May 8, 2008
Frédéric Gros, sobre novas noções de Guerra
A Caros Amigos pulicou uma entrevista com Frédéric Gros, concedida a Gabriela Laurentiis. Reproduzimos, abaixo:
Primeiramente, o senhor poderia explicar o conceito de guerra nas culturas ocidentais? Por que esse conceito mudou depois da queda do Muro de Berlim? Qual é a nova concepção sobre a guerra?
Por que o senhor pensa que estamos no início da era dos "estados de violência"?
Com o conceito de "estados de violência, tento refletir sobre a forma dos conflitos pós-modernos. Me parece, com efeito, que novas lógicas se impõem, se formam linhas de força novas que são profundamente diferentes. As resumo sob três grandes princípios: um princípio, de início, de unilateralidade. Me parece que, ao contrário das guerras clássicas, os conflitos pós-modernos opõem mais freqüentemente alvos desarmados a meios de destruição. Seja que se trate de atos terroristas ou de intervenções ultratecnológicas, se assiste a violências largamente unilaterais. O segundo princípio é um princípio de asseguramento dos fluxos, apoiado por intervenções. O antigo sistema de guerra pressupunha uma série de distinções: entre o exterior e o interior, entre o inimigo e o criminoso etc. Os conflitos pós-modernos vão pressupor atores novos: mercenários, organizações não-governamentais, exércitos internacionais, máfias. É uma nova lógica que se forma. Enfim, falo de um princípio de midiatização para referir a importância da imagem nos conflitos contemporâneos: é por ela que se decide o sentido das novas violências. O que chamo de "estados de violência" é, portando, o que é preciso descrever na atualidade contemporânea.
O senhor poderia explicar o que é o conceito de segurança? Por que esse conceito redefine o agente político na sua dimensão de ser vivo?
O conceito de segurança é muito antigo, tem suas raízes muito distantes na espiritualidade dos antigos. Significava então o estado mental do sábio que não se deixa abalar por nada, mas se mantém sereno em todas as ocasiões. Como eu já disse, no sentido moderno ela se torna apanágio do Estado segundo um duplo sistema: a polícia no interior e o exército nas fronteiras. A segurança se refere então à integridade territorial do Estado. Hoje, esse conceito é problematizado de uma maneira muito nova num certo número de círculos internacionais que querem promover a idéia da segurança humana. Essa "segurança humana" se define como a proteção do individuo nas suas capacidades vitais de desenvolvimento, de afirmação. Leva em conta tudo que possa afetar, alterar, fragilizar o homem no próprio aspecto concreto de sua vida: as doenças, os atos terroristas, a pobreza, as mudanças climáticas. Essa consideração global me leva a falar de um conceito "biopolítico" da segurança.
O senhor poderia comentar a frase de Michel Foucault, "na história do conhecimento, a noção de natureza humana me pareceria ter desempenhado essencialmente o papel de um indicador epistemológico para designar certos tipos de discurso em relação ou em oposição à teologia, à biologia ou à história". O senhor pensa que existe uma natureza humana? Por quê?
Essa frase, creio, faz uma referência a uma problemática muito precisa que era a de Foucault no momento em que escrevia As Palavras e as Coisas. Remetida à idéia da "morte do homem", não como extinção da espécie, mas como dispositivo epistemológico. Ele explicava então que a "natureza humana" não era uma realidade imemorial, mas um princípio da organização dos discursos do saber a partir do século 19. Interrogar a verdade, isso envolvia colocar a questão: "Que é o homem". Ora, parecia a ele que essa questão estava já superada, e que a verdade da verdade era agora pesquisada do lado da linguagem. Tudo seria linguagem, comunicação, transmissão de códigos: a troca de bens, o casamento, a reprodução sexuada etc. Então, o homem, como núcleo central do saber, desaparece. O que significa para Foucault que a "natureza humana" remete a uma questão cultural precisa, mas não ter pertinência nem universal, nem trans-histórica.
***
E bem a propósito, saiu a edição em inglês de Segurança, Território, População.
Continuando o tema, Gros concedeu outra entrevista, muito semelhante e complementar, intitulada "Penser la guerre" (por David di Nota). Nessa mesma referência, consta um ensaio de Gros intitulado États de Violence - Essai sur la fin de la Guerre.
Dentre outros, Gros escreveu Foucault e a Coragem da Verdade, e Foucault et la Folie.






2 Comments »
david lévine Says —
Merci de citer les références de l’interview: Entretien réalisé par David di Nota (écrivain Gallimard, Le Mague)
Made on May 11, 2008 @ 9:30 am
Artur Says —
Muito interessante, principalmente sua noção de segurança vista como biopolítica — utilizarei nas aulas (hehe)
Made on May 12, 2008 @ 2:42 pm
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