February 18, 2008

Lula e a Antártida

O Adriano fez uma provocação, a respeito da viagem de Lula à Antártida:

Agora só falta v. meter o pau no Lula por estar na Antártida também. d:

Ele se refere ao antigo post sobre a ida de uma comitiva parlamentar para o continente gelado. Na ocasião, a comitiva representava a Subcomissão de Aquecimento Global no Senado, e a Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas. Como bem mostrava o conhecimento geoclimático do senador Renato Casagrande (PSB-ES), a primeira pergunta é: que função teria uma equipe inteira como essa visitando a Antártida? Qualquer deliberação política sobre o aquecimento global não poderia partir de lugares mais quentes? Especialmente pelo caráter da visita: era uma comissão de parlamentares buscando "constatar politicamente" o aquecimento global na Antártida. Algo um tanto quanto desnecessário, tanto em aspectos científicos, quanto políticos. Constatar argumentos sobre mudanças geoclimáticas não requer uma viagem dos parlamentares, e a pergunta que permaneceria é se algo assim teria algum peso político relevante, ou mesmo efetivo.

Sobre a visita de Lula, esse blog se sentiria atraído a chamar a atenção sobre como notícias como essa são diferentes de outras, como essa (enfim, nossa categoria se chama "mídia e política", e não "política" ;) ). Pelo menos na visita dos parlamentares o tema predominante da cobertura foi a função da visita. Mas retornando ao assunto, algumas premissas da função da visita de Lula:

"É uma visita protocolar, onde ele vai conhecer e dar respaldo ao que vem sendo feito pelo Programa Antártico", afirmou o comandante Eron de Oliveira Pessanha, encarregado da Divisão de Operações do Programa Antártico Brasileiro.

Este ano também se comemora o Ano Polar Internacional e a visita do presidente, diz o comandante Pessanha, mostra à comunidade internacional o apoio do governo brasileiro à ciência e às atividades desenvolvidas na Antártida.

Apesar do apoio político representado pela visita, a base ainda depende das emendas parlamentares para conseguir receber integralmente o orçamento de R$ 12 milhões por ano para custeio mais R$ 2,5 milhões para modernização das instalações e equipamentos.

O comandante Pessanha disse que o presidente não vai ouvir nenhum pedido explícito por mais verbas, mas os responsáveis esperam que, ao ver os trabalhos de pesquisa realizados no local, o governo se convença de que precisa destinar ou pelos menos garantir os recursos atuais para o funcionamento da estação.

"Ele vai ter conhecimento do que a base precisa para ser vista como uma base modelo, como já é", afirmou.

Uma frente parlamentar criada no ano passado e liderada pelo senador Cristovam Buarque se empenha para endereçar emendas às atividades da base. A expectativa do comandante Pessanha é que a frente ganhe mais adesões e portanto mais recursos nos próximos anos.

Eu questionaria sobre se não haveria uma grande diferença entre: uma comissão parlamentar inteira (e tinha até gente do PT, para satisfazer as aspirações do Adriano, se isso tem alguma relevância) viajando para "ver politicamente" o aquecimento global; e uma comitiva presidencial em viagem solene para a comemoração dos 25 anos da base, para conferir peso político no apoio ao programa antártico brasileiro, e enfim para chamar a atenção a financiamentos futuros da base. Tanto a natureza da visita, quanto a função, mostra um peso diferente, entre as comitivas presidencial e parlamentar.

Concedendo aos dois lados do debate, eu perguntaria se o caráter protocolar - especialmente nos termos acima - não legitimaria a visita do presidente (enfim é função de presidentes realizar protocolos), muito embora perguntaria também sobre o que o filho dele faz lá junto com ele.

***

E como já problematizou uma vez o Alon, não se trata aqui meramente de mostrar críticas a Lula para tornar o diálogo de um "esquerdista" viável com o "direitista". Aliás, não faltaram a esse blog denominações de "esquerdista", como também não faltaram de "direitista". Mas felizmente a questão é outra, do caráter efetivamente público dos atos públicos. Dadas as perguntas acima, é perfeitamente legítimo comparar os frutos das duas visitas, e no mesmo movimento questionar o caráter público da presença de certas pessoas.

February 16, 2008

A maior foto do mundo

"The Great Picture", um projeto do Legacy Project, é considerada a maior fotografia do mundo. Para sua confecção, um hangar inteiro foi transformado em câmara escura.

the great picture, by legacy project maior fotografia do mundo.

