo.
 
Numa terceira alternativa, a crença no papel principal do homem apenas favoreceria outros vieses mercadológicos, ou até mesmo a diversificação da atividade das mesmas grandes corporações, alvos das principais críticas. Em outras palavras, trocaríamos apenas o conteúdo, mas a forma da exploração continuaria a mesma:
Muito se falou, não raro com razão, que a indústria do petróleo financiava os céticos. Em 1998, o Instituto Americano do Petróleo (API), poderosa organização que congrega as maiores empresas do ramo nos EUA, tentou arregimentar cientistas que pudessem ir a público e falar das falhas das teorias sobre as causas do aquecimento global. O jornal The New York Times descobriu a tramóia e os céticos começaram a ser vistos com desconfiança.

Por outro lado, seria injustiça dizer que todos os negacionistas sejam vendidos, como os tacha a maioria dos cientistas que defendem a hipótese antropogênica. "Aquecimento global virou uma religião. Falar algo contra a corrente dominante virou heresia", afirma Nigel Calder, ex-editor da revista New Scientist, ele mesmo um "herege" assumido. Calder é um dos principais personagens do documentário The Great Global Warming Swindle ("A Grande Farsa do Aquecimento Global", inédito no Brasil, mas que você vê no site da Super), que foi ao ar na TV inglesa em março. O filme defende uma tese controversa: da mesma maneira que há empresas interessadas em negar o impacto da poluição humana na mudança climática - como as de petróleo, carvão e automóveis -, há pessoas, empresas e grupos de pressão que não se dariam mal com a histeria em torno do aquecimento global.

Esse tipo de tese concorda com livros como o de Naomi Klein, "A doutrina do choque": grandes catástrofes ou transformações geológicas e culturais apenas favoreceriam novos meios de exploração e investimento, e por conseguinte novas possibilidades de consumo. Curto e breve, o aquecimento global seria um "bom negócio": levaria a outros modos de gestão da vida humana, sem modificar significativamente a relação do homem com o mundo.

Mas nada disso toca a pergunta sobre o papel do homem. Não é muito difícil constatar que ocorrem mudanças de clima em regiões com grandes alterações, em curto período de tempo (associação de poluição, hidrelétricas, desmatamento, monocultura…). A chuva ácida e as máscaras utilizadas numa Pequim sob neblina seriam apenas os exemplos agudos. Dado isso, a idéia de que a mudança global do clima se deve às alterações locais dos últimos 150 anos parece bem tentadora. Daí, a conclusão se impõe: formas de vida fundam diretamente padrões de consumo, e vice-versa.

November 16, 2007

Rendition (2007)

 
Trata-se de um filme sobre um engenheiro egípcio preso como terrorista a partir de um engano telefônico. Alguém conhece?
 
Vendo assim, o enredo parece com Road to Guantanamo. Trailer aqui.

“Os Especialistas dizem que…”

Para dar credibilidade a determinado assunto, lemos e ouvimos sempre nos jornais brasileiros o chavão: "segundo os especialistas, a maneira correta de se portar em determinada situação é…"
 
Assinando alguns feeds, como o do Scientific American, é batata: o que serão "especialistas" nos jornais de amanhã, eram cientistas mais ou menos datados e nomeados, no informe de hoje.
 
Claro que matéria jornalística não é científica, não exige o mesmo rigor. Por outro lado, o jornalista se define como um vinculador da informação. Dado isso, não se faz melhor jornalista aquele que informa mais o leitor? Mesmo que pressuponha que a grande maioria se assemelha a Homer Simpson, não haveria prejuízo algum em citar as fontes.
 
Talvez divulgar as fontes dê ao leitor a possibilidade de colocar a notícia em questão. 
 
Desde o escândalo do mensalão, sempre foi estranha certa atitude dos jornalistas: porque concentrar o foco apenas em algumas figuras do PT? Não haveria ali uma matéria gigantesca de apuração? Vai ver existe alguma escola de jornalismo cujos "especialistas" expliquem esse tipo de coisa. ;)

November 15, 2007

A Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira

Uma bela e bem organizada exposição da Biblioteca Nacional (link via PK).

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Comandada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, a Viagem Filosófica foi a mais importante expedição científica portuguesa do século XVIII. Ela percorreu o interior da América portuguesa durante nove anos e produziu um rico acervo, composto de diários, mapas populacionais e agrícolas, cerca de 900 pranchas e memórias (zoológicas, botânicas e antropológicas).

