February 23, 2008
Estéticas da Biopolítica
Dois motivos relacionados entre si podem explicar porque a importância do conceito de biopolítica para a compreensão dos dilemas políticos do presente tardou quase quinze anos para ser reconhecida. Em primeiro lugar, para reconhecê-lo era fundamental ultrapassar a rigidez dicotômica da distinção ideológica tradicional entre esquerda e direita, aspecto que já se encontrava presente na análise foucaultiana do caráter biopolítico não apenas do nazismo e do stalinismo, mas também das democracias liberais e de mercado. Em segundo lugar, penso que o fenômeno da biopolítica só poderia ser entendido enquanto forma globalmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na multiplicação da vida por meio da aniquilação da própria vida, a partir do advento recente da política transnacional globalizada e ‘liquefeita’, segundo a terminologia de Bauman. Nesse sentido, creio que a reflexão de Deleuze sobre as transformações sociais da última década, as quais iniciaram o processo de substituição do modelo disciplinar de sociedade pelo modelo de “sociedade de controle”, articulada em redes de visibilidade absoluta e comunicação virtual imediata, constitui o paradigma a partir do qual Toni Negri e Michael Hardt puderam formular seu conceito de “Império”, no centro do qual se encontra, justamente, uma apropriação do conceito foucaultiano de biopolítica, redefinido agora em termos da biopotência da Multidão. [Continua em Sobre a Biopolítica: de Foucault ao século XXI, por André Duarte]
As decisões globais dependem cada vez menos da opinião e da vontade, e cada vez mais do dever cego e inevitável dos fluxos psicoquímicos (hábitos, medos, ilusões, fanatismos) que atravessam a mente social. O lugar de formação da esfera pública se transferiu da dimensão do confronto entre opiniões ideologicamente fundadas para o magma do oceano neurotelemático, no qual as coisas se determinam fragmentariamente, imprevisivelmente, por efeito de tempestades psicomagnéticas e cada vez menos referidas a esquemas políticos definidos. Claro que há divergência de opiniões, cada um pode se expressar como quiser, mas isso já não tem nenhuma importância, pois já nada significa, não tem efeito algum. A proliferação ilimitada das fontes de informação, por sua vez, não necessariamente significa uma abertura democrática, talvez porque o efeito-sociedade não se encontra mais na esfera do discurso, mas na psicoquímica. [Continua em Mutações Contemporâneas, por Peter Pal Pelbart]
A coletânea completa chama-se "Estéticas da Biopolítica", e vale muito a pena conferir.




1 Comment »
Ezequiel Vieira Says —
A postagem me lembrou Bárbara Szaniecki - você deve conhecer. Com uma reconhecida perspectiva negriana, em 2006 ela esteve por aqui na Ufes falando sobre o que chamou, em livro publicado, de Estética da Multidão.
Bárbara fez uma breve histórico das formas de representação do poder e sobre como a resistência reelaborava esses elementos para se contrapor.
Ela aponta que antes a resistência buscava nas próprias de representação de poder os elementos para compor o protesto e assim se parodiava o que se tinha como legitimação.
O que se verificaria agora seria uma forma de protesto cujos elementos são constituintes e afirmativos, não existindo, necessariamente, em função do que já está dado.
Made on February 26, 2008 @ 6:56 pm
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