February 28, 2008

Esse bando de “oreia seca”

 Hoje eu andava pela rua, em marcha acelerada, quando percebi que logo atrás outra pessoa rapidamente se aproximava. Notei que era outro transeunte qualquer. Mas ele apertou o passo, chegou perto, e logo começou a falar:
 
- Fui fazer uma seleção na Frigolícia (empresa frigorífica) e já mostrei para eles quem eu sou. A gente precisa, né?
 
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February 27, 2008

O canudinho da vida

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A Scientific American anunciou a criação de um canudinho que consegue filtrar quase 100% de vírus e bactérias.

Imediatamente ligada à ajuda humanitária, a invenção venceu um concurso de idéias que podem mudar a humanidade.

A idéia da diminuição das desigualdades sociais em escala mundial não foi classificada. "Está fora de moda", disse um dos organizadores do concurso. emoticon

Do mais novo professor espancado em sala de aula

A professora de português Paula Aparecida Alves, 37, foi agredida na tarde de anteontem com socos e pontapés por um aluno de 14 anos, da 7ª série do ensino fundamental, na escola estadual Professor José Lima Pedreira de Freitas, na Vila Virgínia, em Ribeirão Preto (interior de São Paulo).

De acordo com o relato da professora, o aluno a ofendeu após ser repreendido por atrapalhar a aula. Quando estava sendo retirado da sala por uma inspetora da escola, o estudante se soltou e deu dois socos no rosto da professora. Paula tentou correr, mas foi derrubada e levou chutes no estômago. (…)

Curiosamente esse tipo de relato só muda de endereço. Podemos imaginar, para cada dado formalizado, quantos permanecem sem apuração alguma.

Saltam aos olhos as questões: como a reportagem se concentrou no papel individual do aluno (seus "problemas anteriores com outros professores"); a "suspensão" (medida considerada branda pelos outros professores, que paralisaram a escola); a fácil e quase inocente defesa do agressor, e assim por diante.

No entremeio, uma multidão de outras questões não esclarecidas. Principalmente, a relação professor-aluno.

Diz-se muito nos ambientes pedagógicos que a produtiva relação entre professor e aluno pode mudar uma sociedade. Mas no cotidiano, o papel do professor está em crise: de um lado, o salário baixo e a dúvida sobre seu papel na educação pública; de outro, a confusão entre papel pedagógico e relação cliente x prestador de serviços nas instituições particulares.

Nas duas esferas, o professor é muitas vezes desrespeitado, e destituído de seu lugar. Isso porque a relação pedagógica exige tanto condições mínimas de existência (boa formação, bom salário, bom background institucional), quanto evitar relações de clientela.

Professor não é pau-pra-toda-obra, e nem funcionário. Claro que é os dois, mas no Brasil de um modo não muito produtivo. No país do jeitinho, sempre ocorre um mal começo, quando se deve "dar um jeito" para conseguir ser professor.

***

E certa vez um colega me deu uma receita interessante para não passar por esse tipo de situação. Recomendou que um bom professor deve se "impor" na sala.

Como existem vários tipos de imposição, a que ele se referia era essa mesma: fatores como o tamanho do professor, sua força física, ou modo de lidar impositivamente com os alunos, podem auxiliar no "respeito".

O que mostra no mínimo uma coisa: em muitos lugares, e para muita gente, a relação professor x aluno parte de qualquer coisa, menos de pressupostos pedagógicos. 

February 26, 2008

Bolsa Família: uma biopolítica?

Segundo Francisco de Oliveira:

É um dispositivo. Da mesma forma que as cotas, que as ações afirmativas. É também um dispositivo. É o paradoxo. É uma antipolítica na forma de uma política. Porque a desigualdade é tão abissal no Brasil que é difícil você resistir que é preciso um estatuto especial para você tratar da questão racial. Vejo a questão das cotas no mesmo registro que o Bolsa-Família. É uma biopolítica. As relações sociais não suportam mais uma política que na verdade envolva escolhas, opções e política. Seu substituto é um dispositivo foucaultiano.

