January 31, 2008

O Brasil, as estatísticas, e a Amazônia

Nos últimos 10 ou 20 anos, o Brasil descobriu o universo das estatísticas. Não como ciência, mas como forma cultural, discurso do senso comum.
 
Dois exemplos notáveis desse uso são as entrevistas cotidianas, e os dados do futebol. O repórter consulta o vendedor, perto do natal, e ouve: "Neste ano as vendas subiram 20%". No jogo de futebol, "o time A já enfrentou 20 vezes o time B, com 12 vitórias do time A, 3 empates, e 5 derrotas. Isso equivale a tanto por cento disso, tanto daquilo…"
 
Curioso notar que boa parte desse discurso convincente não se apóia em dados efetivos. O vendedor apenas intuitivamente projeta os "20%". Já as estatísticas de futebol servem para pouco, ou para nada: cobrem anos de contextos, times, técnicos e jogadores diferentes. Ora, não são apenas os padrões dos elementos que mudam. Muda o contexto que os rege, sua disposição, e sua própria natureza.
 
Isso tudo sem falar nas médias. As divulgações sobre salário, por exemplo, concentram-se em médias nacionais. Não consideram portanto cenários e estratificações totalmente diferentes para cada região, implicadas em salários grosseiramente distoantes. E vice-versa, onde deveriam ser divulgadas médias ou porcentagens, o repórter ou divulgador recorre ao dado bruto: o vidrinho de cola comprado em período escolar tem 4 gramas a menos. Como se todos soubessem o que 4 gramas representam no vidrinho de cola, e diante do gasto total.
 
Um exemplo mais maudoso são as estatísticas de aprovação e alfabetização de alunos. Milhares de escolas simplesmente não reprovam alunos, em séries do ensino fundamental. Não é raro encontrar casos de alunos que estão no quinto ou sexto ano, e são analfabetos funcionais, quando não são totalmente analfabetos. Nas faculdades, eles já começam a aparecer, especialmente nos cursos que não requerem cálculo. Muitos alunos simplesmente não conseguem interpretar um texto.
 
Tudo isso, junto a um caso recente: alguns jornais estrangeiros acusaram de mentiroso o dado brasileiro de que o desmatamento na Amazônia diminuiu nos últimos 3 anos.
 
Nesse último caso, o estardalhaço foi causado por dados via satélite, divulgados pelo INPE. Segundo o ministro Sergio Rezende, o próprio INPE divulgou também os dados de que nos últimos anos o desmatamento diminuiu.
 
Curioso notar que esse tipo de procedimento indica algo trivial: o desmatamento mostra-se sempre retroativamente, pois falta fiscalização rigorosa. Um primeiro fator que reforça isso são as querelas sobre se os dados do INPE são verdadeiros. O segundo fator é outra querela: sobre se o verdadeiro responsável é o agronegócio. Marina Silva diz que sim; Lula evita culpar diretamente os produtores de gado e soja, no Mato Grosso:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que, por enquanto, não é possível atribuir as causas do desmatamento ao plantio de soja nem à produção de gado na Amazônia. Lula fez o comentário durante almoço no Itamaraty em homenagem ao presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta.

Segundo interlocutores, Lula demonstrou preocupação com o tema, mas indicou que é necessário ter cautela. "Não dá para ficar culpando a soja nem a pecuária [por causa do aumento do desmatamento na região Amazônica]. Tem de se avaliar", teria dito Lula, de acordo com alguns dos presentes ao almoço.

Na semana em que o governo anunciou o aumento da derrubada de árvores na região da Amazônia, os ministros Marina Silva (Meio Ambiente) e Reinhold Stephanes (Agricultura) divergiram publicamente sobre as eventuais causas do desmatamento.

Para Marina, o aumento do plantio de soja e da produção de gado em áreas preservadas contribuiu para o desmatamento. Já Stephanes discordou da colega, informando que o plantio e a produção seguiam regras que eram obedecidas.

e

Marina Silva apontou como prováveis causas do aumento do desmatamento a pressão por aumento da produção de soja e carne, commodities cujos preços subiram. Os satélites indicam que o desmatamento se concentrou em regiões produtoras de soja –o Nordeste mato-grossense, onde o governador do Estado, Blairo Maggi, tem uma fazenda– e de gado –o Sudeste do Pará.

"A pecuária e a soja são atividades típicas desses Estados; a realidade econômica indica que essas atividades pressionam o desmatamento", observou a ministra. "Esperamos conseguir conter o desmatamento mesmo com o aumento do preço das commodities."

