February 10, 2008
TAZ - Zona Autônoma Temporária
Finalmente li inteiro TAZ - Temporary Autonomous Zone, ou Zona Autônoma Temporária, ou quem sabe, também Zona Temporária de Autonomia (também em livro impresso), de Hakim Bey.
HB é uma figura inusitada do "pensamento contemporâneo". Reune várias inspirações de outros autores (como Deleuze e Guattari), com uma grande dose de humor, e ainda registros históricos esquecidos, ou considerados secundários.
O interessante na mistura toda é o resultado: Bey não forma um pensamento "sério", nem escrachado. Seus conceitos forjados se desviam das abstrações, mas também de certas facilidades descolês, engagés e afins. O pensamento Bey é uma espécie de proposta de ativismo constante para o bem-viver - um culto constante aos "levantes", ao invés da busca a uma revolução sempre recuada.
Essa proposta do bem-viver prega ações que se desviam do "capital" simbólico comum, e aí reside a crítica de Bey aos descolês: viver bem (em sentido amplo, não apenas o de um corpo gerido e "feliz") não se trata de performance ou arte simulada, não é meio para outro fim que se desvia da vida e se reúne aos grandes códigos de nossa cultura. Pelo contrário,
A Babilônia toma suas abstrações como realidades. É precisamente dentro dessa margem de erro que a TAZ surge.
Em outras palavras, sempre ocorre uma dupla tentação: performatizar ações extraordinárias e artísticas de modo que nunca sejam efetivas, reais; ou buscar um tempo em que as ações poderão ser livres de todo "controle", enfim extraordinárias. Bey se desvia das duas alternativas, pois há uma "margem de erro" aqui e agora. A vida extraordinária não precisa ser simulada, nem postergada. Ela se dá no momento em que as abstrações tomadas como realidade são realidades arbitrárias, e portanto podem ser desfeitas. Quando se afrouxam as significações dadas como realidade, aí se oferecem possibilidades de recriar novas realidades. As ‘TAZ’ tornam-se possíveis.
Daí a busca por outras TAZ existentes na história. Dos inúmeros exemplos de quando o europeu se encontrou com o índio norte-americano (e HB teria outros inúmeros exemplos aqui no Brasil), Bey passa para as comunidades piratas dos séculos XVII e XVIII, ou a república "musical" de Gabriele D´Annunzio, que durou 18 meses em pleno século XX.
Outro elemento interessante diz respeito a como as TAZ se desviam às propostas de um "retorno" à natureza, ou um fim último de uma sociedade feliz. Nem o culto a uma natureza simples, nem a esperança de um futuro com tecnologia maravilhosa. Tanto o instrumento tecnológico (a "net", o computador, e afins), quanto o mundo "real" são meios, instrumentos, para o cultivo de relações imediatas, efetivas, experiências reais para com o próprio mundo.
Parece um paradoxo. Bey o mantém, mas sugere como se desfaz: a "net" é um instrumento para a "web"; isto é, as relações efetivas e mais sólidas de uma rede são interessantes para a ‘TAZ’ enquanto meios para uma ampliação dessas relações primeiras. Daí a sugestão das "teias", sempre fortuitas, e por isso mais conectáveis. A relação entre net e web sugere: o real é uma abertura constante ao possível.
- Um exemplo de TAZ que sempre me ocorre é o enredo do filme Mediterraneo, de Salvatores. Outras catatauíces: Quem é Hakim Bey?, Hakim Bey: Sedução dos Zumbis Cibernéticos, Um pouco de Hakim Bey e anonimato, Superando o Turismo
- Passei uma semana fora do ar, e agora as atividades retornam ao "normal" (inclusive as considerações diante dos excelentes comentários das últimas semanas). Como se diz por aí em fim de carnaval, um feliz ano novo a todos






1 Comment »
renato Says —
muito legal o seu texto sobre o taz. há alguns anos atrás eu li esse livro, mas confesso que na época, saindo da adolescência não consegui entender muita coisa. depois, quando senti vontade de voltar a lê-lo dei me conta que meu exemplar estava perdido.
Made on February 12, 2008 @ 1:17 pm
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