Conforme Giuseppe Cocco:

 Estamos no meio de um paradoxo curioso, que poderíamos enunciar da maneira seguinte: do mesmo jeito que essa sociologia descobriu o keynesianismo e a mecânica de “fundo público” quando suas bases disciplinares já tinham sido varridas pelas lutas operárias e estudantis dos anos 1970, ela hoje apreende as novas tecnologias de poder apenas a partir do … poder e de seu determinismo.

(…) Acatando o niilismo de Agamben, Arantes e Oliveira assumem a biopolítica como algo que seria sempre o produto de dispositivos de controle, mas isso em uma perspectiva que — direta ou indiretamente — assume o Arbeit Macht Frei e sua sociedade disciplinar como um horizonte de emancipação.

Giusepe Cocco e Toni Negri:

Reduzir a desigualdade pelo Bolsa-Família não significa apenas fazer política social. Significa, também, fazer política econômica: para além do horizonte inatingível do pleno emprego keynesiano. É por isso que o "crescimento com redução da desigualdade" torna o desenvolvimento sustentável: trata-se de uma dinâmica material de mobilização produtiva, e não de um princípio abstrato.

Massificando o programa Bolsa-Família, o governo Lula está fazendo exatamente isso: criando um embrião de salário universal e, pela primeira vez, praticando aquela distribuição de renda que funciona de lastro à retórica vazia de muita gente.

Em um viés "leminskiano catatauesco", seria interessante perguntar:

1) se a bolsa família é uma biopolítica, a "natura desvairada destes ares", nas palavras de Leminski - o modo de funcionamento tupiniquim, sempre à mercê das dominações européias, e ao mesmo tempo sempre alheio a elas - não lhe conferiria facetas especiais?

Por exemplo, a biopolítica caracteriza-se como poder sobre a vida: conjunto de práticas e saberes articulados que visam políticas populacionais. Consiste não apenas em assistência popular, mas em  planejamento, regulação, e fiscalização. Como biopolítica, os diversos mecanismos do Programa incidem nas famílias. Mas casos de ausência de fiscalização e presença de irregularidades (critica-se o programa por pessoas como a mãe da atriz Graziela Massafera ter sido beneficiária, anedota que mostraria apenas o caráter assistencial, sem elementos de planejamento e regulação populacional) denotariam um modo de funcionamento alheio ao que se vê nas práticas "européias". Outros episódios, como a Revolta da Vacina, também serviriam para mostrar efeitos de "desordem" (ou de dinâmicas bem particulares, e brasileiras) em meio a padrões importados da "ordem".

Elementos que poriam a questão: se a bolsa família é uma biopolítica, qual é o estatuto dessas práticas diante das peculiaridades brasileiras?

2) se a bolsa família não é uma biopolítica, deve ser então a própria "natura desvairada", que de algum modo torceu os esquemas eurocêntricos em direção a aspirações tupiniquins. Nesse ponto Negri e Cocco sustentam que "Lula é muitos", e a bolsa família é alheia tanto a aspirações neoliberais, quanto keynesianas.

Elemento que se desdobra em outras duas questões: (1) a do estatuto concreto do Programa, seu distanciamento de medidas meramente assistenciais, e sua legitimidade "democrática" concreta em meio a outras medidas de "radicalização democrática" (cuja legitimidade também deve ser avaliada); (2) e a da possibilidade de medidas governamentais como essa atingirem um âmbito político alheio às dinâmicas da "disciplina" e do "controle". Em suma, se as medidas do governo Lula não são biopolíticas, deve-se mostrar como se desviam das críticas da direita e da esquerda, e também como não configuram práticas tributárias da "disciplina" e do "controle".

É pano pra manga. 

February 25, 2008

A transição segundo o “companheiro” Fidel, o passado de Cuba, e Eduardo Galeano

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Com a eleição de Raul Castro, alguns veículos "lamentam" a ausência de "renovação" do poder cubano. Sobre isso, o primeiro texto de Fidel Castro assinado sem o "comandante" (Via BBC) já comentava sobre a "mudança":

Concordo com isso, mudança!, mas nos Estados Unidos. Há tempo que Cuba mudou e continuará seu rumo dialético. Não regressar jamais ao passado!, exclama nosso povo.

Anexação, anexação, anexação!, responde o adversário; é isso que pensa bem no fundo quando fala em mudança.

