June 3, 2008
Cérebro e Singularidade
O Hermenauta chamou a atenção a um novo número da revista chamada IEEE Spectrum. Lá, discutia sobre "singularidade", e assuntos relativos às interações entre a consciência e seu suporte material (o cérebro).
Dentre as questões mencionadas, estava a dos entusiastas da "singularidade", segundo os quais haveria a possibilidade da consciência ser alocada em outros suportes que não o corpo humano. Assim, ela até mesmo perduraria por tempo indefinido, ao contrário de nossa frágil carcassa.
A despeito dessas possibilidades, é interessante chamar a atenção inicialmente a duas coisas: a primeira diz respeito a, desde que se detecta o cérebro como "sede da alma", haver a possibilidade de determinar as atividades mentais com o estatuto semelhante ao de uma "coisa". Como o cérebro é a coisa sem a qual não se pode detectar a alma, é por meio dele que algo como a consciência poderia ser estudado.
O segundo fator, correlato a esse primeiro, diz respeito à própria atividade científica. A física nos ensina que a ciência deve empregar contínuos modelos de inteligibilidade, que permitem o avanço da ciência. Modelos científicos são como caixas de ferramentas: quando não funcionam mais, novas ferramentas devem ser desenvolvidas (junto às antigas, ou segundo princípios totalmente novos) para que o problema seja resolvido. A pesquisa científica ensina que, diante da "coisa" estudada, importam muito mais as abordagens do cientista do que as "coisas" em si mesmas. As próprias "coisas" mudam, dependendo da tomada de partido do cientista (a glândula pineal era para os problemas de Descartes algo bem diferente do que para um neurofisiologista do século XXI).
Assim, na história das neurociências, vemos as familiares narrativas dos modelos "mecânicos", que cederam lugar alguns séculos depois aos "elétricos", e agora aos computacionais. Vemos, igualmente, como a história do localizacionismo começa com as circunvoluções craniais de Gall, passando pela "totalidade" funcional de Flourens, até culminar nas teorias do "sistema funcional", também hoje incrementadas por modelos computacionais e virtuais.
Mas é importante notar duas coisas: a primeira diz respeito à rapidez com que, ao contrário de ciências como a física, traz-se os resultados das neurociências para a vida prática; ainda, como muitas vezes essa passagem da ciência à prática se faz de forma direta, e irrefletida.
Um exemplo é a transformação direta do modelo de inteligibilidade em coisa. Dizer que o cérebro pode ser conhecido segundo metáforas computacionais diz muito mais respeito ao modo de emprego do cientista, do que àquela coisa que permanece por dentro do crânio. Um conceito científico é sempre operatório, diz respeito a um experimento e no limite à coisa experimentada. Mas são duas coisas diferentes a pesquisa com um modelo de inteligibilidade, e a extrapolação do modelo como verdade última e prescritiva da coisa.
O que equivale a dizer: a ciência do cérebro traz muitos resultados positivos com modelos computacionais e virtuais, experimentando-se como se o cérebro fosse um sistema semelhante ao computador, porém mais complexo. Outra coisa bem diferente é ultrapassar o modelo de pesquisa antecipando seus fins, como pressupor que a consciência pode ser alocada em um hard disk, ou transportar-se virtualmente. Para que isso seja possível, deve-se resolver dois problemas anteriores: o que é a consciência? E de que modo ela se relaciona com o corpo, e com o cérebro?
A consciência pode ter muitas definições e, em boa parte delas, não existe uma autonomia tal qual a de um software diante do hardware. Pelo contrário, dizer que uma consciência é ao mesmo tempo hardware e software implica dizer que ela é ao mesmo tempo ação e operação, bem como ação e afecção. Não se separa por exemplo a memória da atividade consciente, como se a ligação fosse uma justaposição analítica (e já nos anos 30 se criticava alguns psicólogos por isso). Caso se pressuponha que o cérebro é a "sede" da consciência, não se separa a consciência da atividade do cérebro, ou, caso seja possível a separação nos termos expostos acima, deve ser primeiro rigorosamente definida.
Ou melhor, a história da humanidade mostra que a consciência se separa sempre: da criação do tacape ao computador, o que o homem não parou de inventar são extensões para sua própria operação. Mas daí a dizer que as extensões resumem-se de modo suficiente à totalidade consciente, se não é um contra-senso é no mínimo um problema colossal.
Finalmente, o tema de que se possa fazer um "upload" da mente não passa, de início, de uma dessas extrapolações: adoto primeiramente um modelo computacional para compreender o cérebro, o que é certo; depois, admito que o cérebro É algo como um computador, o que é duvidoso; finalmente, toda perspectiva sobre o cérebro não deixa de ser delimitada pela tese que assumo agora como verdadeira, mas que antes era apenas hipótese.
