December 19, 2007

Norman Cohn (1915-2007)

 Só agora este blog soube do falecimento do historiador inglês Norman Cohn, em 31 de julho de 2007. Por aqui, houveram pequenos apontamentos sobre o autor, e seu Caos, Cosmos e o mundo que virá. Informes sobre o escritor, e obituários:
Diz-se, a propósito de seu The Pursuit of the Milenium, que haveria uma certa continuidade entre temas cristãos medievais da salvação vindoura, e crenças contemporâneas como o nazismo e o comunismo. Talvez a analogia seja um pouco precipitada (tanto quanto reúne temas bem distantes no tempo), e aí está uma boa questão a ser resolvida com a leitura do livro. Mas, sobre Caos, Cosmos…, o mote da análise é muito interessante. Respeita diferenças históricas dos textos bíblicos, e sugere hipóteses sobre a evolução do monoteísmo judaico, junto ao nascimento de novas crenças no exílio babilônico.

12 Comments »

  1. Adriano Says

    Mas os mais conservadores e não só sempre se referiram ao milenarismo salvífico do “fim da história” em Hegel/Marx…

    Made on December 19, 2007 @ 7:46 pm

  2. Catatau Says

    Aí está uma boa questão, Adriano, que se desdobra em várias. Por exemplo, já vi aludirem que Negri (uma espécie de marxista espinozano) teria algo como um otimismo bem cristão; no mesmo movimento, encontramos Hardt (seu companheiro) com várias ironias em relação ao crisitanismo.

    Em outro contexto bem diferente, um Chavez diz que haveria uma continuidade entre Marx e Cristo, exatamente ao mesmo tempo em que o Papa publica um texto dizendo que o marxismo acertou, exceto por ser materialista…

    O que eu poderia dizer, sem ser justo pq não li o livro do Cohn, é que imaginar a analogia temática, sem maiores exames, é uma tese bem ousada. Muito embora, pq não? Um Foucault, por exemplo, que para muitos é um historiador da ‘descontinuidade’, encontrará modos de subjetivação cristãos do século III criando várias consequencias para os séculos seguintes. No caso de Cohn, só não consegui ainda ver o ganho de tal argumentação: marxistas reunindo inspirações cristãs? Não ocorreria também, e de certo modo, com os liberais? Quem, enfim, estaria isento de heranças cristãs, mais ou menos longínquas? O que chama a visitarmos o Cohn

    abração,

    Made on December 19, 2007 @ 11:54 pm

  3. Adriano Says

    Opa, obrigado pela detida resposta.

    Mas acho que preciso ser um pouco mais claro. Não é que Marx tenha se inspirado no cristianismo, de forma alguma! Marx via a religião como Bruno Bauer, isto é, como um fenômeno que escraviza os homens. Só que enquanto Bauer achava que os homens poderiam se tornar livres com a mera extinção da religião, Marx diria que não, que seria preciso revolucionar completamente a base socioeconômica para tanto.

    A leitura de Jonathan Wolff é excelente nesse aspecto. No caso, trata-se de uma das seções do artigo que ele escreveu sobre Marx na excelente SEP. Dê um passar de olhos, é excelente.

    O que eu quis dizer, retomando, não é que Marx se inspire no cristianismo. De forma alguma! A religião é parte da superestrutura ideológica e é um dos elementos que, repetindo, escraviza o homem; além disso, ela é mera decorrência de um modo de produção social que é injusto.

    O que é interessante nesse movimento de Marx é que enquanto ele rejeita a religião como mentirosa porque ideológica, ele ainda assim segue a idéia do “fim da história”, que terminaria com a “vinda” do comunismo; é muito engraçado, porque parece que no fundo o que ele fez foi substituir “a vinda do Messias” pela “vinda do comunismo”. (:

    Outro grande abraço, Catatau. (:

    Made on December 20, 2007 @ 1:18 am

  4. Catatau Says

    Eu compreendi o q vc disse, Adriano. Um certo tributo que, se não se paga pelo conteudo, paga-se pela forma. Mas a questão ficou no Cohn (ou com certos historiadores que não sei quanto seriam “conservadores”), e aí a pergunta volta: que ganho Cohn tem ao enunciar o marxismo e o nazismo como tributários, aqui ou ali, de certas tradições cristãs? Não seriam também outras correntes contrárias e alheias a essas duas também tributárias? O que definiria o ‘tributo’, segundo Cohn? De um modo ou de outro, até mesmo negando formas ou conteúdos cristãos, muitos pensamentos enredam-se em suas teias. Sobre Cohn, temos que ir ao livro.

    Made on December 20, 2007 @ 2:49 am

  5. Adriano Says

    Fiquei bastante interessado no livro, Catatau. Mas acho que seria interessante fazer uma leitura comparada entre, sei lá, Eric Voegelin, Max Weber, Hannah Arendt e este Norman Cohn… acho que temos aí um programa de pesquisa… sem contar o próprio Jacques Barzun.

