March 20, 2008

A Páscoa e a “radicalidade” do Cristão

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Alvaro Pires de Evora - Cristo Ressuscitado (1430) 
 
Via de regra, considera-se o Natal a principal data do cristianismo. Mas para a Igreja Católica, a principal data é a Páscoa. Isso por um motivo trivial: não fosse pela Páscoa, não haveria cristianismo.
 

Basta lembrar da Crucificação. Os discípulos se dispersaram, Pedro negou seu Mestre, Judas se matou (índice de que para ele Cristo morreria, e portanto a traição não seria perdoada), e após a morte de Jesus alguns discípulos deixaram os ensinamentos de lado, retornando à vida ordinária.
 
Apenas com a ressurreição o cristianismo "começou", enquanto atividade das comunidades que gradativamente começaram a se auto-intitular "cristãs". Foi o "relato" ou "vivência" desse acontecimento que motivou a união e proliferação do culto, especialmente em condições adversas como a perseguição romana.
 
Essa crença gerou imediatamente mártires - já nos discípulos, e doravante nos santos. De Pedro aos cristãos chacinados no oriente, passando por diversos outros, foi a crença radical na "ressurreição" que moveu a conversão, e ao mesmo tempo a ação dos cristãos. 
 
O que cabe notar é que essa crença mudou radicalmente a atuação dos convertidos. Se Jesus ressuscitou, não haveria justiça humana eficaz contra seus ensinamentos: a própria vida não é limite para o cristão, que pode, em nome do ensinamento recebido, contestar todos os valores e práticas do mundo em nome de tais critérios.
 
Nesse sentido, existe um primeiro quesito do cristão, ao mesmo tempo fundamental e radical: ele realmente acredita que, em torno de 2000 anos atrás, houve um Messias, divino porém radicalmente humano, que morreu e ressuscitou. Uma crença tão radical quanto difícil, já que exige não uma metáfora, mas a própria literalidade do fato: Jesus literalmente teria revivido após a morte. Essa radicalidade permitiria, por outro lado, indicar o limite das ações do cristão: no caso, nenhum.
 
Portanto, a ressurreição desemboca em um segundo elemento. Também radical, figura no âmago do cristianismo. Ele se refere às ações e ao exemplo do próprio Jesus, em meio aos outros "personagens" da época. Refere-se também ao tipo de ação desses personagens diante do próprio Cristo, culminando na crucificação.
 
Jesus morreu como o "Rei dos Judeus", segundo a placa afixada na cruz. O título apenas pastichava o Messias. O significado de "Rei" - e a própria ação de Jesus - fugia entretanto dos compromissos dos setores que o rodeavam. A "realeza" não era uma espécie de comando revolucionário, como queriam os Zelotes; nem a ascenção de um poder político e militar, que restituiria a autoridade judaica contra os romanos, como desejavam os fariseus e doutores da lei. Por fim, tratava-se de uma espécie de dinâmica estranha aos romanos, já que não afetava as relações formais, mas a interioridade dos indivíduos (e a crítica de Jesus à Halaká judaica serve para atestar isso).
 
A "ação" e a "realeza" de Jesus permanecia sempre no limite dos setores. É importante notar que, direta ou indiretamente, ela os afetava, mas de modo inesperado (daí as ambiguidades e dificuldades em condená-la). Diante da possível prisão pelos romanos, o "a César o que é de César" não envolvia apenas um recurso retórico, mas também pedagógico: o ensinamento cristão não visava apenas fugir da prisão ou vencer um debate, mas mostrar que, separando os valores cristãos dos romanos, os próprios valores cristãos imediatamente afetariam os romanos. Contra os judeus, o escorraçamento dos vendilhões do Templo, as conversas com mulheres e desprivilegiados, as curas no sábado e todo o percurso de Cristo mostravam algo difícil de vencer retoricamente: ao mesmo tempo em que de algum modo ele atacava os preceitos legais e morais, vinculava a própria ação às tradições judaicas.
 
Em suma, a ação cristã indicava pelo menos duas coisas: (1) ela fugia das práticas ordinárias, e dos modos corriqueiros em que poderia ser condenada; (2) mas ela afetava diretamente essas práticas. Levar a sério o ensinamento cristão não significava contrariar a legalidade judaica ou o domínio romano. Mas ao mesmo tempo, ser "cristão" implicava - pelo próprio ensinamento - o declínio tanto do judaísmo corrente, quanto do Império.
 
Daí, ao mesmo tempo, a "liberdade" de ação de Jesus, e seu caráter de radicalidade e denúncia. Isso serve para avançar mais um passo: se de um lado o ensinamento cristão circulava relativamente ileso, de outro ele criticava radicalmente setores corruptos e parciais. Deve-se considerar a palavra "parcialidade": isso quer dizer, junto com a posterior crença na ressurreição, que a conversão cristã não implica meio termo. E para isso cabe o exemplo dos zelotes: eles buscavam justificar os fins (a restituição da herança judaica) com os meios (uma revolta armada). Mantidas as devidas diferenças, Jesus buscava fins semelhantes aos dos zelotes; compactuar com os meios, entretanto, faria cair por terra o próprio ensinamento cristão.
 
Nisso aparece outra "radicalidade" da conversão. Em certo sentido, ou se é, ou não se é cristão: a ação cristã efetiva não admite parcialidade, já que isso significaria misturar fins considerados nobres com meios duvidosos. Para o cristão, os fins e os meios são colocados sob o mesmo plano de valor. O "Reino de Deus" é entrevisto nas pequenas ações que o projetam como finalidade. Por outro lado, existe a doutrina do perdão. Mas ela mesma serve para novamente nivelar os fins e os meios: se os meios do cristão não coadunaram com os fins, a confissão/perdão serve para restituir a ação no mesmo plano dos fins (e nesse ponto a radicalidade cristã incide contra os gnósticos: ela implica ação diante dos outros, e não apenas uma conversão mental).
 
Vê-se o tipo de valores e questões que a palavra "Páscoa" enseja: de um lado, a crença na realidade de uma ressurreição; de outro, a crença de que, dada a ressurreição, os ensinamentos cristãos são corretos, e não haveriam limites para a atuação de quem segue tais exemplos. Ainda, o cristão acredita que uma ação absolutamente cristã pode fugir às parcialidades do mundo.

1 Comment »

  1. Catatau via Rec6 Says

    A Páscoa, e a radicalidade do Cristão

    O significado da Páscoa não é tão claro quanto se imagina, especialmente em termos históricos e teológicos.

    Made on March 21, 2008 @ 2:09 am

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