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February 23, 2008

Estéticas da Biopolítica

Dois motivos relacionados entre si podem explicar porque a importância do conceito de biopolítica para a compreensão dos dilemas políticos do presente tardou quase quinze anos para ser reconhecida. Em primeiro lugar, para reconhecê-lo era fundamental ultrapassar a rigidez dicotômica da distinção ideológica tradicional entre esquerda e direita, aspecto que já se encontrava presente na análise foucaultiana do caráter biopolítico não apenas do nazismo e do stalinismo, mas também das democracias liberais e de mercado. Em segundo lugar, penso que o fenômeno da biopolítica só poderia ser entendido enquanto forma globalmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na multiplicação da vida por meio da aniquilação da própria vida, a partir do advento recente da política transnacional globalizada e ‘liquefeita’, segundo a terminologia de Bauman. Nesse sentido, creio que a reflexão de Deleuze sobre as transformações sociais da última década, as quais iniciaram o processo de substituição do modelo disciplinar de sociedade pelo modelo de “sociedade de controle”, articulada em redes de visibilidade absoluta e comunicação virtual imediata, constitui o paradigma a partir do qual Toni Negri e Michael Hardt puderam formular seu conceito de “Império”, no centro do qual se encontra, justamente, uma apropriação do conceito foucaultiano de biopolítica, redefinido agora em termos da biopotência da Multidão. [Continua em Sobre a Biopolítica: de Foucault ao século XXI, por André Duarte]
 
As decisões globais dependem cada vez menos da opinião e da vontade, e cada vez mais do dever cego e inevitável dos fluxos psicoquímicos (hábitos, medos, ilusões, fanatismos) que atravessam a mente social. O lugar de formação da esfera pública se transferiu da dimensão do confronto entre opiniões ideologicamente fundadas para o magma do oceano neurotelemático, no qual as coisas se determinam fragmentariamente, imprevisivelmente, por efeito de tempestades psicomagnéticas e cada vez menos referidas a esquemas políticos definidos. Claro que há divergência de opiniões, cada um pode se expressar como quiser, mas isso já não tem nenhuma importância, pois já nada significa, não tem efeito algum. A proliferação ilimitada das fontes de informação, por sua vez, não necessariamente significa uma abertura democrática, talvez porque o efeito-sociedade não se encontra mais na esfera do discurso, mas na psicoquímica. [Continua em Mutações Contemporâneas, por Peter Pal Pelbart]
A coletânea completa chama-se "Estéticas da Biopolítica", e vale muito a pena conferir. 

February 22, 2008

A hipostasia da opinião

Eis o que diz o "Simpaticíssimo Allegro", no blog do Pedro Doria:

O grande problema dos blogs brasileiros é o excesso, quando não a exclusividade, de opinião, como se isto pudesse compensar a falta de informação - e, sobretudo, de trabalho duro, de estudo, de esforço de compreensão do que acontece pelo mundo (mesmo que este mundo seja a esquina ou o boteco que o sujeito freqüenta). A hipostasia da opinião é o método torto da egolatria (eternamente) adolescente, da vaidade sem lastro, d0 exibicionismo estilo “ó-mamãe-que-lindo-eu-tenho-um-blog” (e-sei-lá-o-que-fazer-com-isto-mas-aí-é-problema-dos-outros)    

Talvez essa passagem (mantenho-me exclusivamente nela) traduza muito do que acontece nos blogs brasileiros.

Primeiramente, as discussões sobre o papel dos blogs enfatizam muito mais questões financeiras e  aspectos propositalmente publicitários (hypes, virais, memes e afins), do que sobre seu papel pleno como hipertexto.

Em segundo lugar, as discussões se deslocam muito para dicas simplórias (os posts de receitas estilo "5 passos para escovar os dentes"); ou para o papel do autor (cristalizam-se autores como autoridades, por aspectos populares que nem sempre denotam qualidade); ou a uma confusão entre acessibilidade e superficialidade da informação. Resultado: o interesse se desloca daquilo que efetivamente se escreve em blogs, e do papel dos blogs como multiplicadores de informação, em direção a querelas de audiência. O veículo democrático torna-se apenas (e o problema reside na tendência desse "apenas") entretenimento.

