January 21, 2008
As pipas do Afeganistão
pipas em um fim de tarde em Kabul, por tuxed0mack
Lia o livro de Robert Fisk quando uma passagem saltou aos olhos. Trata-se de um detalhe da cobertura desse jornalista durante a invasão russa, nos idos de 1980:
Kabul had an almost bored air of normality that winter as it sat in its icy basin in the mountains, its wood smoke drifting up into the pale blue sky. The first thing all of us noticed in the sky was an army of kites - large box kites, triangular and rectangular kites and small paper affairs, painted in blues and reds and often illustrated with a large and friendly human eye. No one seemed to know why the Afghans were so obsessed with kites, although there was a poetic quality to the way in which the children - doll-like creatures with narrow Chinese features, swanddled in coats and embroidered capes - watched their kites hanging in the frozen air, those great paper eyes with their long eyelashes floating towards the mountains (p. 72, ed. Harper Perennial)
Provavelmente chamou a atenção devido ao sucesso enorme daquele outro livro, chamado "O Caçador de Pipas". Estava curioso para saber o que despertou tanto o interesse das pessoas sobre esse romance, considerando aquele velho aviso de Sêneca ("Nas coisas humanas não se procede com acerto tentando agradar à maioria, pois a multidão é a prova do que é pior").
Sobre a versão em filme, o Chico criticou severamente: tudo muito arredondado, temas e personagens gerais e estereotipados. Fórmula daquelas que agrada precisamente a quem busca entretenimento, e só.
Questão compartilhada pelo Leandro, em sua severa e convincente crítica ao próprio livro. Inclusive, ele mesmo já previa as filmagens!
Pensando um pouco sobre o que Robert Fisk fala sobre o Afeganistão, conforme esse jornalista haveria uma certa cumplicidade entre temas bem gerais- amplamente divulgados -, e a própria condição daquele país. Temas gerais de cobertura teriam uma relaçao tal com os acontecimentos "reais" que serviriam para ocultá-los, criando um tipo de situação para cada interessado. Em suma, tudo o que é deveras complexo acaba recaindo em dualidades e moldes simples. Resultado: ações efetivas para mudanças efetivas acabam comprometidas.
Nos anos 80 eram os russos que vieram "libertar" o país, a contra-gosto da população local. O presidente Babrak Karmal mantinha práticas contraditórias: levado ao poder pelos russos, às vezes ensaiava palavras de protesto contra eles, não muito convincentes; chamava os insurgentes de "terroristas", no mesmo movimento em que buscava apoio de grupos islâmicos "radicais". Do lado da imprensa, o próprio Fisk já se viu em apuros, recebendo telegramas com pedidos de matérias de jornalistas londrinos que agiam como se tudo não passasse de mais um enredo hollywoodiano; restava enfrentar com esses telegramas perguntas da polícia secreta afegã. Enfim - e para complicar -, aqueles que Reagan depois chamaria de "Freedom Fighters" eram os mesmos mujahedins - "guerreiros sagrados" -, chamados também de "terroristas" por quem interessasse chamá-los assim.
Enfim, esses temas bem gerais ocultariam problemas complexos, bem como pesos e medidas não declarados. Como não dizer que a própria divulgação das informações, pautada em mocinhos e bandidos ou bem e mal, não seria diretamente comprometida com os efeitos reais da destruição de um povo e país? Ora, um jornalismo rigoroso na apuração dos ditos "fatos" poderia gerar outros efeitos, especialmente nessa avalanche de visões que são tudo, menos desinteressadas.
O que recai na questão do Kite Runner: temas grosseiros e personagens estereotipados serviriam a quê?




6 Comments »
_Maga Says —
Eu li o livro até a pag 100, e ai parei, desisti da leitura, estava me sentindo enrolada. 100 páginas e ainda não havia chego ao assunto. Não costumo desisitir de livros, mas como estava viajando e minha irmã estava lendo também, resolvi deixar para ela - que não tem por hábito ler livro - terminá-lo. Contudo, parei porque não estava gostando. rs
Um abraço
Made on January 21, 2008 @ 10:33 pm
_Maga Says —
Ah, gostei muito destas tua conclusão:
“Temas gerais de cobertura teriam uma relaçao tal com os acontecimentos “reais” que serviriam para ocultá-los, criando um tipo de situação para cada interessado.”
bjo
Made on January 22, 2008 @ 12:20 am
Catatau Says —
Pior que é aquela história de análise funcional, não? Contar os fatos não parece apenas um ato de traduzi-los, mas também um modo de criar ou manter consequências relativas aos próprios fatos…
Made on January 22, 2008 @ 3:09 am
Neuzi Says —
Li o livro na praia no ano passado, num clima de “não tem tu, vai tu mesmo”, já que eu não tinha levado um livro e o tédio invadia minhas entranhas. Na ocasião foi uma leitura agradável, que não deixou marcas, nem pro bem e nem pro mal, visto que nem me lembrava mais qual era a história.
Fui ver o filme ontem… beeeeem chatinho mesmo, bem mais convencional do que o livro, e tenho que concordar com o Chico, pois se o livro não é nenhuma preciosidade como literatura, ainda assim acho que teria fôlego para um bom filme de entretenimento, quiçá um excelente filme, mas nem pra isso ele serve.
Sobre as pipas, elas são encantadoras, e sempre fiquei triste em saber que não são bem vistas na paisagem urbana cheia de fios elétricos, o que é uma pena…
Made on January 22, 2008 @ 12:44 pm
leandro Says —
Em maio do ano passado eu fiz uma crítica a este livro apontando exatamente isto, que não é à toa que fez tanto sucesso nos EUA. Afinal, passa muito superficialmente sobre a realidade do Afeganistão:
http://meandros.wordpress.com/2007/05/13/o-cacador-de-pipas-e-de-leitores-pouco-exigentes/
Critiquei tb a qualidade do livro, e houve muitas reações nos comentários. Assim como tem livros melhores, (embora não tenha visto o filme) deve ter muitos filmes melhores também…
Aliás, sobre filmes, sempre tem esta mania do tradutor dos títulos mudar muito ou acrescentar algo, o que não fez neste filme. Minha sugestão para ele seria esta (dada a história e a caráter sádico de quem vê o sofrimento alheio sem perguntar os porquês):
“O Caçador de Pipas: desgraça pouca é bobagem”
Made on January 22, 2008 @ 1:27 pm
Catatau Says —
ô Leandrão,
Essa foi mal mesmo, tinha esquecido da tua crítica que, aliás, é muito boa. Atualizei o post inserindo a referência, ok?
Neuzi,
Bom revê-la por aqui. As pipas são realmente lindas, especialmente quando amontoam as crianças nas praças, em um belo fim de tarde!
abração,
Made on January 23, 2008 @ 1:38 pm
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