Veríssimo, do Imazon, se diz preocupado com o que acontecerá a partir de abril, quando a Amazônia seca e o desmatamento esquenta para valer. "A decisão de desmatar devido ao aumento das commodities já está tomada. Como o governo vai reverter isso?"

Ele afirma que o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento do governo ainda não incorporou as restrições de crédito aos produtores rurais que desmatam ilegalmente. Sem isso, avalia, será difícil evitar um desastre em 2008.

"Sem controle da produção, não teremos solução para o desmatamento", investiu Gilberto Câmara, diretor do Inpe, ao defender o rastreamento da origem da soja e do gado na Amazônia. Este deve ser o tema mais polêmico da reunião de hoje no Planalto: como conciliar o aumento da produção agropecuária e o avanço da fronteira agrícola com a queda do desmatamento.

Os municípios responsáveis pelo desmatamento já foram mapeados. E  declarações como a de Adalberto Veríssimo reforçam como os dados, sempre retrospectivos, indicam falta de fiscalização. Ou melhor, é curioso que a presença de grandes áreas de desmatamento, somadas a fiscais do IBAMA e municípios da nação muito bem delimitados, resulte em uma carência total de dados, apenas passíveis de descoberta via satélite. Somemos a isso o boom da soja e do Agronegócio no norte do Mato Grosso e sul do Pará nos últimos anos, junto ao nascimento de vários municípios de colonos sulistas durante os últimos 30 anos e…

Os sete samurais (1954)

 

January 29, 2008

Requião e a mídia paranaense

O Blogoleone publicou dois posts sobre o silêncio do governador Roberto Requião, após determinação judicial que impediu seus costumeiros programas na TV Paraná Educativa. Sobre isso, Paulo Henrique Amorim entrevistou Requião dia 21/1.

Da entrevista, destaco uma passagem:

Roberto Requião – Agora, você veja, o negócio é a Globo mesmo, Paulo.

Paulo Henrique Amorim – Por quê?

Roberto Requião – Porque todas as vezes que ele publicaram uma mentira, eu botei a mentira deles e desmenti com uma reportagem, filmes e fatos. E pus no ar na Educativa. Eles estão furiosos. Eles mentiram durante a campanha eleitoral sobre o porto de Paranaguá, sobre filas no porto, mas com filmes de oito anos atrás, do Governo que me antecedeu. Daí eu mostrei que era mentira. E sistematicamente isso tem acontecido.

Paulo Henrique Amorim – Então o senhor acha que, por elipse, o Judiciário está trabalhando para a Globo, é isso?

Roberto Requião – Não, o que eu acho é que está dando guarida aos processos da rede. E a partir do momento, o Ministério Público, quando eu mostrei o salário deles. Eles estão inconformados do povo saber quanto eles ganham… É muito ruim isso. Não é ruim para mim, Paulo. É ruim para o país.

(…) Paulo Henrique Amorim – Portanto, o senhor não pode ir para o ar fazer aquele programa que o senhor fazia?

Roberto Requião – Eu posso fazer, só que eu não posso falar no programa. Eu não posso criticar a Globo, fui expressamente proibido de criticar a imprensa e a imprensa que eu critico aqui é a Globo, por causa da desinformação, não posso criticar o Judiciário, não posso falar das instituições. Ou seja, é tão maluca a coisa que como o Governo do Estado, o Executivo é uma instituição, eu não posso criticar nem o meu Governo. Não é uma instituição da República?

Paulo Henrique Amorim – É verdade. O senhor foi amordaçado?

Roberto Requião – Amordaçado. Sou um governador sem voz. Daí eles dizem: ‘não, pode falar na iniciativa privada’. A iniciativa privada não me dá espaço. Eu há oito anos no Paraná não dou uma entrevista ao vivo numa televisão.

Requião não é flor que se cheire. É um sujeito deveras estranho. Para isso, pululam notícias sobre cenas bem estranhas do governador, como uma ocasião em que ele pergunta a uma mulher se ela traiu ou trairia o marido, ou várias outras em que seu senso de humor se comprovou bem duvidoso.

Portanto, uma coisa é o Requião privado, e outra o governador Requião, homem público. De fato, em cenas como a da mulher que trairia o marido, o governador dá com os burros n´água. Especialmente quando não se é quisto por parte da sociedade, medir as palavras pode ser uma boa tática, pelo menos para seus interesses. Concluindo, o governador Requião, homem público, às vezes comete verdadeiras gafes, com juízos - e que juízos! - privados, enquanto exerce função pública.  

Daí a determinação judicial. Afirma-se ali que houve "uso indevido da TV EDUCATIVA DO PARANÁ, para sua promoção pessoal e agressão aos desafetos do Agravado Roberto Requião".

