December 10, 2007

Confiança e ignorância

Estava às voltas com aquele livrinho do Robert Heilbroner (A História do Pensamento Econômico), quando me deparei com um assunto sobre o qual há muito pensava. Lá vai:

(…) apressei-me a falar ao professor Lowe sobre minha intenção de escrever um livro que focalizasse a evolução do pensamento econômico.

Exemplo típico do mestre alemão em sua melhor fase, Lowe irritou-se:

- Você não pode fazer isso! - declarou, com firmeza professoral.

Mas eu tinha a forte convicção de que podia fazê-lo, convicção essa nascida, como escrevi em algum lugar, da necessária combinação de confiança e ignorância que apenas um estudante pode ter. (…)

Pelo jeito, a fórmula é universal ;)

Aí o Artur veio com um comentário, a respeito de mantermos o bom humor como instrumento de "combate". Bom humor e docta ignorantia: que bela combinação! 

(lembrando ainda que, sem a tal ‘confiança’, o fulano acima não terminaria de escrever o livro) 

Camus: 50 anos do Prêmio Nobel

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Cinquenta anos atrás, Albert Camus recebeu o Nobel de Literatura, por A Peste. Informe no Absorto.

December 7, 2007

A Psicologia no balaio de gatos

 A Abraceh surgiu para promover ética, paz, cidadania e defesa dos direitos, porque os ativistas do movimento pró-homossexualismo estavam intimidando a Igreja e os missionários. A Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, criado numa aliança com esses ativistas, pretende negar e derrubar todas as teorias psicológicas que abordam a homossexualidade como um comportamento a ser tratado e visa desestimular iniciativas de apoio aos que desejam a mudança da sua orientação homossexual.

 O trecho acima é de uma entrevista realizada em junho, com uma psicóloga chamada Rozangela Justino. Ela criou um movimento, junto com igrejas evangélicas, que busca "curar" a homossexualidade, com base em "teorias psicológicas" (aliás: quais?) que supostamente denotariam essa condição como um "transtorno egodistônico" (veja só, Artur!).  
 
Sobre isso tudo, e implicações, o Catatau escreveu um texto. Antigo, mas não inatual.
 
Curiosamente, o texto não foi respondido por quem parece mais interessado em defender essas "teorias".

Mas o problema não é bem esse. Se desse lado a psicologia se mistura com a crença dos evangélicos, lá está ela com os físicos quânticos, aconselhadores metafísicos, pastores psicanalistas arrebanhadores de milhões… Sem contar as terapias alternativas, as de vidas passadas, ou as terapias on-line tabajara. Há quem diga que recentemente se desvela também o mercado de personal friends, "grande" filão para psicólogos.

Tudo isso quando a psicologia já não é, de saída, uma arma de satanás, como querem alguns estudantes - futuramente, também psicólogos.

E não mencionamos ainda os concursos que pagam melhor os coveiros.  

O que acontece com a psicologia?

Livro no Brasil: um bem de luxo

Exemplo 1:

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Exemplo 2: 

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December 5, 2007

Marxismo e Bolivarismo

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Em 1858, Marx escreveu um texto chamado ‘Bolivar y Ponte‘. Segundo Marx, Bolivar havia recebido de Francisco de Miranda, em 1811, a incumbência de guardar o forte de Puerto Cabello - local estratégico - contra os espanhois. Após um pequeno motim de prisioneiros, Bolivar fugiu, favorecendo a retomada do forte pelos dominadores, e obrigando posteriormente Miranda a assinar em 1812 o Tratado de La Victoria. Após a assinatura do Tratado, Miranda foi acusado de traidor, aspecto que fez Bolivar, com outros, entregá-lo ao governo espanhol. Miranda foi preso até falecer no cárcere, alguns anos depois.  

(more…)

December 4, 2007

A arte da felicidade no trabalho

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Pego o ônibus, e vejo uma senhora lendo um livro chamado A Arte da Felicidade no Trabalho. O capítulo que ela lia se chamava algo parecido com "Como transformar a insatisfação em felicidade".

Primeira coisa a imaginar: será que estão seguindo aquela moda das empresas, e já pegaram algum filósofo antigo para desfigurá-lo em receitas organizacionais? A Arte de Viver, de Epiteto, é vendida nas seções de "auto-estima". Se fosse algo assim, eu já pensava como o autor, ou o apresentador da obra, zombariam da inteligência do leitor, confundindo noções como otium, labor e tripalium (algo hoje um tanto quanto esquecido).

Mas enfim, a obra é do Dalai Lama, junto com um psiquiatra chamado Howard Cutler. Em um dos informes do livro, consta:

Se alguém no Mundo parece ter descoberto o segredo de levar uma vida feliz, é o Dalai Lama. Ele enfrentou desafios e dificuldades difíceis para a maioria de nós imaginar, sendo forçado, com milhares de outros tibetanos, a fugir de sua terra natal depois da brutal invasão das forças chinesas, e a viver a maior parte dos últimos quarenta anos em exílio.

Mesmo sob essa trágica situação, ele não apenas atuou como o líder espiritual de seu povo e um incansável advogado dos direitos humanos, como manteve uma serenidade, uma alegria, e mesmo um senso de humor que, dadas as circunstâncias pessoais, parece não menos que um milagre.

Como psiquiatra, Cutler se interessou pelos modos do Dalai Lama, e compôs o livro. O que nos faz retornar à função de livros como esse, e da situação da senhora que lia no ônibus.