February 15, 2008

Imagens a perder de vista

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O link do Instituto Nacional Francês do Audiovisual é muito bom, de fato tem inúmeros recursos (alguns pagos, outros gratuitos). Via História Viva:

Como os movimentos estudantis de 1968, de Praga à Bolívia, foram noticiados pela televisão? No site do Instituto Nacional do Audiovisual (INA) francês é possível ver como esses eventos foram retratados nas televisões e rádios da época. O INA é o órgão que detém os arquivos de toda a produção audiovisual francesa, desde suas fundações (anos 30 para rádio e final dos 40 para a TV). Na França, uma lei exige que todo programa de rádio ou televisão deve ser guardado no INA. Com isso, a instituição conta hoje com mais de 60 anos de rádio e 50 de televisão arquivados. As imagens de 1968 são apenas um exemplo do que há no site do INA, que vem, ao longo dos anos, digitalizando seu acervo e colocando parte dele na internet. Hoje já são 100 mil programas consultáveis em busca por temas, personalidades, épocas e programa específico. Alguns documentos são oferecidos para locação ou venda (com preços em torno de R$ 4 a 10), e boa parte é gratuito.

***

O del.icio.us deu pane, e mudamos o visual do blog. Ficou mais "clean". Ainda assim, precisa de mais ajustes. Que tal? emoticon

February 14, 2008

A difícil vida de um parlamentar

Palavras do ex-deputado federal pelo PL (atual PR) e ex-bispo da Igreja Universal Carlos Rodrigues, sobre o mensalão e a difícil vida de um parlamentar:       

“Ser parlamentar é muito ruim, meritíssimo”, disse. “Muito ruim. Você sacrifica tudo o que tem. Entra ali de manhã e sai à noite, não vê o dia passar. Se ocupa o dia inteiro. Sábado à noite, você às vezes tem que ir a um casamento, abraçar 100 pessoas que nunca viu na sua vida. De repente, você está em casa, um eleitor seu morreu, tem que botar o terno e ir ao enterro. Nove horas da noite, você está com sua família, sua esposa quer ir ao cinema, tem que atender a um pedido político. Ser parlamentar não é simples, embora a imprensa ache que é um paraíso. Não é”.

Dentre outras coisas, o Bispo é acusado de

se envolver com o caso Waldomiro Diniz, conhecido também como Escândalo dos Bingos’. Em outubro de 2005, renunciou o cargo de deputado após se envolver com o Mensalão. No dia 4 de maio de 2006, se apresenta à Polícia Federal, para evitar prisão em flagrante, depois ser acusado de se envolver o caso das vendas fraudulentas das ambulâncias deflagrado pela própria PF na Operação Sanguessuga. Ele é acusado de corrupção passiva, fraude em licitação e formação de quadrilha.
Costumava-se dizer que, enquanto o bispo Edir Macedo era líder espiritual da IURD, o bispo Rodrigues organizava a liderança política. Vários dos editoriais do jornal da igreja, a Folha Universal, eram escritos por ele. Valdemar Figueiredo Filho analisa as relações entre política e igreja nos escritos de Rodrigues, onde consta a passagem do próprio Bispo:

Mais um traidor. Rio de Janeiro - RJ. Paulo Mello, então pastor da IURD, foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro através dos votos dos membros e obreiros da Igreja Universal da zona oeste.  A Igreja e o povo pensavam que teriam mais um homem de Deus, sincero, correto, íntegro, como convém a pessoa de Deus e que defenderia as causas do povo que nele votou, povo este já tão sofrido pelas agruras da região mais distante do centro da cidade.  Pura ilusão.  Assim que tomou posse, afastou-se da bancada evangélica, traiu também o partido ao qual era filiado, aliou-se a vereador incrédulo.  Votou contra o vereador bispo Jorge Braz, tirando este da liderança que exercia.  Tudo bem, até Jesus teve o seu Judas e não seremos nós, povo de Deus, que não teremos os nossos.  Vamos em frente que o nosso Jesus é maior, o nosso Deus é justo juiz.

e

faz-se necessário "uma grande reforma espiritual na vida do povo brasileiro" (Rodrigues, 1998, p. 27), da qual pode resultar uma nova moral pública e uma nova ética na política. Para tanto, continua o referido bispo, é "papel da Igreja do Senhor Jesus Cristo: anunciar a verdade, doa a quem doer e cobrar das nossas autoridades a prática dos princípios éticos e morais do nosso povo, de acordo com a própria Carta Constitucional do país"

Curiosamente, o nome do bispo não consta nem na página da Folha Universal, nem nos sites da IURD.