Finalmente, as melhores discussões batem na tecla de comparar blogs com jornais, como se o destino dos blogs devesse ser o jornalismo em moldes tradicionais. Blog é uma plataforma; jornalismo é um métier com uma série de papéis sociais definidos (rigidamente ou não).

Aí parece residir a hipostasia, ou as hipostasias, descritas pelo Allegro: instrumento (meio) considerado como fim; opinião privada alçada como saber público; lugar de referência confundido com lugar de saber.

O BibliOdyssey certa vez lançava mão de uma fórmula: "Caso pareça que sei tudo, então os espelhos estão funcionando". O que isso quer dizer? No blog do Mr. PK, quer dizer que aquilo que se convencionou chamar de "blogueiro" (aquele que opera uma plataforma de blog) é apenas um chaufeur, condutor do leitor em meio a inúmeras referências. Elas são tantas, que o leitor pode criar a ilusão de que o blogueiro "sabe" alguma coisa. Mas este é apenas um condutor. Se percorre tantas paragens não é porque sabe, mas porque compõe jogos: o dos elementos referidos, e o da relação com o leitor.

February 21, 2008

A Iurd, os jornais, e The Economist

A repórter Elvira Lobato, da Folha, foi alvo de 50 ações judiciais dirigidas ao teor de uma de suas reportagens, sobre os 30 anos da religião inaugurada por Edir Macedo. Também receberam ações contra danos morais os jornais "Extra" (RJ), "O Globo", e "A Tarde" (BA).
 
Elvira Lobato tem um longo histórico de textos sobre a IURD, que inclusive desemboca em um livro intitulado Instinto de Repórter, da Publifolha. No artigo-alvo dos processos, e nesse novo livro, a autora lança mão de dados sobre as relações da igreja com questões políticas e econômicas, várias sob denúncia e investigação. No artigo, menciona como pastores entram ou saem de cena em função de conveniências ou denúncias.
 
Segundo outra notícia da Folha, curiosamente várias ações teriam redação semelhante, embora originadas em municípios diferentes. A enxurrada de ações foi taxada de litigância de má fé pelo ministro Celso de Mello, do STF. Outros juízes já seguem (e aqui) o juízo de Mello.
 
A Universal se defendeu, publicando uma nota com o repúdio dos fiéis às suspeitas sobre a destinação do dízimo, dentre outros assuntos. "Para os fiéis, a reportagem "insinuou" que os membros da Iurd são inidôneos e que o dízimo pago por eles é produto de crime. Disseram ainda que ouviram gozações de conhecidos".
 
A Folha Universal ainda não se pronunciou. Dispõe apenas da edição desta semana. 
 
***
 
No entremeio, o Economist publicou um artigo com o sugestivo título "Se a Redenção falhar, você ainda pode usar gratuitamente o banheiro". O título cita passagem de uma nova biografia de Edir Macedo (O Bispo: A História Revelada de Edir Macedo). Conforme o jornal gringo, a biografia seria pouco "reveladora", ao contrário do título: não esclareceria a contento a relação do Bispo com as finanças da igreja (que não por acaso mantém uma emissora de TV e um partido político), nem propriamente sua vida religiosa. Mas menciona - com boa dose de ironia - os dois fatores:
Desde a fundação em 1977, a Igreja Universal sustentou que o fiel pode ser recompensado por sacrifícios, usualmente de tipo financeiro. Pede-se aos seguidores para doar 10% do ordenado; "a igreja de resultados" irá então recompensá-los com bênçãos, na forma de curas milagrosas, ou sucesso familiar ou no trabalho. Os serviços da igreja muitas vezes giram em torno dos testemunhos de tais resultados. "Ofertas [a Deus] são investimentos", diz o Sr. Macedo.

Vender a teologia da prosperidade para os pobres atrai críticas, dos que acreditam que a Igreja Universal explora a credulidade dos desesperados. Nesse livro, Macedo defende-se robustamente. Os que ganham nada podem ainda vir aos serviços [dos templos] e desfrutar o grande salão com ar condicionado e um banheiro limpo, sem precisar pagar. Eles podem ir embora determinados a ter sucesso, e até mesmo parar de beber, de bater em suas mulheres, e inclusive entrar para a igreja. "Quem eu prejudiquei? Essa é a questão: quem eu prejudiquei?" Ele ataca a Igreja Católica por elogiar a pobreza.