O governador apresentava com frequência um programa demorado, reunindo personalidades da política paranaense. Cada programa durava horas, exibindo dados e mais dados das contas e política, citando notas e reportagens de jornal, convidando aliados do governo para falar. As "denúncias" contra o governo eram constantes. E a cada denúncia, lá estava o governador, à noite, com essa pesada maquinaria, que reunia ao mesmo tempo justificação, prestação de contas, e uma metralhadora giratória contra os inimigos do governo.

Curioso como um programa tão anti-popular como o de Requião resultou em uma condenação judicial. Seria muito interessante um jornalista analisar como um programa tão pesado como esse, de palestras monótonas, servia como instrumento de debate - ou combate - contra as dinâmicas reportagens de alguns jornais impressos e televisivos. Tratava-se de uma maquinaria lenta, impopular e pesada, mas que procurava a exaustão das questões, contra um jornalismo dinâmico, abreviado e difundido em todo o Estado. Cada menção breve do jornal de meio-dia recebia uma resposta demorada e exaustiva, à noite. Quanto à forma, não se pode negar que esse tipo de debate é interessantíssimo, já que envolve dois meios de debate público, um da dinâmica e brevidade dos jornalistas, e outro com falas ao microfone e copos d´água em palestras demoradas.

Para além da forma, entretanto, existe o conteúdo, e aí deveríamos perguntar sobre as relações entre o público e o privado nessas falas demoradas do governador. Em termos de discussão pública, não se pode negar que essa maquinaria pesada é uma espécie de novidade, e que de alguma forma acabou ensejando debate.

Daí haver um duplo tom, nos programas de Requião: o primeiro tom é o público, do papel público de um programa em uma TV pública que visa a prestação de contas de um governador, a partir de denúncias públicas, e segundo a visão política do próprio governador. Em termos jornalísticos, não se pode negar que um programa como esse é prato cheio tanto para inimigos, quanto para aliados. As posições do governador estão todas ali, expressas, prontas para serem avaliadas. E falando em Requião, elas são manifestamente políticas. Não é à toa que se "denunciou" muitas vezes a carga ideológica da programação da TV Educativa em seu governo. Entretanto, é curioso notar que ela é deliberadamente ideológica, manifesta-se dessa forma e busca ainda fins ideológicos. Requião é um remanescente do desenvolvimentismo com inimigos neoliberais, e faz questão de mostrar-se assim. Não é à toa que incomoda seus adversários ao mostrar-se e sustentar-se de tal modo, especialmente em uma TV estatal.

Outro tom é o privado, e aí com o Requião incisivo e lutador existe o tom agressivo, mais do que eloquente. Aqui o papel público do governador deliberadamente ideólogo se confunde com contra-denúncias e agressões em tom privado. Revela-se aqui outro mecanismo interessante: várias denúncias contra o governador foram falsas, como a das filas do porto de Paranaguá, que buscavam conferir tom positivo aos portos privados, enquanto os públicos - como o de Paranaguá - gerariam apenas filas e transtornos. Denúncias pretensamente desinteressadas, como essas, receberam respostas enfáticas e agressivas do governador. A cobertura "desinteressada" contra a resposta "apaixonada". Daí, em momentos de maior ou menor acerto provável, Requião ter dado a deixa para interpretações de cunho personalista.

Com tudo isso, permanece a questão: a determinação judicial que proibe as falas do governador Requião é correta? Quando atinge o tom privado, sim - Requião oferece sempre boa munição aos adversários. Mas ainda restaria encarar que a determinação não foi contra o tom privado, mas sobre fins privados que o governador obteria com a programação. Quanto aos fins, é bem claro que Requião utiliza as palestras para fins públicos e políticos, em prol de seu governo e idéias. Mas seriam estes fins privados em si mesmos, em termos de ganho pessoal privado? É pouco provável, pelo menos até que se comprove que isso efetivamente ocorre. Outro belo prato para os jornalistas, que poderia retirar a impressão de que Requião foi calado por uma espécie de medida "preventiva".

January 28, 2008

Os parlamentares na Antártida

A comitiva com 13 parlamentares brasileiros que está retida na Antártida por causa do mau tempo deve decolar amanhã (28) da base chilena para a cidade de Punta Arenas, no sul do Chile. A informação foi repassada por telefone pelo senador Renato Casagrande (PSB-ES) à Agência Brasil.

Segundo o senador, a missão deve chegar a Brasília na terça-feira (29). “Estamos aguardando que o tempo melhore”, disse Casagrande. “A previsão que passaram para a gente é que, amanhã pela manhã, o Hércules [avião da Força Aérea Brasileira] terá condições de decolar da base.”

