January 23, 2008
O affair sobre as bases biológicas da violência
os signatários do abaixo-assinado aderiram ao movimento por desinformação ou por não compreenderem a reportagem sobre a pesquisa."O que eles assimilaram foi que nós estaríamos sendo reducionistas, procurando simplesmente uma base neurobiológica e desprezando qualquer outro fator", diz Costa. "Na realidade, é um projeto que visa mesmo ver bases neurobiológicas, neurológicas e genéticas, mas não descuida dos aspectos neuropsicológicos, psiquiátricos, emocionais e sociais."
Segundo o neurocientista, a reação contrária à pesquisa se deve a uma vertente acadêmica que rejeita a incorporação da neurobiologia no estudo do comportamento humano. "Existe uma corrente retrógrada, que quer manter o conhecimento como está", diz. "Mas o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica."
Para isso serão avaliados também aspectos genéticos, neurológicos, psicológicos e sociais de cada pesquisado. Serão examinados dois grupos: um de internos da Fase e outro de meninos sem passado de crime, para efeito de comparação. O projeto vai olhar para questões sociais, mas o foco é mesmo o fundo biológico da questão."Estamos nos baseando em trabalhos que já existem mostrando que há um período crítico no início da vida e que se uma criança é maltratada entre o 8º e o 18º mês ela adquire comportamento alterado na idade adulta", diz um dos mentores do projeto, o secretário de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, aluno de mestrado de Costa.
(…) Para os cientistas, um ambiente de desenvolvimento inadequado pode mesmo "fabricar" um psicopata: pessoa que despreza regras de convívio social e é desprovida de sentimentos de empatia e afeto.
O papel do mapeamento cerebral por ressonância magnética na pesquisa é tentar entender a manifestação física de problemas como esse. O trabalho que inspira Costa nessa área é um artigo do grupo do neurocientista português António Damasio publicado em 1999. O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer.
"A aquisição de convenções sociais complexas e de regras morais se estabelece precocemente", diz Costa. "Essas lesões podem resultar mais tarde numa síndrome parecida com a psicopatia." O cientista quer saber se, independentemente de lesões, meninos cronicamente violentos tenham atividade reduzida em alguma região do córtex pré frontal, área cerebral ligada a tarefas mentais que envolvem juízo moral. "Não queremos que isso sirva como roupa sob medida para explicar todos os casos, mas pode explicar boa parte", diz.
A relação cérebro x padrão comportamental em uma pesquisa como essa toca em uma questão fundamental, a da relação entre as ditas atividades mentais superiores (como a linguagem, a consciência e a moralidade) e inferiores. Por exemplo, fome e saciação podem ser delimitadas no hipotálamo. Teoricamente, dados certo termos, um neurocientista poderia afirmar que determinados problemas relacionados ao apetite se concentram em lesões, ou em atividades anormais dessas áreas. Entretanto, nos situamos aqui em um tipo de atividade menos complexa, ou no que um behaviorista, por exemplo, chamaria de reforçador primário. Ora, o leque das reações e padrões possíveis de um indivíduo no quesito "fome" é muito menos complexo do que em um comportamento complexo como a emoção, que envolveria tanto os ditos reforçadores "primários", quando "secundários" (sociais). Existe uma diferença de complexidade entre possíveis comportamentos de "violência", por exemplo, e comportamentos de "fome". Reações de fome são diretamente corporais, enquanto um mesmo ato violento pode implicar diferentes resultados quando relacionado a uma briga ocasional, uma guerra, ou um esporte. Em suma, como diria Sartre, uma mesma leitura do cérebro poderia encontrar um padrão similar, em um bom ator e em um psicopata.
Outra questão é a associação apressada entre os termos criminoso, "menor infrator", e psicopata. Como afirmaram os opositores da pesquisa, utilizar 50 "menores" detentos de um lado, e um grupo controle de outro, expõe uma categoria social que talvez seja indevidamente ligada à sociopatia. Existe de fato uma correlação notável entre doenças mentais e pobreza, especialmente no Brasil. Mas, para comprovar um fundo biológico, a pesquisa detém-se em uma categoria social ("menor infrator"). O que gera dois problemas: um ético, e outro conceitual.
De todo modo, o neurocientista tem também um ‘erro’ e um ‘acerto’. O ‘erro’ é precisamente a pressa em extravasar o campo das neurociências, em direção às atividades sociais. Um dos principais motivos da pesquisa, conforme Costa, é o da saúde pública: "Algo que sempre foi negligenciado foi o entendimento da violência como aspecto de saúde pública". É claro que isso envolve duas questões, uma moral e outra de normatividade. Como já dizia Georges Canguilhem, sempre foi estranho esse interesse imediato dos analistas do cérebro apressadamente se intrometerem em questões como as do emprego e do crime. Como se os resultados últimos de um interesse científico já viessem a ditá-los, logo de saída. Aspecto que permanece sobranceiro sobre uma pesquisa que quer a si mesma o estatuto de desinteressada. Foi assim que a frenologia, por exemplo, desenvolveu-se tanto, no século XIX. Mesmo sendo uma pseudociência, já pregava circunvoluções do cerebrais para os psicopatas.
O "acerto" da pesquisa é uma aposta, e portanto, não é um acerto absoluto: será que a teoria da lesão cerebral sobreviveria ("O estudo mostra que meninos que sofreram lesões no córtex pré frontal - região do cérebro próxima à testa - tinham sérios problemas de sociabilidade após crescer"), a ponto de pressupor que comportamentos complexos como os morais seriam diretamente relacionados a respostas emocionais, e os dois a fatores preponderantes do cérebro? Sempre existe a aposta de mapear substratos cerebrais para um comportamento complexo, numa tentativa de multiplicar os resultados das teorias do cérebro como um "sistema funcional", características do século XX. E a teoria da lesão protegeria os neurocientistas do contra-argumento acima, de Sartre. Pois se não houver lesão, é difícil explicar, por exemplo, como um mesmo padrão cerebral geraria um ator, um "menor infrator", ou um político brasileiro, por exemplo.
Mas essa aposta do neurocientista não mostra por outro lado pesquisadores "retrógrados" (os opositores, ou pelo menos os bons opositores das neurociências). Mostra precisamente os limites da pesquisa. E por "limites", devem-se colocar tanto os éticos (resolvidos, nesse caso, por metodologias que contornem os problemas acima), quanto os conceituais. Nos conceituais deve residir o interesse do debate.





1 Comment »
_Maga Says —
Sim, sim. Muito boa a dissecação que você fez da questão.
Além da resistência já habitual à ciência, os próprios pesquisadores se perdem ao insistir em relações duvidosas e evitando as discussões conceituais - como você bem apontou.
Um ótimo texto para começar a aquecer os pensamento deste ainda morno 2008
um abraço
Made on January 28, 2008 @ 11:13 pm
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