O sucesso do Sr. Macedo trouxe crescente influência na vida pública brasileira. Ele tem convertido a Rede Record, comprada por 45 milhões em 1990, em um poderoso rival da Globo, a rede líder do país. Embora a Igreja Universal mantenha uma audiência fiel de sua programação religiosa, a Record cresceu sobretudo mostrando shows Americanos populares e investindo em suas próprias telenovelas. E assegurou direitos exclusivos sobre as Olimpíadas de Pequim.

O PRB, fundado em 2005, tem apenas quatro dos 513 assentos na câmara federal dos deputados. Conduz-se mais por pragmatismo que por ideologia (não é hostil ao aborto, por exemplo). Seu maior propósito parece ser a defesa dos interesses da Igreja Universal, defendendo-se de ataques de seus poderosos inimigos, incluindo a Igreja Católica e a Globo.

Sobre as relações efetivas entre a igreja, a emissora e a política, estudos ainda estão por vir. Sobre os procedimentos da igreja, o Economist conclui:

Sacrificar é divino, ele [Macedo] diz à congregação. Talvez seja, mas inventar um modelo genial de negócios é humano.

 

February 19, 2008

Mensaje del Comandante en Jefe - Mensagem de “renúncia” de Fidel Castro

Fidel Castro renuncio - Fidel Castro renunciou

Como não citar?

Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.

Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario.

Desempeñé el honroso cargo de Presidente a lo largo de muchos años. El 15 de febrero de 1976 se aprobó la Constitución Socialista por voto libre, directo y secreto de más del 95% de los ciudadanos con derecho a votar. La primera Asamblea Nacional se constituyó el 2 de diciembre de ese año y eligió el Consejo de Estado y su Presidencia. Antes había ejercido el cargo de Primer Ministro durante casi 18 años. Siempre dispuse de las prerrogativas necesarias para llevar adelante la obra revolucionaria con el apoyo de la inmensa mayoría del pueblo.

Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.

Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo.

Más adelante pude alcanzar de nuevo el dominio total de mi mente, la posibilidad de leer y meditar mucho, obligado por el reposo. Me acompañaban las fuerzas físicas suficientes para escribir largas horas, las que compartía con la rehabilitación y los programas pertinentes de recuperación. Un elemental sentido común me indicaba que esa actividad estaba a mi alcance. Por otro lado me preocupó siempre, al hablar de mi salud, evitar ilusiones que en el caso de un desenlace adverso, traerían noticias traumáticas a nuestro pueblo en medio de la batalla. Prepararlo para mi ausencia, sicológica y políticamente, era mi primera obligación después de tantos años de lucha. Nunca dejé de señalar que se trataba de una recuperación "no exenta de riesgos".

Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.

A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.

En breves cartas dirigidas a Randy Alonso, Director del programa Mesa Redonda de la Televisión Nacional, que a solicitud mía fueron divulgadas, se incluían discretamente elementos de este mensaje que hoy escribo, y ni siquiera el destinatario de las misivas conocía mi propósito. Tenía confianza en Randy porque lo conocí bien cuando era estudiante universitario de Periodismo, y me reunía casi todas las semanas con los representantes principales de los estudiantes universitarios, de lo que ya era conocido como el interior del país, en la biblioteca de la amplia casa de Kohly, donde se albergaban. Hoy todo el país es una inmensa Universidad.

Fidel Castro Ruz

18 de febrero de 2008

***

E o História Viva publicou uma grande entrevista de Fidel, concedida a Ignacio Ramonet:

Se você, por qualquer circunstância, desaparecesse, Raúl seria seu substituto indiscutível?
Se amanhã me acontece alguma coisa, com toda a certeza a Assembléia Nacional se reúne e o elege, não resta a menor dúvida. O Escritório Político se reúne e o elege. Mas ele já tem quase a minha idade, está me alcançando, é um problema de geração. Temos sorte de os que fizeram a Revolução já terem formado três gerações. Também não se pode esquecer dos que nos precederam, os antigos militantes e dirigentes do Partido Socialista Popular, que era o partido marxista-leninista, e conosco veio uma nova geração. E depois, a que vem atrás de nós, e imediatamente depois, as da campanha de alfabetização, da luta contra bandidos, contra o bloqueio, contra o terrorismo, da luta em Girón, dos que viveram a Crise de Outubro, as missões internacionalistas… Muita gente com muitos méritos. E muita gente na ciência, na técnica, heróis de trabalho, intelectuais, professores. Essa é outra geração. Somem-se os que agora são da Juventude e universitários e assistentes sociais, com quem temos as relações mais estreitas. Sempre houve relações estreitas com os jovens e os estudantes. [continua…]