De acordo com o parlamentar, a comitiva, que chegou à Antártida na quarta-feira (23), deixaria base chilena ontem (26). No entanto, o tempo fechou e não houve teto para o avião decolar. Apesar disso, o senador afirma que não há nevasca. De acordo com ele, a temperatura é de zero grau absoluto, com sensação térmica de 5 graus negativos.

Relator da Subcomissão de Aquecimento Global no Senado, Casagrande viajou para a Antártida a convite da Marinha. Na comitiva também estão 12 deputados da Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas, pesquisadores brasileiros, representantes do Ministério de Ciência e Tecnologia. A missão é coordenada pela Marinha, com apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).

Os deputados retidos na base chilena são: Colbert Martins (PMDB-BA), Edmilson Valentin (PCdoB-RJ), Fábio Ramalho (PV-MG), Fernando Chucre (PSDB-SP), Jorge Maluly (DEM-SP), Luciano Pizzato (DEM-PR), Maria Helena (PSB-RR), Moreira Mendes (PPS-RO), Paulo Teixeira (PT-SP), Ricardo Tripoli (PSDB-SP), Vinícius Carvalho (PTdoB-RJ) e Wellington Coimbra (PMDB-ES).

Parlamentares na Antártida? Subcomissão de Aquecimento Global no Senado? Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas?

E principalemente: zero grau absoluto, com sensação térmica de 5 graus negativos????

Las luchas de los sin papeles

Las luchas de los sin papeles y la extensión de la ciudadanía. Perspectivas críticas desde Europa y Estados Unidos

de Liliana Suárez-Navaz, Raquel Maciá Pareja, Ángela Moreno García (eds.)

Colección:movimiento 10

Tema: sin papeles, migración, luchas fronteras

Las movilizaciones de los sin papeles presentan un reto sin parangón al sistema político-jurídico que sostiene nuestra democracia. Sus reivindicaciones apelan a los más básicos principios de los derechos humanos, entre otros, el derecho a tener derechos, tal y como mantuvo la filósofa Hannah Arendt. A través del estudio de estas movilizaciones en Francia, Suiza, Suecia, Estados Unidos y España, este libro muestra cómo las luchas de los sin papeles evidencian la doble moral del sistema político, al mismo tiempo que son consecuencia de una contradicción estructural entre el universalismo de los derechos humanos y el universalismo del mercado laboral neoliberal. Tratando así de añadir una modesta aportación al esfuerzo común de denuncia de estas contradicciones, este volumen quiere aprender de las acciones de los más excluidos del sistema, los sin papeles, a la vez producto y agentes de transformación de nuestras sociedades.
Número de páginas: 252

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en la lucha de classes
todas las armas son buenas
pedras,
         noches,
                    poemas
- Paulo Leminski -

January 25, 2008

Zooomr com novas atualizações

A imagem “http://static.zooomr.com/images/3963985_7a0d63d5d6_m.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Para quem não conhece, o Zooomr é uma comunidade de fotos similar ao Flickr, criada por um rapazinho de 17 anos chamado Kristopher Tate. O guri é um "renegado" do caminho natural de seus iguais: recusou-se a trabalhar no Vale do Silício para arriscar um empreendimento individual. A diferença é que, embora menos popular que o domínio do yahoo, o Zooomr oferece tudo grátis. Tem também algumas ferramentas a mais, como um visualizador automático, que escurece a tela inteira e amplia automaticamente a foto escolhida.

Como ainda é uma espécie de empreendimento no limite entre o amadorismo (ou melhor, uma equipe pequena) e uma grande corporação como o flickr, as atualizações de sistema demoram um pouco. Nesta última, o sistema inteiro está migrando dos EUA ao Japão via Fedex (!). Resultado: alguns dias esperando para poder enviar novas fotos.

Mas nada que atrapalhe muito. Ainda mais considerando que tudo é resultado dos auspícios de um rapazinho! 

January 23, 2008

O affair sobre as bases biológicas da violência

O que é a violência? Por entre as noções sócio-históricas e biológicas, ocorre um permanente debate, desperto nos últimos dias por uma recente proposta de pesquisa. Encabeçada por Jaderson da Costa, ela pretende mapear o cérebro de 50 "menores infratores" do Rio Grande do Sul. Dentre outras considerações, pretendem pesar os elementos neurobiológicos que influem na violência, para além de determinantes individuais como a história de vida, e sociais. Contra a proposta de Costa, organizou-se um abaixo-assinado repudiando a pesquisa, alegando que ela contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente, e reduz a questão da violência a determinados grupos sociais. Conforme Costa,
os signatários do abaixo-assinado aderiram ao movimento por desinformação ou por não compreenderem a reportagem sobre a pesquisa.

