January 16, 2008
Robert Fisk e o jornalismo imparcial
O trecho abaixo pertence a uma entrevista que Robert Fisk concedeu em 2005, a respeito do lançamento de The Great War for Civilization. Dentre os assuntos, destaco a passagem (traduzida/traída):
Podur: Você fala sobre o próprio jornalismo, em seu livro. O que você pensa sobre palavras como objetividade, imparcialidade, balanço e neutralidade, em jornalismo?Fisk: Ver através dos jornais diários nos EUA e a cobertura do Oriente Médio é lamentável e incompreensível. Introduz-se semântica para ocultar controvérias, a maior parte controvérsia sobre quem apoia Israel. Colônias tornam-se "vizinhanças", "ocupado" torna-se "disputado", um muro torna-se magicamente uma "cerca" - quero dizer, presumo que até minha casa não seja feita de cercas.
Por anos o jornalismo tem sido preso, metido, confinado em uma camisa de força de regras feitas nos anos 40, nas escolas de jornalismo dos Estados Unidos. Essas escolas costumavam treinar repórteres para jornais locais. E se você está tratando de uma disputa sobre uma estrada, propriedade pública ou privada para um aeroporto, é essencial dar aos que protestam tempo igual ao de quem quer abrir um novo aeroporto. Em um julgamento, é essencial dar tempo igual à defesa e à acusação.Se você trata com jornalismo local desse tipo - um julgamento público, um caso legal, uma disputa sobre um novo hospital - ambos os lados têm direito porque não se trata de uma questão moral. É uma questão moral na medida em que a comunidade merece um bom hospital, e proprietários privados merecem privacidade sem ter que se preocupar com projetos do governo; mas não ocorre aqui uma grande, acalorada e apaixonada questão moral sobre a vida humana, retirar uma vida, ou a guerra.Nas circunstâncias acima é correto deixar claro que todos são igualmente representados. Mas em assuntos estrangeiros, em uma parte do mundo imersa em injustiça, onde milhares são rasgados e destroçados por armas todos os anos, você entra em um novo tipo de mundo. Um mundo no qual os estandartes de neutralidade utilizados em um julgamento de cidade pequena caem por terra, por não serem mais relevantes.Quando você vê crianças, vítimas empilhadas em um local de massacre, não é ocasião de dar tempo igual aos assassinos. Se você cobrisse a venda de escravos no século XIX, você não daria 50% ao capitão do navio de escravos; você manteria foco nos escravos que morreram, e nos sobreviventes. Se você estivesse presente na libertação de um campo de extermínio na Alemanha Nazista, não buscaria dar à SS 50 por cento dos comentários.Quando eu estava próximo de um atentado a bomba em uma pizzaria na Jerusalém israelita em 2001, onde 20 pessoas morreram, mais da metade crianças, não dei metade do tempo ao Hamas. Em 1982, em Sabra e Shatila, escrevi sobre as vítimas, os mortos que eu fisicamente subi por cima, e os sobreviventes. Não dei 50 por cento à Falalange Libanesa Cristã, milícia que realizou o massacre próximo do exército israelense, que assistiu os assassinos e não fez nada.No reino de estado de guerra, que representa a falência total do espírito humano, você é moralmente vinculado como jornalista para mostrar compaixão eloquente às vítimas, não ter medo de nomear os assassinos, e é permitido demonstrar revolta. A garçonete que nos serve café, o motorista de táxi que me trouxe aqui, possuem sentimentos sobre atrocidades. Porque nós não deveríamos ter?
Vale a pena ler a entrevista inteira. Mas esse trecho enuncia uma boa questão: não são diversas coberturas uma espécie de projeção ingênua de modelos parciais, feitos apenas para um determinado tipo de situação? No dizer de Fisk, querelas sobre uma disputa judicial ou dois lados de um protesto em país de primeiro mundo possuem atores e cenário totalmente diferentes de conflitos armados em países desiguais. Dinâmicas diferentes requerem coberturas diferentes.
A posição de Fisk, nisso tudo, é peculiar (e um assunto à parte). Mas, alheia aos compromissos dele, a questão enunciada é muito boa: não estenderiam certos jornalistas julgamentos locais a âmbito universal? Em determinadas coberturas não estariam em jogo toda uma série de visões sobre o mundo não declaradas, colocadas sem crítica pelo "filtro" do jornalista, que são suas próprias palavras? Uma das respostas possíveis para evitar esse compromisso "egoísta" (uma projeção local valendo como regra universal), o próprio Fisk fornece: todo jornalista deveria "carregar consigo um livro de história".
***
- Agradecimentos a Artur, Adriano, Alcinéa, Cássio, Felipe, Leandro e Marcela pelos votos de feliz ano novo. Um ótimo ano, repleto de boas interlocuções, para nós todos!
- Este blog enfrenta alguns problemas de acesso (de ausência de força e presença de distância maior
), daí algumas lacunas.
- Dedicaremos vários dos posts seguintes a Robert Fisk, especialmente seu A Grande Guerra pela Civilização.




1 Comment »
Cássio Augusto Says —
Realmente… é uma resposta que deve ser mais difundida…
Made on January 17, 2008 @ 11:14 pm
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