Ramonet lançou Fidel Castro: uma biografia a duas vozes, publicada no Brasil pela Boitempo. Outra biografia, supervisionada pelo próprio Castro, foi escrita por Cláudia Furiati (os dois links com resenhas, e link para pesquisa de preços).

*** 

Com o layout novo, e a ausência dos links adicionais do del.icio.us na barra lateral, falta ainda editar o blogroll. As letras estão pequenas, mas normalizar tudo é apenas questão de tempo. Enquanto isso, continuamos compartilhando links e mais links adicionais no feed rss. Constam lá ainda as mesmas notícias, e referências sobre recursos, músicas, filmes e blogs.

February 18, 2008

Da nova matança nos EUA (e de antigos assassinatos em massa)

A polícia dos Estados Unidos divulgou nesta sexta-feira a identidade do homem que abriu fogo em uma universidade do país na quinta-feira, matou cinco pessoas e feriu cerca de 15 antes de se suicidar.

O atirador foi Stephen Kaszmierczak, de 27 anos, um ex-estudante de sociologia da Universidade Northern Illinois, onde ocorreu o ataque.

"Ele era um estudante excepcional, era um estudante premiado", disse Donald Grady, chefe da polícia da universidade, que fica perto de Chicago. "Ele era admirado pelos professores, por funcionários e estudantes."

"Não tínhamos nenhuma indicação de que esse poderia ser o tipo de pessoa que pudesse realizar ações como essas."

(…) Este é o quarto tiroteio em uma escola americana ocorrido em uma semana.

Na última sexta-feira, uma mulher matou a tiros duas outras estudantes antes de cometer suicídio no Colégio Técnico da Louisiana, na cidade de Baton Rouge.

Em Memphis, Estado do Tennessee, um adolescente de 17 anos foi acusado de atirar e ferir gravemente um estudante na segunda-feira. Na terça-feira, um estudante de 15 anos foi baleado em um colégio da Califórnia.

Há dez meses, um estudante da Universidade Virginia Tech, no Estado da Virgínia, matou 32 estudantes e funcionários da instituição.

O que parece interessante, nisso tudo, é a recorrência desse tipo de crime, nos EUA.

Para explicá-lo, alguns, na linha de um ultra-conservadorismo não esclarecido - mas de voz perigosamente ampliada, nos EUA -, forçam "hipóteses" no mínimo duvidosas

Outros, buscam traçar o perfil psicológico dos matadores. No caso de Kaszmierczak, começam as interrogações sobre a vida pregressa: a separação da namorada, ou a interrupção no uso de anti-depressivos poderiam ser indícios. Mas seriam fatores preponderantes? O PsychCentral conjectura: em 2001 Kaszmierczak saiu do exército, por motivos "sem especificação"; já foi também chamado de "um indivíduo que obviamente tinha problemas".

Traços de assassinos em massa poderiam perpassar a solidão, "mas não necessariamente". Ainda, uma espécie de desejo de onipotência diante do controle da vida alheia, baixa auto-estima, desejo de reconhecimento, obsessão por um grande número de vítimas, e planejamento da matança. Boa parte teve histórico de "depressões" e "desespero" agudo, e dados sobre sensibilidade exagerada a perdas.

Curioso notar como esse tipo de assassínio parece a antiga "loucura moral" ou moral insanity, do século XIX. A moral insanity desembocou nas categorias contemporâneas de transtorno de personalidade anti-social. Mas uma de suas antigas acepções é digna de nota: sem motivo aparente, um indivíduo de repente cometia atos monstruosos; não havia notável história pregressa, e após o crime vários desses indivíduos retornavam à vida normal. Como caracterizar o crime? Seria fruto de uma vontade maligna repentina, livre e responsável, ou resultado de um mecanismo corporal súbito, que suspenderia as funções normais? Entre o ato livre, responsável e culpado, e a determinação imatura e inocente, os psiquiatras oscilavam as perspectivas.