"O que eles assimilaram foi que nós estaríamos sendo reducionistas, procurando simplesmente uma base neurobiológica e desprezando qualquer outro fator", diz Costa. "Na realidade, é um projeto que visa mesmo ver bases neurobiológicas, neurológicas e genéticas, mas não descuida dos aspectos neuropsicológicos, psiquiátricos, emocionais e sociais."

Segundo o neurocientista, a reação contrária à pesquisa se deve a uma vertente acadêmica que rejeita a incorporação da neurobiologia no estudo do comportamento humano. "Existe uma corrente retrógrada, que quer manter o conhecimento como está", diz. "Mas o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica."

Observando essas considerações iniciais, já aparece um primeiro problema: para julgar um projeto, devemos ter acesso a ele. E Costa chama atenção a duas coisas: à necessidade de um debate acadêmico, e ao imediatismo e pouco conhecimento das reações opostas. Outra questão, ainda, seria a da "corrente retrógrada", impedindo experimentos de neurociências.
 
Quanto ao debate acadêmico, nenhuma objeção. Quanto ao pouco conhecimento dos opositores, Costa chama atenção a algo muito importante, especialmente sobre o estatuto das neurociências. Isso porque, no mesmo movimento em que houve nos últimos 20 anos um boom dessas disciplinas, com mesma intensidade ocorreram reações contrárias (provavelmente, os "retrógrados", segundo ele).
 
No caso em questão, cumpre precisamente chamar a atenção aos abusos. Ocorre, de fato, um abuso de idéias. Inicialmente, dos opositores das neurociências. Mas os neurocientistas não ficam de fora. O que ocorre é um equívoco dos dois lados. Os opositores das neurociências negam a legitimidade de qualquer braço de pesquisa que avance, ou pareça avançar, para além dessa área de conhecimento. É o que ocorre, quando se organiza um abaixo-assinado sobre uma pesquisa dessas, que incide sobre "menores infratores". Um dos argumentos principais é que "fere o Estatuto da Criança e do Adolescente e fere os direitos humanos porque parte desse princípio: liga a violência a um determinado grupo social."
 
Ora, colocadas as coisas nesses termos, existe um "erro" e um "acerto" dos opositores. "Erro", pelos avanços das neurociências permitirem pesquisas que avancem sobre a noção de violência, e logo antes da proibição deveria haver um exame das premissas da pesquisa.
 
Mas o "acerto" dos opositores é chamar a atenção à categoria de entrevistados, e a ligação ao termo "violência". Ora, para se fazer uma pesquisa sobre as bases biológicas da violência, deve haver uma definição rigorosa desse termo. O argumento da pesquisa consiste na história pregressa de cada sujeito analisado:
Para isso serão avaliados também aspectos genéticos, neurológicos, psicológicos e sociais de cada pesquisado. Serão examinados dois grupos: um de internos da Fase e outro de meninos sem passado de crime, para efeito de comparação. O projeto vai olhar para questões sociais, mas o foco é mesmo o fundo biológico da questão.

"Estamos nos baseando em trabalhos que já existem mostrando que há um período crítico no início da vida e que se uma criança é maltratada entre o 8º e o 18º mês ela adquire comportamento alterado na idade adulta", diz um dos mentores do projeto, o secretário de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, aluno de mestrado de Costa.

(…) Para os cientistas, um ambiente de desenvolvimento inadequado pode mesmo "fabricar" um psicopata: pessoa que despreza regras de convívio social e é desprovida de sentimentos de empatia e afeto.

O papel do mapeamento cerebral por ressonância magnética na pesquisa é tentar entender a manifestação física de problemas como esse. O trabalho que inspira Costa nessa área é um artigo do grupo do neurocientista português António Damasio publicado em 1999. O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer.

"A aquisição de convenções sociais complexas e de regras morais se estabelece precocemente", diz Costa. "Essas lesões podem resultar mais tarde numa síndrome parecida com a psicopatia." O cientista quer saber se, independentemente de lesões, meninos cronicamente violentos tenham atividade reduzida em alguma região do córtex pré frontal, área cerebral ligada a tarefas mentais que envolvem juízo moral. "Não queremos que isso sirva como roupa sob medida para explicar todos os casos, mas pode explicar boa parte", diz.

