May 10, 2008
Livro de Jó, descendência e amizade
Placa com desenho de William Blake, representando o momento em que os amigos de Jó aparecem para vê-lo (todas as placas, coloridas e monocromáticas, aqui)
Lendo Jó - A Força do Escravo, de Toni Negri, outras questões interessantes aparecem, quando se propõe a extrair uma certa "atualidade" da figura bíblica. Negri tenta extrair as significações do embate entre Deus e o homem em termos de um debate ontológico (a absoluta desmedida divina, contra a absoluta "afirmação" de Jó quanto a sua posição finita); com isso, busca, à luz de Espinosa, reatualizar esses significados.
Em um outro caminho de leitura, é curiosa a extração de outros ítens. Dentre eles, as antigas tradições relativas ao vínculo com o outro, pautadas por exemplo na descendência e na amizade.
Quando Jó perde todos os bens, imediatamente a condição humilhante se reporta à descendência. Ao desgraçado, é vedada a continuidade na terra:
Sua memória desaparece de sua terra, seu nome se apaga na região.
Lançado da luz às trevas, ele se vê banido da terra, sem prole nem descendência entre seu povo,
sem um sobrevivente em seu território. (18, 17-19)
Do mesmo modo, quando Jó amaldiçoa o próprio dia em que nasceu, aparecem seus três amigos, Elifaz, Zofar e Bildad. Rasgam as vestes, e buscam, como advogados, encontrar um termo que possa explicar a desgraça de Jó. Contra a desmedida divina, Jó poderia apenas ter pecado, mesmo que seu pecado permaneça inconfesso, ou oculto.
Quando levantaram os olhos, a certa distância, não o reconheceram mais. Levantando a voz, romperam em prantos; rasgaram seus mantos e, a seguir, espalharam pó sobre a cabeça.Sentaram-se no chão ao lado dele, sete dias e sete noites, sem lhe dizer uma palavra, vendo como era atroz seu sofrimento (2, 12-13).
Independente do caráter judaico da amizade e da descendência, pode-se dizer que estes dois elementos estão relacionados a toda uma série de valorizações antigas (obviamente, não uniformes) do ser humano. Dizer hoje, por exemplo, que o aborto voluntário é um problema que deve ser abertamente discutido, ou que a amizade mudou, evoca outras valorizações, e outro tipo de relação com os outros.
Em relação à descendência, vários elementos poderiam ser elencados para se mostrar que, ao contrário da antiguidade, ter um filho em tempos não muito distantes pode ser considerado até mesmo um fator negativo. Um exemplo é a projeção do futuro feita por David Ricardo e Malthus: os dois propunham o controle da natalidade como forma de evitar crises econômicas. Em tempos de planejamento social, a constituição das famílias e a reprodução poderiam agir como fator não de fartura (como na antiguidade), mas de pobreza.
Quanto à amizade, sob muitos aspectos a noção de self made man dispensa velhos vínculos. A ligação pragmática, superficial e contextualizada, os amigos enquanto "passam uma fase juntos", e a ligação exclusivamente relacionada aos afazeres deslocam antigas tradições duráveis para vínculos meramente fortuitos. Aí se revela um significado antigo muito importante, relativo à amizade. Deus concede ao "opositor" ("o satã") retirar tudo o que Jó possui. Perde os bens e a família, enfim, todo o legado e descendência. Uma coisa, entretanto, não perde, além da própria vida: a amizade. Mesmo que estejam errados, os amigos de Jó agem em prol de uma reconciliação do amigo com a presença divina.
Nada mais distante de certas experiências atuais. Em caso de desgraça, um self made man tem grande probabilidade de se encontrar sem os privilégios de um Jó: permanecerá sozinho.





1 Comment »
_Maga Says —
é mesmo… permanecerá sozinho…
nenhum amigo para observar o seu sofrimento atroz…
Passei por uma experiência bem extrema nos últimos meses e posso garantir: com amigos por perto as coisas ficam muito, absurdamente, mais fáceis!
Um grande abraço
Made on May 11, 2008 @ 6:48 pm
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