January 31, 2008
O Brasil, as estatísticas, e a Amazônia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que, por enquanto, não é possível atribuir as causas do desmatamento ao plantio de soja nem à produção de gado na Amazônia. Lula fez o comentário durante almoço no Itamaraty em homenagem ao presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta.Segundo interlocutores, Lula demonstrou preocupação com o tema, mas indicou que é necessário ter cautela. "Não dá para ficar culpando a soja nem a pecuária [por causa do aumento do desmatamento na região Amazônica]. Tem de se avaliar", teria dito Lula, de acordo com alguns dos presentes ao almoço.
Na semana em que o governo anunciou o aumento da derrubada de árvores na região da Amazônia, os ministros Marina Silva (Meio Ambiente) e Reinhold Stephanes (Agricultura) divergiram publicamente sobre as eventuais causas do desmatamento.
Para Marina, o aumento do plantio de soja e da produção de gado em áreas preservadas contribuiu para o desmatamento. Já Stephanes discordou da colega, informando que o plantio e a produção seguiam regras que eram obedecidas.
e
Marina Silva apontou como prováveis causas do aumento do desmatamento a pressão por aumento da produção de soja e carne, commodities cujos preços subiram. Os satélites indicam que o desmatamento se concentrou em regiões produtoras de soja –o Nordeste mato-grossense, onde o governador do Estado, Blairo Maggi, tem uma fazenda– e de gado –o Sudeste do Pará.
"A pecuária e a soja são atividades típicas desses Estados; a realidade econômica indica que essas atividades pressionam o desmatamento", observou a ministra. "Esperamos conseguir conter o desmatamento mesmo com o aumento do preço das commodities."
Veríssimo, do Imazon, se diz preocupado com o que acontecerá a partir de abril, quando a Amazônia seca e o desmatamento esquenta para valer. "A decisão de desmatar devido ao aumento das commodities já está tomada. Como o governo vai reverter isso?"
Ele afirma que o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento do governo ainda não incorporou as restrições de crédito aos produtores rurais que desmatam ilegalmente. Sem isso, avalia, será difícil evitar um desastre em 2008.
"Sem controle da produção, não teremos solução para o desmatamento", investiu Gilberto Câmara, diretor do Inpe, ao defender o rastreamento da origem da soja e do gado na Amazônia. Este deve ser o tema mais polêmico da reunião de hoje no Planalto: como conciliar o aumento da produção agropecuária e o avanço da fronteira agrícola com a queda do desmatamento.
Os municípios responsáveis pelo desmatamento já foram mapeados. E declarações como a de Adalberto Veríssimo reforçam como os dados, sempre retrospectivos, indicam falta de fiscalização. Ou melhor, é curioso que a presença de grandes áreas de desmatamento, somadas a fiscais do IBAMA e municípios da nação muito bem delimitados, resulte em uma carência total de dados, apenas passíveis de descoberta via satélite. Somemos a isso o boom da soja e do Agronegócio no norte do Mato Grosso e sul do Pará nos últimos anos, junto ao nascimento de vários municípios de colonos sulistas durante os últimos 30 anos e…





Thiago Says —
Catatau,
Só interpretando os fatos com explícita má-vontade deixamos de concluir que o aumento descontrolado do desmatamento da Amazônia está diretamente ligado à atividade do agronegócio no norte/nordeste do Mato Grosso e no sul do Pará.
Não é esse o expediente nessas áreas desmatar a cobertura vegetal original, transformar antigas florestas em pastagens e, depois de pouco tempo, implementar as lavouras de soja (ou algodão ou, mais recentemente, de cana-de-açúcar)?
Estou com a ministra Marina Silva. E não me surpreende, no frigir dos ovos, a posição que o presidente tem assumido nesse caso. O governador Blairo Maggi é (ou era, precisaria verificar os dados) o maior produtor individual de soja do planeta, interessado, por certo, em aumentar ainda mais sua produção. O chamado “novíssimo ‘front’” da soja, no nordeste do Mato Grosso, na fronteira com o Tocantins, na “área de influência” da ferrovia Norte-Sul, em implantação, foi aberto por ele, com essa fazenda, citada no seu texto. Dali, a soja já se espalha por todo o Tocantins, oeste da Bahia, sul do Maranhão e do Piauí. Além das áreas já tradicionais, no Mato Grosso, em Goiás e no sul do Pará.