A relação cérebro x padrão comportamental em uma pesquisa como essa toca em uma questão fundamental, a da relação entre as ditas atividades mentais superiores (como a linguagem, a consciência e a moralidade) e inferiores. Por exemplo, fome e saciação podem ser delimitadas no hipotálamo. Teoricamente, dados certo termos, um neurocientista poderia afirmar que determinados problemas relacionados ao apetite se concentram em lesões, ou em atividades anormais dessas áreas. Entretanto, nos situamos aqui em um tipo de atividade menos complexa, ou no que um behaviorista, por exemplo, chamaria de reforçador primário. Ora, o leque das reações e padrões possíveis de um indivíduo no quesito "fome" é muito menos complexo do que em um comportamento complexo como a emoção, que envolveria tanto os ditos reforçadores "primários", quando "secundários" (sociais). Existe uma diferença de complexidade entre possíveis comportamentos de "violência", por exemplo, e comportamentos de "fome". Reações de fome são diretamente corporais, enquanto um mesmo ato violento pode implicar diferentes resultados quando relacionado a uma briga ocasional, uma guerra, ou um esporte. Em suma, como diria Sartre, uma mesma leitura do cérebro poderia encontrar um padrão similar, em um bom ator e em um psicopata.  

Outra questão é a associação apressada entre os termos criminoso, "menor infrator", e psicopata. Como afirmaram os opositores da pesquisa, utilizar 50 "menores" detentos de um lado, e um grupo controle de outro, expõe uma categoria social que talvez seja indevidamente ligada à sociopatia. Existe de fato uma correlação notável entre doenças mentais e pobreza, especialmente no Brasil. Mas, para comprovar um fundo biológico, a pesquisa detém-se em uma categoria social ("menor infrator"). O que gera dois problemas: um ético, e outro conceitual.

De todo modo, o neurocientista tem também um ‘erro’ e um ‘acerto’. O ‘erro’ é precisamente a pressa em extravasar o campo das neurociências, em direção às atividades sociais. Um dos principais motivos da pesquisa, conforme Costa, é o da saúde pública: "Algo que sempre foi negligenciado foi o entendimento da violência como aspecto de saúde pública". É claro que isso envolve duas questões, uma moral e outra de normatividade. Como já dizia Georges Canguilhem, sempre foi estranho esse interesse imediato dos analistas do cérebro apressadamente se intrometerem em questões como as do emprego e do crime. Como se os resultados últimos de um interesse científico já viessem a ditá-los, logo de saída. Aspecto que permanece sobranceiro sobre uma pesquisa que quer a si mesma o estatuto de desinteressada. Foi assim que a frenologia, por exemplo, desenvolveu-se tanto, no século XIX. Mesmo sendo uma pseudociência, já pregava circunvoluções do cerebrais para os psicopatas.

O "acerto" da pesquisa é uma aposta, e portanto, não é um acerto absoluto: será que a teoria da lesão cerebral sobreviveria ("O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer"), a ponto de pressupor que comportamentos complexos como os morais seriam diretamente relacionados a respostas emocionais, e os dois a fatores preponderantes do cérebro? Sempre existe a aposta de mapear substratos cerebrais para um comportamento complexo, numa tentativa de multiplicar os resultados das teorias do cérebro como um "sistema funcional", características do século XX. E a teoria da lesão protegeria os neurocientistas do contra-argumento acima, de Sartre. Pois se não houver lesão, é difícil explicar, por exemplo, como um mesmo padrão cerebral geraria um ator, um "menor infrator", ou um político brasileiro, por exemplo.

Mas essa aposta do neurocientista não mostra por outro lado pesquisadores "retrógrados" (os opositores, ou pelo menos os bons opositores das neurociências). Mostra precisamente os limites da pesquisa. E por "limites", devem-se colocar tanto os éticos (resolvidos, nesse caso, por metodologias que contornem os problemas acima), quanto os conceituais. Nos conceituais deve residir o interesse do debate.

Flashback

“O governo que instalamos é de tipo britânico e sua língua é o inglês. Lá temos 450 agentes de execução para fazê-lo funcionar, sem nenhum responsável iraquiano. (…) Os 80 mil soldados que temos ali estão ocupados com tarefas policiais, não com a proteção das fronteiras. Eles mantêm o povo sob o nosso jugo. (…) Os iraquianos esclarecidos se sentem muito irritados por serem privados do privilégio de compartilhar a defesa e a administração de seu país. (…) Eles esperaram pela notícia de nosso mandato e a acolheram bem. (…) Agora, começam a duvidar de nossas boas intenções.”
O trecho acima foi escrito em 1920, a respeito de outra invasão do Iraque. Rémi Kauffer explora antigos acontecimentos, e suas ressonâncias com outros, bem atuais. 