    Sendo conservadores pelo menos Voegelin e Barzun. Weber e Arendt fica para você decidir. d:

    Made on December 20, 2007 @ 5:30 pm

  6. Catatau Says

    Olha, acho que a questão de saída deveria ser menos o ‘conservadorismo’ ou não do que as histórias. A Historia não se separa de certo compromisso com a atualidade, mas não é o compromisso que deve, de saída, conduzir a análise, não é mesmo?

    Mas você citou nomes que fiquei bem curioso, e não conhecia. Li essa entrevista do Barzun, em um momento lúcido da Veja. Já quanto ao Voegelin, tb achei interessante ele chamar o marxismo (e o liberalismo) de “gnóstico”, muito embora teríamos que ver o ganho que ele tem com isso (do mesmo jeito que o Cohn).

    Qto a programa de pesquisa, o problema é o leque de historiadores, e a impossibilidade de encaixá-los nos compromissos atuais e ingênuos de ‘liberal’ e ‘conservador’. Seria melhor buscar visitá-los (cada qual a seu modo), para mostrar como é que divisões como essa, hoje, não dizem muita coisa.

    Made on December 20, 2007 @ 8:36 pm

  7. Hélio Says

    Fui pego de surpresa com o desaparecimento de Norman Cohn. Lamentável! Imputo a ele um papel proeminente em minha confusa formação intelectual. Em um momento de cisão, o livro de Cohn me caiu as mãos e me ofereceu uma visão para além dos fundamentalismos. Obrigado, Cohn!

    Made on December 24, 2007 @ 2:30 pm

  8. Artur Says

    Caso se concorde que o marxismo transmuta, algumas vezes, milenarismo em “socialismo científico”, principalmente quando postula um “espaço-tempo” onde se eliminou todo tipo de escassez, como o comunismo, acho interessante examinar as raízes históricas e ideológicas dessa questão (aliás, acho fundamental isso para a esquerda).

    Stirner, que fez parte da “Sagrada Família”, daria uma boa risada: ora, todos nós somos cristãos (praticamente, disse isso no seu “Único”). Os modelos cognitivos devedores do cristianismo são grudes na “alma”, para o bem ou para mal, difíceis de se livrar completamente. Um outro exemplo: não é novidade comparar a psicanálise com a doutrina cristã do Pecado Original (aliás, a doutrina mais psicologicamente impregnante que conheço) — por que não?! Tal comparação explica alguns buracos negros da teoria psicanalítica. Uma boa discussão dessa questão está em Richard Webster (”The hidden Freud”).

    Adriano: você é o Adriano do “Palatando”? Caso seja, você está aonde, meu rapaz? Nunca vi um cabra para mudar tanto de endereço!

    Catatau, boas festas! Uma boa coisa de 2007 foi conhecer teu blog — o resto foi uma desgraceira tamanha, a começar pela queda do Santinha, o clube do Santo Nome.

    Made on December 27, 2007 @ 12:54 pm

  9. Artur Says

    Caso se concorde que o marxismo transmuta, algumas vezes, milenarismo em “socialismo científico”, principalmente quando postula um “espaço-tempo” onde se eliminou todo tipo de escassez, como o comunismo, acho interessante examinar as raízes históricas e ideológicas dessa questão (aliás, acho fundamental isso para a esquerda).

    Stirner, que fez parte da “Sagrada Família”, daria uma boa risada: ora, todos nós somos cristãos (praticamente, disse isso no seu “Único”). Os modelos cognitivos devedores do cristianismo são grudes na “alma”, para o bem ou para mal, difíceis de se livrar completamente. Um outro exemplo: não é novidade comparar a psicanálise com a doutrina cristã do Pecado Original (aliás, a doutrina mais psicologicamente impregnante que conheço) — por que não?! Tal comparação explica alguns buracos negros da teoria psicanalítica. Uma boa discussão dessa questão está em Richard Webster (”The hidden Freud”).

    Adriano: você é o Adriano do “Palatando”? Caso seja, você está aonde, meu rapaz? Nunca vi um cabra para mudar tanto de endereço!

    Catatau, boas festas! Uma boa coisa de 2007 foi conhecer teu blog — o resto foi uma desgraceira tamanha, a começar pela queda do Santinha, o clube do Santo Nome.

    Made on December 27, 2007 @ 12:55 pm

  10. Catatau Says

    Isso foi engraçado, Helio. E boa questao, essa, sobre o que consiste uma confusa formacao intelectual. Obviamente, o Helio tem as respostas para tudo. Obrigado, Helio!

    Made on December 28, 2007 @ 9:55 pm

  11. Artur Says

    Grande Catatau, feliz 2008! Valeu por ter conhecido teu blog em 2007. No próximo ano, discutiremos mais, bem mais… Abração.

    Made on December 31, 2007 @ 2:43 pm

  12. leandro Says

    Parabéns, Catatau! Feliz Aniversário em um ótimo 2008!

    Logo vamos fazer uma tertúlia! Abração!!!

    Made on December 31, 2007 @ 6:57 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.