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 Seu excelente desempenho na Faculdade de Filosofia permitiu-lhe, porém, exercer o primeiro cargo de naturalista na burocracia estatal. Teria ele a tarefa de percorrer as possessões “com a laboriosa comissão de ele ser o primeiro vassalo Português, que exercitasse o nunca visto em Portugal, nem antes do feliz reinado de Sua Majestade, exercitado emprego de Naturalista”.

A exposição traz muitas fotos. Acima, destacam-se duas de Guaikurus. Até o início do século XX a Viagem rendeu algumas polêmicas: as descrições de Ferreira são de cunho meramente utilitarista, mercantil, ou se trata de um verdadeiro naturalista? Ainda, vale destacar as condições precárias do incentivo à viagem, e o fim do autor. Ambiguidades que de algum modo lembram aquela passagem de Pero de Magalhães Gândavo, sobre essas terras: o que enfim é isso? lugar sacro (algum lugar que tem um fim em si mesmo), ou fonte de utilitários (mero meio para objetivos situados fora daqui)? 

November 11, 2007

90 anos da Revolução Russa

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imagem dessa galeria 

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November 9, 2007

Quem sabe guardar pra si

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Sempre nas noites do campo,
Onde as almas andam inquietas
E a inspiração dos poetas,
Vai muito além de um olhar.
Surge nas sombras cansadas,
Do fogo que ainda insiste,
Uma lembrança que existe,
Pelos cantos do lugar.

Quem sabe guardar pra si,
Silêncios de um fim de tarde,
Tem Quero-queros de alarde,
Pra anunciação de quem vem.
Desenha sombras pra alma,
Mesmo que a alma não queira,
Pois sabe guardar inteira,
As saudades que se tem.

- Luiz Marenco

November 6, 2007

Armas nucleares apontam para o Eixo do Mal

 Outra noção bem interessante é essa de "Eixo do Mal", caso empreguemos a noção de terrorismo de Robert Fisk como base. O que quer dizer eixo do mal? Países situados em zonas de instabilidade, com governos duvidosos, que buscam supostamente ou realmente fabricar armas de destruição em massa.
 
O Iraque não tinha essas armas. Mas dispõe de petróleo, e recebeu por longo tempo apoio dos EUA. Já o Paquistão, que tem um regime de governo duvidoso em termos democráticos, e armas nucleares, já era de antemão considerado como aliado.
 
Política internacional é coisa complicada. O que parece interessante é toda essa economia de noções (eixo do mal, terrorismo) e compromissos (alianças com países ditatoriais, e combate a outras ditaduras sob o pretexto de não serem democráticas) empregados para legitimar certas ações, e refrear outras. É como já disseram por aí: se argumento humanitário valesse, não existiria pobreza na África.
 
Mas enfim, os EUA apontam armas nucleares para países considerados formal ou informalmente como do "Eixo do Mal". 

Entrevista com Robert Fisk


Créditos do História Viva. Vale muito a pena conferir. Atenção às definições de "terrorismo", terror, como ele situa a Al Qaeda e os radicalismos islâmicos, e afins.

“Terrorismo” hoje é uma palavra usada para eliminar toda a discussão a respeito dos motivos que levam os indivíduos a uma ação armada. Isso acontece, por exemplo, quando se analisa a questão do Oriente Médio sem discutir o papel dos Estados Unidos na região. É por isso que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 publiquei um artigo no qual afirmava que “a única pergunta que não podemos fazer é ‘por quê?’”, pois fazer essa pergunta quer dizer que talvez haja um motivo que tenha levado à realização do atentado. O discurso oficial afirma que é “porque eles são maus, odeiam a democracia, etc.”, mas 19 assassinos eram árabes. Logo, deve haver uma relação entre o que acontece no Ocidente e a nossa política para o Oriente Médio, certo? A palavra “terrorismo” serve hoje para excluir qualquer explicação racional ou contextualização histórica dos fatos. Seu uso se tornou uma espécie de droga, e tem dois objetivos: o primeiro é eliminar toda a discussão sobre um assunto, e o segundo é assustar pessoas comuns. Assustadas, essas pessoas passam então a aceitar que seu governo adote medidas que, em essência, não são nem de direita, mas sim, de certa maneira, ditatoriais, e certamente contra os direitos humanos. Com isso, os governos podem fazer o que quiserem: eliminar a Convenção de Genebra, rasgar as garantias do Conselho de Segurança da ONU, permitir tortura, prisões subterrâneas, assassinato de prisioneiros, Guantanamo, etc.