January 21, 2008

As pipas do Afeganistão

http://farm1.static.flickr.com/35/67771015_b69b49aff3.jpg
pipas em um fim de tarde em Kabul, por tuxed0mack

Lia o livro de Robert Fisk quando uma passagem saltou aos olhos. Trata-se de um detalhe da cobertura desse jornalista durante a invasão russa, nos idos de 1980:

 Kabul had an almost bored air of normality that winter as it sat in its icy basin in the mountains, its wood smoke drifting up into the pale blue sky. The first thing all of us noticed in the sky was an army of kites - large box kites, triangular and rectangular kites and small paper affairs, painted in blues and reds and often illustrated with a large and friendly human eye. No one seemed to know why the Afghans were so obsessed with kites, although there was a poetic quality to the way in which the children - doll-like creatures with narrow Chinese features, swanddled in coats and embroidered capes - watched their kites hanging in the frozen air, those great paper eyes with their long eyelashes floating towards the mountains (p. 72, ed. Harper Perennial)

Provavelmente chamou a atenção devido ao sucesso enorme daquele outro livro, chamado "O Caçador de Pipas". Estava curioso para saber o que despertou tanto o interesse das pessoas sobre esse romance, considerando aquele velho aviso de Sêneca ("Nas coisas humanas não se procede com acerto tentando agradar à maioria, pois a multidão é a prova do que é pior"). 

Sobre a versão em filme, o Chico criticou severamente: tudo muito arredondado, temas e personagens gerais e estereotipados. Fórmula daquelas que agrada precisamente a quem busca entretenimento, e só.

Questão compartilhada pelo Leandro, em sua severa e convincente crítica ao próprio livro. Inclusive, ele mesmo já previa as filmagens!

Pensando um pouco sobre o que Robert Fisk fala sobre o Afeganistão, conforme esse jornalista haveria uma certa cumplicidade entre temas bem gerais- amplamente divulgados -, e a própria condição daquele país. Temas gerais de cobertura teriam uma relaçao tal com os acontecimentos "reais" que serviriam para ocultá-los, criando um tipo de situação para cada interessado. Em suma, tudo o que é deveras complexo acaba recaindo em dualidades e moldes simples. Resultado: ações efetivas para mudanças efetivas acabam comprometidas.

Nos anos 80 eram os russos que vieram "libertar" o país, a contra-gosto da população local. O presidente Babrak Karmal mantinha práticas contraditórias: levado ao poder pelos russos, às vezes ensaiava palavras de protesto contra eles, não muito convincentes; chamava os insurgentes de "terroristas", no mesmo movimento em que buscava apoio de grupos islâmicos "radicais". Do lado da imprensa, o próprio Fisk já se viu em apuros, recebendo telegramas com pedidos de matérias de jornalistas londrinos que agiam como se tudo não passasse de mais um enredo hollywoodiano; restava enfrentar com esses telegramas perguntas da polícia secreta afegã. Enfim - e para complicar -, aqueles que Reagan depois chamaria de "Freedom Fighters" eram os mesmos mujahedins - "guerreiros sagrados" -, chamados também de "terroristas" por quem interessasse chamá-los assim.

Enfim, esses temas bem gerais ocultariam problemas complexos, bem como pesos e medidas não declarados. Como não dizer que a própria divulgação das informações, pautada em mocinhos e bandidos ou bem e mal, não seria diretamente comprometida com os efeitos reais da destruição de um povo e país? Ora, um jornalismo rigoroso na apuração dos ditos "fatos" poderia gerar outros efeitos, especialmente nessa avalanche de visões que são tudo, menos desinteressadas.

O que recai na questão do Kite Runner: temas grosseiros e personagens estereotipados serviriam a quê? 

January 19, 2008

Sobre os salários dos professores em rede pública e privada

A informação é no mínimo inusitada:

Os professores da educação fundamental das escolas públicas (estadual e municipal) do país ganham, em média, mais do que os da rede particular.

Os docentes de 1ª a 4ª série (o antigo primário) das escolas estaduais têm um rendimento mensal médio de R$ 1.398, ante R$ 1.051 das municipais e R$ 1.048 das particulares.

A constatação está presente em tabulações da Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE) feitas por Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e atual presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Dados do Ministério do Trabalho confirmam o panorama.

A rede pública paga mais também na 5ª a 8ª (antigo ginásio) e da educação superior.

No antigo ginásio, a média no sistema estadual é de R$ 1.347, contra R$ 1.120 na particular –a municipal paga R$ 1.230.