É muita soja.
Hoje, discutindo esse tema com meus alunos, acabamos chegando ao ponto que considero crucial: as imensas plantações de soja são apenas um novo ciclo dentro do modelo de construção nacional que adotamos mesmo antes de nossa independência política. Nossa preocupação sempre esteve e permanece voltada às demandas externas - e esse fato vai se realizando na maneira como o território é efetivamente usado. Sempre “extrovertidamente”.
Os efeitos danosos dessa prática sabemos bem: o desmatamento predatório e inconseqüente da Amazônia e do cerrado, os intensos e graves conflitos fundiários naquela região (a mais violenta do país,em número de homicídios, como mostra o recém-lançado Mapa da Violência); em outra esfera, tão importante quanto, a inexistência de um pacto nacional, de um “norte”, substituído por esses ciclos econômicos (nossos e de toda América Latina) que não nos ajudam, apenas aprofundam ainda mais as desigualdades históricas.
Abraço.
Made on February 1, 2008 @ 12:28 am
Catatau Says —
Belíssimo comentário, Thiago. A começar pela sequência desmatamento-pastagem-plantação. Sem essa sequência, o desmatamento não tem muito sentido histórico, e aí você acerta na mosca.
Outro elemento é o Brasil não como fim em si mesmo, mas como meio para fins exteriores aos interesses dos brasileiros. Não seria essa uma marca constitutiva do Brasil, a começar pelo próprio nome do país?
Quanto aos teus alunos, fiquei curioso: que tipo de discussão vcs tem feito nesse sentido?
abração,
Made on February 2, 2008 @ 11:44 am
Alba Says —
Catatau,
Eu escrevi um looongo comentário sobre o Robert Fisk que acabou não saindo, o que me deixou muito frustrada.
O comentário do Thiago é realmente maravilhoso, pelo muito que esclarece das políticas erráticas com relação à Amazônia. Exemplo: dizem que há combate ao desmatamento, mas isso briga com o fato de que há um programa federal de insumos para que se combata a febre aftosa na região.
Bolas! se é pra criar gado, e preservar a floresta, alguém tem que chegar a algum acordo. Isso sem falar da mata queimada para viabilizar guseiras em Carajás, com as bençãos do governo federal, porque quem o promove é a queridinha Vale.
Enfim, há um mundo de contradições que merecia e merecia muito, análise mais acurada.
Beijo
Made on February 2, 2008 @ 11:52 pm
Catatau Says —
Oi Alba,
Putz, será que o comentário não foi publicado? Às vezes o blogsome coloca comentários para moderação, então é provável que possa ter dado estatuto de “para revisão”. Caso contrário, gostaria muito de poder ler a respeito. Quando chegar em casa, verificarei e aí publico, ok?
Quanto à Amazônia, será que já publicaram informações que comparam essas contradições?
bjs,
Made on February 3, 2008 @ 12:18 am
Thiago Says —
Catatau,
Ainda é o começo do ano, foi a primeira semana de aulas, e mesmo o terceiro colegial, onde costumo (e em certa medida, posso) propor discussões mais aprofundadas, ainda estava em marcha lenta, esperando o Carnaval.
Minha idéia esse ano, como em todos, é construir com eles a imagem do Brasil que não estamos acostumados a ver. Um país que, de fato, como você lembrou, vem cumprindo uma função subordinada às demandas centrais dentro da famosa Divisão Internacional do Trabalho (ou, como os geógrafos preferimos, complementando o conceito, a Divisão Territorial do Trabalho). Daí seu nome (vulgar, como você bem lembro) derivado de uma mercadoria comercial.
Tenho a intenção de sempre que possível, levar questões atuais aos alunos e propor debates. Literalmente dividir a classe entre opositores e defensores de causas as mais variadas: do aquecimento global ao caso do roubo do relógio do Luciano Huck, e tentar fazê-los encontrar um senso comum, ou quando não, usar o momento pra organizar os diferentes argumentos.
São aulas dinâmicas, na medida, claro, do interesse dos alunos. Que não são constantes — e se interessam mais por um tema, menos por outro. Ou seja, às vezes temos aulas ótimas, noutras vezes, volto pra casa com um retumbante fracasso no currículo. haha…
São turmas de Ensino Médio e Ensino Fundamental. Mesmo nos 3os. nem sempre as discussões podem chegar a níveis estratosféricos — nem é recomendável, imagino. Mas sempre tento pô-los em contato com questões que acredito pertinentes (nem sempre com relação ao “bendito” vestibular); questões, aliás, muitas delas levantadas em grandes blogs que leio, como o seu, do Pedro Dória, do Idelber, do Hermenauta… e, claro, sempre que posso dou meus cutucões naquele colunista de quinta da Veja.
