March 17, 2008
Egolatria, blogues, e campanhas de links
O leitor do Catatau já percebeu desde o início como este veículo é encasquetado com um certo papel destinado aos blogs: o de ignorar certas características amplas e democráticas do hipertexto, em nome de cultos à autoria e à autoridade.
Em suma, o problema que ocorre quando o interesse se desloca do QUÊ se diz, para QUEM diz. Resultado: as boas idéias começam a ficar na sombra, enquanto as autoridades se destacam - e isso, independente do que tenham a dizer.
Isso é particularmente notável quando observamos adesão a certos movimentos iniciados por blogues. Basta ver o fluxo e refluxo de links. Às vezes memes completamente banais se alastram como tempestades de gafanhotos; outras informações que podem ser consideradas importantíssimas, acabam meramente descartadas. Com um agravante maior: se vier de um veículo considerado famoso, o banal tem maior chance de popularidade; se vier de um blogue com autoridade do technorati igual a 1 ou 10 (para dar um exemplo tolo), o essencial tende a passar desapercebido.
Nesse contexto, alguns "pro-bloggers" brasileiros tem comportamentos pitorescos. Uns, com audiência elevadíssima, permitem a si mesmos e aos outros a defesa de termos chulos, palavrões e superficialidades. Talvez eles pensem que popularidade é como o Programa do Ratinho: basta uns palavrões e outras porradas para o IBOPE aumentar.
Outros pro-bloggers - os melhores - consolidam o próprio espaço, com algumas campanhas e até discussões interessantes. Mas - o que é grave - transformam o rizoma em árvore: o fluxo de links que podemos mapear em suas campanhas; a instauração de uma hierarquia vertical de links; e a inauguração de uma relação muitos-um, ao invés de muitos-muitos, tudo isso acaba cristalizando ligações hierarquizadas, e obrigando a dinâmica muitos-muitos do hipertexto a ser afunilada, subjugada em função do que se torna sem querer uma espécie de mainstream.
Para isso, basta ver o comportamento de "feixe" dos links em determinadas campanhas, como algumas de blogagem coletiva.
Foi o próprio caráter aberto, democrático e informal do que se convencionou chamar de "blogosfera", que criou vários pro-bloggers brasileiros, ou mesmo os blogueiros mais "famosos". O que não se pode fazer é esquecer a relação "muitos-muitos", em função da hierarquia. Se esse é o destino do hipertexto - repetir relações reais, sem problematizar a "realidade" com o tipo de relação a-hierarquizada da "virtualidade" -, ele perderá o que tem de mais precioso. Deixará, por definição, de ser hipertexto.
Caberia ao "blogueiro famoso", ou ao "pro-blogger" - esse indivíduo curioso que gosta tanto do hipertexto que acaba vivendo disso - quebrar o próprio tipo de dinãmica a que não escolheu, mas está envolvido.
Esse post pertence ao movimento de blogagem "inédita" coletiva do interney.net. Como consta lá, o objetivo é "trazer mais lucidez à blogosfera, ressaltando o valor que há na profundidade com que o bom jornalismo trata a informação e divulgando blogueiros de diferentes formações que tem aproveitado a liberdade da ferramenta para trazer conteúdo inédito para a rede". Pois bem, aí está
[update: com o "pequeno" detalhe de que a blogagem era sobre tudo, exceto blogs
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Ricardo Cabral Says —
Ou seja, este post não vale, né? Ao mesmo tempo, você e outros não abrem mão das fontes, e nesse sentido, optam por fontes acadêmica e cientificamente confiáveis. Fico me perguntando se a consistência de nossas — êpa, que espertinho, incluí a minha pessoa na turma! — colocações poderá se dar sem o uso dessas fontes… Eu mesmo respondo: não. Ou melhor, só se nos tornar-mos referências tb, e a história que vc falou lá em cima começa de tovo, mudando apenas os protagonistas…
P.S. Sei que vc está discutindo sobre a superficialidade dessa replicação presente na blogosfera, mas eu resolvi dar uma de advogado do diabo, indagando se não seria mais do mesmo, só que com outras autoridades como protagonistas…
Made on March 17, 2008 @ 6:56 pm
Ricardo Cabral Says —
“… começa de novo…”
RE: É bem por aí Ricardo, no fim das contas esse post “não vale nada” (enfim, não correspondeu ao meme; enfim, quem é esse Catatau?; enfim, um post que problematiza feixes de links acaba no final linkando para um desses feixes). Mas muito bom o que você chama a atenção: a idéia toda não é a autoridade, mas a idéia; se evoquei a idéia do rizoma, não foi para chamar a autoridade de seus autores, mas para evocar um problema. A questão toda é que devemos ter cuidado para que tudo não vire nem autoridade alheia, nem autoridade própria. Poxa, quando é que dois seres humanos podem se encontrar sendo apenas seres humanos, podendo criar algo sem essas mediações? Eis a questão.
Mas não significa, por outro lado, que idéias não provenham de autores. Chamar a idéia, referenciando o autor, não quer dizer transportar todo o privilégio da idéia ao autor. Essa é a questão. Em outras palavras, deveria-se deslocar a atenção, do autor à idéia. Caso contrário o autor vira autoridade, as batalhas de idéias viram batalhas autorais, e enfim tudo permanece como estava.
Por isso nesses dias certos tipos de anonimato são tão belos
Made on March 17, 2008 @ 6:58 pm
Hermenauta Says —
Infelizmente eu não consigo deixar de achar a)estranho, b)pernóstico e c)inútil um movimento que vise atingir objetivo tão impossível quanto “trazer mais lucidez à blogosfera”.
Mas como dizia Borges, “a um cavalheiro só interessam as causas perdidas”…
RE: É como esse post, Hermê: não trouxe lucidez alguma, pois de saída já fugiu à proposta que traria lucidez à blogosfera
Made on March 18, 2008 @ 10:51 pm
tiagón Says —
belo e enxadrístico post.
RE: É uma variante do Sistema Colle, Tiagón
Made on March 20, 2008 @ 3:35 am
Ricardo Cabral Says —
Resolvi dialogar um pouco mais com este post. Não sei se fui feliz, mas os autores que cito ajudam, hehehe!
Está aqui.
Abração
RE: Boa, lerei com atenção.
Abração,
Made on March 21, 2008 @ 12:03 am