O sistema particular só oferece salários maiores no ensino médio (antigo colegial) -veja mais em quadro ao lado.

A lógica se mantém mesmo quando se simula que todos os educadores do país tivessem a mesma jornada.

Uma das explicações para que a média na rede particular seja mais baixa é sua heterogeneidade. Na capital paulista, por exemplo, há escolas de regiões mais pobres em que os salários não chegam a R$ 700, enquanto outras escolas de ponta, como o Santa Cruz (em Pinheiros), pagam mais de R$ 8.000.

Essa diferença salarial entre os colégios reflete na qualidade de ensino no setor privado.

As médias no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) entre as dez escolas particulares de São Paulo de melhor salário variam de 68 a 58, numa escala de 0 a 100. Entre as dez com piores salários, a variação é de 47 a 56. O ranking de rendimentos foi feito pelo sindicato dos professores da rede particular no ano passado.

A oscilação salarial não costuma ter tanto impacto nas redes públicas. No sistema estadual de São Paulo, por exemplo, a diferença entre o piso e o teto da 1ª a 4ª séries é de 92,3%.

A grande diferença entre os Estados também ajuda a explicar as baixas médias. O cruzamento dos dados da Pnad 2006 com o Censo dos Profissionais do Magistério da Educação Básica, feito em 2003 pelo MEC, aponta que os salários da rede privada no Nordeste puxam a média nacional para baixo.

Em Sergipe, por exemplo, a rede particular pagava R$ 410, contra R$ 628 da pública.

Naquele ano, as redes privadas do Distrito Federal e de São Paulo pagavam uma média superior a R$ 1.200.

Algumas coisas não estão bem claras. Em primeiro lugar, a própria reportagem mostra: os salários em escolas particulares são heterogêneos, não seguem um padrão. Variando a região e o tipo da escola, variam drasticamente os salários. Isso é decisivo para comprometer uma análise em termos de média.

O mesmo se poderia dizer a respeito dos professores de rede pública: em vários estados os salários diferem significativamente, de município a município, ou comparando as escolas municipais com as estaduais.

Em suma, a pesquisa mostra um caquete frequente: a confiança nas médias diante de dados essencialmente heterogêneos. Caso fossem consideradas as regiões e condições que influem em cada classe salarial, haveria maior utilidade e relevância das informações.

Outra questão controvertida é a de como os salários são baixos. Caso se mostre que predominantemente os salários de rede pública são maiores que os de particular - isto é, considerando todas as estratificações, e não apenas estabelecendo uma média geral -, temos aí algo bem interessante: em primeiro lugar, o tema de que professor particular ganha melhor que o de rede pública deveria ser revisado. Em segundo lugar, saltaria aos olhos como até mesmo nas redes privadas a educação segue em níveis alarmantes… 

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E no Ensino Superior:

Quarenta e nove cursos de pedagogia e 11 de normal superior (formação de professores) com baixa avaliação no exame da educação superior do Ministério da Educação vão passar por um processo de supervisão pela pasta que pode acarretar desde redução de aluno por sala até a suspensão de novos processos seletivos.

O procedimento é semelhante ao que ocorreu com 80 cursos de direito –até agora, 26 deles terão que cortar 6.323 vagas de vestibular, principalmente para diminuir o número de alunos por sala. Os outros ainda estão sendo examinados.

Pelo jeito, o MEC começa a se mexer. Mas o dado oculta um outro resultado: diante da numerosa aprovação de cursos superiores nos últimos anos, não houve fiscalização para acompanhar práticas que se aproximam da barbárie, especialmente com professores.

Quem já acompanhou a avaliação de novos cursos sabe como tal fiscalização seria simples. Bastariam algumas visitas da mesma comissão avaliadora do MEC, para acompanhar possíveis mudanças. Ora, se um curso é aprovado pelo MEC, teoricamente tem capacidade para seguir em frente sem problemas maiores.

O que se vê hoje prova que tem algo errado. Via de regra, o principal elemento que muda após a aprovação de um curso é o quadro docente. Em diversos cursos, professores qualificados aparecem nos índices apenas por conveniência: em momentos de avaliação, ou sendo contratados em regime horista para ministrar apenas uma ou duas disciplinas. Ou mesmo se utiliza apenas um professor qualificado como pau pra toda obra: ministra cursos das mais diversas competências, inclusive em áreas um tanto quanto distantes de sua formação original. Isso confere ao curso uma suposta qualidade que não existe.

Esperemos a hora dos outros cursos serem também "atingidos" pela avaliação (outro assunto seria considerar também a qualidade dessa avaliação).