Agradeço os elogios imerecidos dedicados a mim, fica aqui registrado meu apreço por seu blog e pela gentileza com que somos recebidos por aqui. E, também, pela dica indireta do site da Biblioteca Nacional, será de grande ajuda.
Um abraço,
Made on February 3, 2008 @ 12:56 am
Catatau Says —
Salve Thiago!
Mto jóia o tipo de procedimento q vc faz com os alunos, especialmente os de 3º ano. Vem bem em via contrária ao que muito se faz hoje, confundir ensino com instrução, e educação como uma espécie de penduricalho voltado ao mercado de trabalho. Poder criar discussões como professor, hoje em dia, é ao mesmo tempo uma bela oportunidade, e uma conquista suada (muitas instituições acham a discussão aberta algo estranho, e na mesma medida confundem comunicação autônoma e livre discussão com permissividade, no mesmo movimento que não querem ver nenhum aluno reprovado!)
E veja só como a discussão sobre esses juízos cotidianos, que levou à Amazônia, nos trouxe agora à questão da educação
Quanto ao site da BN, tem muita coisa boa por lá. Volta e meia tentamos fuçar algo, e o resultado fica na categoria “Brasil”
Alba,
Verifiquei o comentário sobre Robert Fisk, e de fato o blogsome aprontou alguma: não estava lá.
Haveria algum modo de vê-lo?
abração!
Made on February 3, 2008 @ 5:35 pm
Alba Says —
Catatau,
Agradeço a gentileza da preocupação, mas como o assunto é recorrente, terei chances, suponho, de escrever em outra oportunidade. Obrigada!
Thiago, eu invejo a sua possibilidade de poder organizar discussões desse tipo. Nas escolas me que trabalho, quase sempre há uma pressão para o cumprimento do conteúdo. Claro que é possível uma ou outra atividade deste tipo, mas só se houver tempo, o que é meio frustrante.
De toda forma, concordo com o seu diagnóstico sobre como a nossa economia é moldada por interesses externos desde sempre. E sacrificamos o desenvolvimento industrial em favor de commodities, o que não aponta grandes horizontes, a julgar pelo passado.
Os dados de que falei rapidamente, Catatau, foram publicados no Estadão de domingo passado - um caderno bem grande, que lidava com dados oficiais, inclusive. Vou tentar entrar na página do jornal e deixo o link, certo?
Finalmente, uma notícia curiosa: hoje a FSP traz uma matéria dizendo que técnicos da Embrapa dizem que a soja pode recuperar solos gastos pelas pastagens. Ora, ora..
Made on February 3, 2008 @ 10:07 pm
Catatau Says —
Oi Alba,
Curioso que a soja é a nova febre de monocultura a realizar depois da pecuária, não é mesmo?
Passei um tempo fora do ar, estou correndo para me atualizar. Qquer link será muito bem vindo!
abração,
Made on February 10, 2008 @ 10:17 pm
Thiago Says —
Alba,
Ficou parecendo que vivo num mundo perfeito. Haha… Longe disso. Não consigo promover as aulas da forma como contei ali em cima todos os dias em que chego à escola. A pressão por “caminhar” com o conteúdo, o calendário, os pais e suas cobranças absolutamente desconexas, as coordenadoras e a direção da escola, tudo isso são como machados afiados em cima das minhas intenções. Infelizmente, é o que existe.
Correr com o conteúdo também está na ordem do dia. Não tem jeito. A escola quer números de aprovados e a conseqüente publicidade, os pais entram nessa, afinal, segundo alguns dizem, “estão pagando”, e alguns alunos, pobres crianças, embarcam nesse bote furado. Tenho lá minhas idéias e minhas vontades, mas também tenho contas — então, às vezes, é o caso de cooperar com o “sistema”, se é que me entende.
Perdoem a demora na resposta. Quase não parei em casa nos últimos dias.
Catatau,
É sempre uma honra receber pessoas interessadas em uma saudável troca de idéias. Volte sempre, meu caro.
Abraços,
Made on February 11, 2008 @ 12:47 am