“Foreign movies”

O post é daqueles de "primeira impressão". Mas parece que o foriegn movies tem um acervo fabuloso daquele tipo de produções que nunca ouviremos falar, ou teremos acesso muitas vezes peneirando, ou por acaso. Redroduzo abaixo as tags do site, para dar um gostinho:    
(more…)

Os arborígenes e o perdão

aborigine, arborigines

imagem daqui 

Palavras do primeiro-ministro australiano Kevin Rudd, sobre a obrigatória inserção cultural dos arborígenes nos padrões brancos, durante o século XX:

Às mães e aos pais, aos irmãos e às irmãs, pela ruptura de famílias e comunidades, pedimos perdão. Pela indignidade e pela degradação assim infligida a um povo orgulhoso e a uma cultura orgulhosa, pedimos perdão

A BBC publicou relatos de Arborígenes destituídos de suas identidades culturais. Como o de Ruby Hunter:    
 They told my grandmother that they were going to be taking us to the circus. (…)

We never ended up in a circus - we ended up in a police station. I remember the bars.

From there, another car picked us up and drove us. We never got back to our grandmother.

When I first met my foster people, the lady took me to their house and said, ‘This will be your house, and the people in this house you can call mum, dad, auntie or uncle’.

E dada a aculturação, alguns encontram modos curiosos de "contar suas próprias histórias".
 

February 13, 2008

Abu Ghraib, liberdades civis, e 30 anos atrás

bottero abu ghraib

O Festival de Cinema de Berlim lançou um documentário chamado "Standard operating procedures". Dirigido pelo norte-americano Errol Morris, trata dos abusos cometidos em Abu Ghraib. No mesmo contexto, Taxi to the Dark Side concorre ao Oscar 2008.     
 
Outro filme que tratou de passagem o mesmo tema é Kurtlar Vadisi, produção turca de 2003 que trata de um comando combatendo forças norte-americanas no Iraque. O filme reúne vários temas bem caros à percepção do oriente médio sobre a intervenção norte-americana.
 
Em contexto não muito distante, um dos sites-destaque do del.icio.us é o Loss of Civil Liberties Since 9/11. Reúne linhas de tempo de diversos temas:
This is the History Commons project for the loss of US civil liberties under the current administration, and before. We are currently focusing on several topics, including the expansion of executive power (the “unitary executive”), the NSA’s domestic surveillance program, the use of “national security letters” to force information from citizens, and others.
Por coincidência, lia um texto de Robert Fisk, a respeito da invasão da embaixada norte-americana no Irã em 1979, durante a revolução islâmica. Sobre as tentativas de intervenção norte-americana da época, no Irã e em outros países (após a Operação Ajax, encabeçado pelos EUA e Inglaterra para depor o primeiro ministro iraniano Mohamed Mossadeq, temia-se um novo golpe norte-americano contrário à Revolução, que alavancou a oposição a Jimmy Carter, e favoreceu ironicamente a eleição futura de Ronald Reagan, alguém segundo Fisk "menos sensível" a questões do oriente médio), consta:
 A iranian girl who had studied journalism in New York - who had experienced, as she put it, the fruits of American Democracy - demanded to know why americans were prepared to support the Shah´s regime when it had opposed individual freedom and dissent. ‘In the United States, we learned all about liberty and the freedom to say what we wanted to say. Yet America went on propping up the Shah and forcing him to squander Iran´s wealth on arms. Why did it do that? Why was America a democracy at home, and a dictator abroad?’ There was, of course, a contradiction here. The fact that President Carter, whose campaign for human rights was well known in Iran, should have continued to honour America´s political commitment to the Shah before the revolution - in however tentative a way - was regarded as Hypocrisy. (The Great War for Civilization, Ed. Harper Perennial, p. 146)

February 11, 2008

Coisas de Televisão

No primeiro intervalo de férias dos últimos anos, com um baita problema no braço, tive nos últimos tempos um certo hábito de assistir programas de televisão. Os de domingo, nunca - soube de fontes confiáveis que no inferno deve passar o Faustão e o Gugu todos os dias.

Não quer dizer que os outros sejam tão melhores. Há algo de grotesco nas programações. Por exemplo, em uma novela de horário nobre, falam em uma universidade privada sobre a importância dos financiamentos privados na educação pública. Isso carrega uma série de assuntos importantes sobre educação, o papel do ensino, da pesquisa, da televisão, e afins. Mas o engraçado é que no mesmo capítulo um professor da mesma universidade recebia a tarefa de ministrar aulas de "Física Quântica aplicada ao dia-a-dia"!

Conservando seu papel social, a mesma novela mostrou, alguns capítulos atrás, como um bom brasileiro deve se defender: comprando uma bazuca, ou mantendo uma metralhadora atrás da mesa de seu bar.

Sem contar a aula de mitologia do segundo capítulo do Big Brother Brasil 8. Lá o sempre altivo Pedro Bial ensinava a nós - a ralé - sobre como Dionísio é uma manifestação do deus Apolo, ou que o nome grego do latino Dionísio é Baco. Se bem que, no mesmo episódio, haviam comparações bem mais grosseiras (e ninguém ainda escreveu algo sobre como esse programa conseguiu reverter a gosto popular o caráter negativo do Big Brother de Orwell em um show de bundas).