E as recorrentes observações sobre os assassínios de Virginia Tech, Columbine, e outras, deparam-se sempre com o fato de que a história de vida pregressa dos matadores são critérios marcantes, mas não preponderantes, para se caracterizar o ato como "patológico". Marcantes, porque os psiquiatras buscam "traços" da história pregressa, aparentemente agrupáveis; não preponderantes, entretanto, porque uma parcela significativa da população pode desenvolver os mesmos traços, sem entretanto organizar matanças.

Para complicar, percebe-se facilmente que, embora se possa afirmar sobre certa constância estatística de transtornos mentais - o DSM é empregado como parâmetro importante em vários países, inclusive no Brasil -, não encontramos matanças como essas em outros lugares.

Na forma e no conteúdo, algumas coisas não se encaixam. Ora, se não existem dados conclusivos sobre as matanças nos EUA, se a única diferença entre esses matadores e outros indivíduos freak é apenas o ato assassino, e se novas matanças sem dúvida ocorrerão, é porque o fundo delas pode não residir apenas em indivíduos raivosos que escolhem matar.

A "hipótese duvidosa" expressa acima pode dizer mais do que conta: quando um pastor republicano prega que um indivíduo mata 12 pessoas em uma escola por estar "possuído pelo demônio", pretende dizer - depurando suas fantasias - que sob aquele ato permanece uma vontade "maligna", e portanto um indivíduo já marcado por valorizações negativas; em contrapartida, quando um Cho Seung Hui se compara a Cristo e "justifica" a matança como uma reação ao modo de vida de suas vítimas (uma matança generalizada não denota uma imputação de culpa generalizada?), mostra-se um conjunto de relações que é tão recorrente quanto os outros traços das matanças. Um relatório do Departamento de Defesa norte-americano intitulado Implications for the Prevention of School Attacks in the US tem como dado conclusivo - dentre vários outros inconclusivos, vale notar - o bullying:

Finding
Many attackers felt bullied, persecuted or injured by others prior to the attack.
Explanation
Almost three-quarters of the attackers felt persecuted, bullied, threatened, attacked or injured by others prior to the incident (71percent, n=29).21
In several cases, individual attackers had experienced bullying and harassment that was long-standing and severe. In some of these cases the experience of being bullied seemed to have a significant impact on the attacker and appeared to have been a factor in his decision to mount an attack at the school.22 In one case, most of the attacker’s schoolmates described the attacker as "the kid everyone teased." In witness statements from that incident, schoolmates alleged that nearly every child in the school had at some point thrown the attacker against a locker, tripped him in the hall, held his head under water in the pool or thrown things at him. Several schoolmates had noted that the attacker seemed more annoyed by, and less tolerant of, the teasing than usual in the days preceding the attack. (p. 30)

Em outras palavras, existe uma contra-partida no histórico dos assassinos; ao mesmo tempo em que boa parte deles são considerados pessoas problemáticas, outro fator recorrente é um histórico de violência moral recebida. O bullying generalizado, e estendido nos EUA até certos círculos universitários, gera algumas características muito particulares. O que pode dizer muito mais respeito sobre relações sociais, do que apenas desordens psicológicas - estas frequentes, e delimitáveis também em outros países.

E o "algo mais" se completa com aquela informação já conhecida, do cineasta Michael Moore: algo  ambíguo também diz respeito à indústria armamentista ter um papel semelhante ao dos "traços" psicológicos: o acesso às armas é fundamental, mas não essencial para explicar as matanças. Mas como esse cineasta bem lembrou, outras culturas que também legalizam a posse de armas não enfrentam problemas semelhantes.

Conclusão? Os analistas não conseguem - "ainda", dizem alguns - prever matanças; mas o fácil acesso às armas, unido a predisposições individuais e uma cultura carregada de intolerância e violência moral peculiares, pode resultar em uma mistura nefasta. Curioso notar, em todo caso, a correlação entre esses acontecimentos, e as relações interpessoais a que estão ligados.

***

E a BBC parece não se decidir sobre quantas vítimas gerou o último atentado