Pego o ônibus, e vejo uma senhora lendo um livro chamado A Arte da Felicidade no Trabalho. O capítulo que ela lia se chamava algo parecido com "Como transformar a insatisfação em felicidade".
Primeira coisa a imaginar: será que estão seguindo aquela moda das empresas, e já pegaram algum filósofo antigo para desfigurá-lo em receitas organizacionais? A Arte de Viver, de Epiteto, é vendida nas seções de "auto-estima". Se fosse algo assim, eu já pensava como o autor, ou o apresentador da obra, zombariam da inteligência do leitor, confundindo noções como otium, labor e tripalium (algo hoje um tanto quanto esquecido).
Mas enfim, a obra é do Dalai Lama, junto com um psiquiatra chamado Howard Cutler. Em um dos informes do livro, consta:
Se alguém no Mundo parece ter descoberto o segredo de levar uma vida feliz, é o Dalai Lama. Ele enfrentou desafios e dificuldades difíceis para a maioria de nós imaginar, sendo forçado, com milhares de outros tibetanos, a fugir de sua terra natal depois da brutal invasão das forças chinesas, e a viver a maior parte dos últimos quarenta anos em exílio.
Mesmo sob essa trágica situação, ele não apenas atuou como o líder espiritual de seu povo e um incansável advogado dos direitos humanos, como manteve uma serenidade, uma alegria, e mesmo um senso de humor que, dadas as circunstâncias pessoais, parece não menos que um milagre.
Como psiquiatra, Cutler se interessou pelos modos do Dalai Lama, e compôs o livro. O que nos faz retornar à função de livros como esse, e da situação da senhora que lia no ônibus.
Obviamente, o livro serve como um exemplo, um horizonte de atuação e de relação para consigo em condições adversas. Mas entre o Dalai Lama, e a senhora que lia no ônibus, existe uma diferença crucial: a de que toda relação entre o projeto de vida do líder tibetano, e suas dificuldades, é essencialmente exterior. Quero ver minha próxima, essa senhora sentada e abatida, viver a vida inteira com um baixo salário e condições de trabalho irrealizadoras, e ainda manter um modo de vida perpetuamente feliz por essas próprias condições. As próprias condições impedem que seu modo de vida seja separado das circunstâncias que a afastam de si mesma. Fazem-na irrealizar a própria vida, a ponto de comprar um livro do Dalai Lama.
O Dalai Lama não deixa de ser ele mesmo, quando sai do Tibet. Na Índia, vive uma vida de monge, em um templo budista, sob uma rotina monástica, com rituais monásticos diários, que implicam diretamente as maneiras desse monge levar sua vida. Comparar o Dalai Lama com a leitora ao meu lado seria o mesmo que fazer com que o líder tibetano deixe de ser monge, comece a viver a contra-gosto uma rotina totalmente alheia ao monastério, e possa ser monge apenas em pensamento. Isso, sabendo que a própria rotina impediria o monge de pensar a todo momento que é um monge. Em suma, um modo de vida irreal, sob condições bem reais que afastam a possibilidade desse próprio modo de vida.
Existe o argumento de que uma vida mental pode ser dissociada da vida do corpo, material. Um apertador de parafusos pode atingir o nirvana. Mas imaginemos também que tipo de resultados efetivos uma vida assim conduz (ou também o uso que tais idéias poderia ter para um cortador de cana estafado)… já que o objetivo de uma arte da felicidade, em tese, é cultivar modos de vida felizes, não apenas pensamentos de felicidade.