Obviamente, o livro serve como um exemplo, um horizonte de atuação e de relação para consigo em condições adversas. Mas entre o Dalai Lama, e a senhora que lia no ônibus, existe uma diferença crucial: a de que toda relação entre o projeto de vida do líder tibetano, e suas dificuldades, é essencialmente exterior. Quero ver minha próxima, essa senhora sentada e abatida, viver a vida inteira com um baixo salário e condições de trabalho irrealizadoras, e ainda manter um modo de vida perpetuamente feliz por essas próprias condições. As próprias condições impedem que seu modo de vida seja separado das circunstâncias que a afastam de si mesma. Fazem-na irrealizar a própria vida, a ponto de comprar um livro do Dalai Lama.

O Dalai Lama não deixa de ser ele mesmo, quando sai do Tibet. Na Índia, vive uma vida de monge, em um templo budista, sob uma rotina monástica, com rituais monásticos diários, que implicam diretamente as maneiras desse monge levar sua vida. Comparar o Dalai Lama com a leitora ao meu lado seria o mesmo que fazer com que o líder tibetano deixe de ser monge, comece a viver a contra-gosto uma rotina totalmente alheia ao monastério, e possa ser monge apenas em pensamento. Isso, sabendo que a própria rotina impediria o monge de pensar a todo momento que é um monge. Em suma, um modo de vida irreal, sob condições bem reais que afastam a possibilidade desse próprio modo de vida.

Existe o argumento de que uma vida mental pode ser dissociada da vida do corpo, material. Um apertador de parafusos pode atingir o nirvana. Mas imaginemos também que tipo de resultados efetivos uma vida assim conduz (ou também o uso que tais idéias poderia ter para um cortador de cana estafado)… já que o objetivo de uma arte da felicidade, em tese, é cultivar modos de vida felizes, não apenas pensamentos de felicidade. 

De quando Darcy Ribeiro leu o Catatau…

… ou de quando Paulo Leminski leu Darcy Ribeiro:

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imagem de Debret 

 Por mais que se forçasse um modelo ideal de europeidade, jamais se alcançou, nem mesmo se aproximou dele, porque pela natureza das coisas, ele é inaplicável para feitorias ultramarinas destinadas a produzir gêneros exóticos de exportação e de valores pecuniários aqui auridos. Seu ser normal era aquela anomalia de uma comunidade cativa, que nem existia para si, nem se regia por uma lei interna do desenvolvimento de suas potencialidades, uma vez que só vivia para outros e era dirigida por vontades e motivações externas, que o queriam degradar moralmente e desgastar fisicamente para usar seus membros homens como bestas de carga e as mulheres como fêmeas animais. (…) De fato, era o Brasil que se construía a si mesmo como correspondente à sua base ecológica, o projeto colonial, a monocultura e o escravismo, do que resulta uma sociedade totalmente nova. (em O Povo Brasileiro, p. 105 [da edição 2006 da Cia de Bolso])

December 2, 2007

O “generalíssimo” Francisco de Miranda

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Miranda recepcionado por Simon Bolivar (Pintura de Rugendas )
 
Francisco de Miranda (1750-1816) é considerado um precursor de Simon Bolivar e de vários movimentos emancipatórios latino-americanos. Lutou na Revolução Francesa, pela independência dos EUA, e em outras guerras hispano-americanas. Pregava uma nação que reuniria todas as colônias hispânicas, e que se chamaria "Colômbia". Adepto de idéias iluministas, é chamado por muitos como "generalíssimo" ou "universalista".
 
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As imagens acima foram retiradas de notas de viagem, e reflexões. A Biblioteca Nacional da Venezuela digitalizou arquivos digitais de Miranda, relativos às viagens e à participação na Revolução. Outras informações (como livros, referências e iconografia) também podem ser encontradas na Miguel de Cervantes. Por aqui, livros de e sobre ele constam também em sebos.    
 
Atualmente, as idéias de Miranda figuram por trás de vários discursos, como alguns de Hugo Chavez. Este inaugurou um monumento a Miranda em Cuba, e pouco tempo atrás o governo venezuelano financiou um filme sobre essa figura (com Danny Glover no elenco). Uma "Força Francisco de Miranda" também atua como grupo de apoio ao governo.
 
Seria interessante ler um estudo sobre como Miranda e outras figuras - Simon Bolivar, entre elas - fundaram certas idéias de independência da América Latina; como essas idéias perduraram até o século XX; como então se atrelaram a várias inspirações marxistas; e como todo esse corpo ideológico se relaciona com aspectos sociais, políticos e econômicos, especialmente em países como a Venezuela, ou outros países próximos.
 
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Na Venezuela, segue o  Referendum Aprobatorio para a Reforma Constitucional. Atenção à boa análise de Pedro Doria

December 1, 2007

O jogo da geografia (1644)


 
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imagem daqui 
Brasil: Província fértil, entre os dois grandes rios Maragnon e  Plata, e limitado pelo Peru ao ocidente, e o oceano ao Oriente. Abundante em madeiras de cor.
A carta acima pertence ao Jeu de la Géographie (1644), confeccionado pelo pintor italiano Stefano della Bella (mencionado aqui, sobre isso). 
 
O baralho consiste em 54 cartas de várias regiões do mundo então conhecido, encomendadas especialmente para a educação do futuro "Rei-Sol" Luís XIV.     
 
Na gravura da carta sobre o Brasil, consta: uma figura feminina, segurando penas de Avestruz, e vestimentas exóticas. Todas as cartas, acessíveis aqui (digitar ‘Jeu de la Géographie‘ na busca).
     
Não arrisco perguntar o que penas de avestruz (não é ave originada da África?) fariam nas mãos de um nativo do Brasil. Nem o quanto as cartas para o Rei-Sol seriam mais ingênuas que outros jogos, mais atuais ;) . Mas seria muito interessante saber sobre se esse é o jogo mais antigo com alguma menção a essas terras… E com a curiosa característica de chamar a atenção precisamente aos dotes mercadológicos.