Ainda tem o teor literário: diante da desclassificação de algum "Brother", o Bial sempre recorre à poesia. A última "vítima do paredão" acabou vitimando também Fernando Pessoa, entre bundas e gentes efusivas.

O caráter literário do BBB foi muito bem mostrado pelo concorrente Fernando. Pinta de Pit Boy, no início do programa a cada 10 frases enunciadas, 11 continham a expressão "pegar mulher". Avançando o programa, o indivíduo "pegou" uma delas. Logo depois, encenou uma espécie de quase briga com outro concorrente: inicialmente, "arrebentaria" o desafeto; em seguida, disse que apenas queria conversar.

Entre a mulher e a briga, nosso "brother" suposto pit boy ficou totalmente desarmado: não podendo brigar nem com desafetos, nem com os outros integrantes que descaradamente flertam com a mulher "pegada", resta um silêncio cômico, com outras cômicas tentativas de estabelecer comunicação por vias alternativas às  expostas acima. Talvez foi de uma dessas cenas que o Luiz Antonio Ryff extraiu a pérola by Fernando:

 - Graças a Deus nunca fui de ler livro.

E eu vendo TV. emoticon

Finalmente, houve a polêmica do tapa-sexo de Viviane Castro. Uma puta injustiça. Onde se viu pensar que a mulher estava nua na Sapucaí? Só porque os 4 centímetros utilizados eram menores que os costumeiros tapa-sexo com 10 centímetros polidamente vestidos?

viviane castro tapa-sexo carnaval 2008

 

Debret e o Brasil

Este é o primeiro catálogo raisonné da obra brasileira de Jean-Baptiste Debret, o mais famoso artista estrangeiro a pintar o Brasil no século XIX. Com 708 páginas e mais de 1.300 imagens, este volume ilustra a totalidade dos trabalhos do artista, que os autores conseguiram identificar e descrever como resultado de uma longa pesquisa. As centenas de óleos, aquarelas, desenhos e gravuras, produzidas por Debret nos quinze anos passados no Brasil (1816-1831), estão reunidos neste volume, para permitir uma visão completa da obra do pintor. São mais de 200 obras inéditas, e quase todas as imagens estão reproduzidas em tamanho maior que em qualquer outra publicação sobre Debret. Só se conheciam até hoje nove quadros a óleo pintados pelo artista francês no Brasil, e este volume revela seis novas pinturas descobertas recentemente pelos autores. O livro apresenta também 87 obras cuja atribuição a Debret foi rejeitada ou questionada pelo comitê de autenticação formado para este livro.
O preço? Sugerido na cultura, 195,00. Ou pesquisa aqui. Dica do Pedo Doria.
 
Pelo custo, talvez um livro um pouco mais difícil de obter que o do Sr. PK… 
 
Mais Debret, aqui.

A redução da maioridade penal no Senado

Brasília - A proposta de redução da maioridade penal para 16 anos chega ao plenário do Senado pela primeira vez. A matéria é o terceiro item da pauta da Casa, que tem sessão deliberativa marcada para terça-feira (12) à tarde.

Pela proposta, adolescentes entre 16 e 18 anos poderão ser responsabilizados criminalmente em caso de crime hediondo. Para isso, será necessário um laudo técnico atestando que o adolescente tem plenas condições de entender o caráter ilícito do crime cometido.

Por ser uma proposta de emenda à Constituição, precisa ser aprovada em dois turnos no plenário antes de seguir para a Câmara dos Deputados. Para isso, são necessários os votos favoráveis de pelo menos 49 dos 81 senadores (três quintos dos parlamentares da Casa). Se esse placar não for atingido, a proposta é arquivada.

O projeto é de autoria do então senador e hoje governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM) e se chegar à Câmara, encontrará outras 20 propostas de emenda à Constituição tratando do mesmo assunto. Na Câmara, a mais antiga PEC que trata da redução da maioridade penal, tramita na Casa desde 1993, ou seja, há 15 anos. Até hoje não foi votada por falta de entendimento.

Cheira à velha história: tudo se passa como se não houvesse distância entre o sujeito de direito e os indivíduos e práticas concretas, no Brasil; como se um debate maior sobre responsabilidade e desenvolvimento do adolescente não devesse ser feito; como se as prisões servissem como um lugar de reabilitação dos prisioneiros; como se o crime fosse apenas questão de responsabilidade individual em uma sociedade em que os indivíduos são essencialmente iguais; como se não houvesse aquela divisão entre "adolescente" (menino de classe média) e "menor" (por si mesmo, infrator).

Muito interessante, o Brasil visto pelo senador Arruda.