Isso tudo não quer dizer que a consciência não possa ser, enfim, separada do cérebro. Mas, dadas as extensões dos instrumentos humanos, nunca se pôde colocar a carroça na frente dos bois…



Leandro K. Says —
Ótima discussão, Catatau! Eu mesmo uso e pesquiso usando modelos computacionais (não porque são perfeitos, mas porque são o que melhor temos). Mas obviamente a metáfora computacional (muitos neurocientistas esquecem que é uma metáfora) tem muitos limites.
Não é à toa que Matrix ficou como um filme emblemático. Pode-se dizer que representou bem nosso zietgeist. E é muito difícil, senão impossível, pensar fora de nossa cultura.
Quem dirá pensar um metapensamento.
Made on June 4, 2008 @ 12:13 am
Ricardo Cabral Says —
Excelente post, Catatau, uma aula!
Lembrei de um artigo de G. Percheron chamado “Neuromitologias: cérebro, indivíduo, espécie e sociedade”, publicado no livro “Indivíduo e Poder” (P. Veyne, [org.], pp. 113-142, Lisboa: Ed. 70, 1988). Ele apresenta algumas dessas neuromitologias, dentre as quais as que falam de “3 cérebros justapostos” — um arcaico, um protomamaliano e finalmente a massa cinzenta do homo sapiens sapiens (tô escrevendo de memória, emprestei esse livro há anos e nem sei pra quem…) —, ou a idéia super difundida dos 2 hemisférios como “2 cérebros”… Não sei dizer sobre a atualidade de sua (do Percheron) discussão, só sobre ter gostado muito da maneira como ele descrevia os modelos sobre o funcionamento cerebral, e como a partir de tais modelos se avançava sem pudor para conclusões e recomendações de todo tipo…
Talvez você ou o Leandro K. possam atualizar isso, ainda que os erros metodológicos sigam sendo os mesmos, no máximo mudou o tema tratado.
RE: É o modelo de McLean?
Sou suspeito para dizer, mas o Leandro K é uma ótima referência referência para comentar sobre!
De minha parte, parece que esse modelo do McLean - que acompanha o tema do séc. XIX segundo o qual a ontogênese repete a filogênese - é ultrapassado (no sentido da analogia), mas os bons neurofisiologistas já teriam se prevenido das precipitações que a analogia pode evocar. Mas não sei, talvez o Leandro possa contextualizar melhor
Made on June 4, 2008 @ 4:38 pm
Ricardo Cabral Says —
O próprio, mas o autor falava de mais alguns, todos caracterizados por ele como neuromitologias. Aguardemos os esclarecimentos do Leandro K.
Made on June 4, 2008 @ 9:47 pm
Leandro K. Says —
Nossa, quanta resposabilidade em torno da minha resposta.
Bom, esse modelo triárquico do cérebro de MacLean [complexo R (reptil) + complexo M (mamífero) + complexo C (cortical)] na verdade é uma reedição da teoria ventricular do Platão. Instinto, vontade e desejo, cada um localizado em um ventrículo cerebral diferente. Fez bastante sucesso na idade média. O que MacLean fez foi passar um verniz em cima relacionando com a evolução e, como disse o Catatau, com a idéia da ontogenese repetir a filogênese.
Na verdade, o próprio sistema funcional do Luria com as suas 3 unidades funcionais inspira-se um pouco nisto. É um modelo facilmente compreensível por ser bastante parcimonioso. Mas os modelos computacionais posteriores já conseguem exercer um modelo explicativo mais eficaz e elegante.
Enquanto a fisiologia não conseguir descrever seus mecanismos até a chegada das funções cognitivas (nem falo em consciência, a atenção ainda não foi bem descrita)teremos ainda que pensar em torno de hardware e software (a versão moderna do dualismo corpo e alma).
Lembremos que o neurônio foi descoberto há pouco mais de 100 anos. Ontem, portanto.
O modelo que temos, repito, é bem limitado. Mas é o que temos de melhor.
Made on June 5, 2008 @ 3:00 am
Marden Says —
Muito próximo das críticas de Wittgenstein contra a concepção do cérebro como armazém (da memória, da consciência), e contra a redução do vocabulário da psicologia ao da física durante as décadas de 30/40. W. identifica o problema em termos de generalização de um modo possível de conceber relações causais, aplicado daí a toda causalidadade que se possa conceber (particularmente, às relações mantidas entre fenômenos neurofisiológicos e a consciência).
RE: Muito interessante, Marden! Vc tem alguma referência mais pontual p conferir?
Made on June 7, 2008 @ 12:28 pm
marcos ury Says —
A minha pergunta é: E se a consciência estiver relacionada a outras partes do sistema nervoso, e não apenas ao cêlebro?
Sabemos, por exemplo que nossas emoções sofrem a influencia das terminações nervosas no estomago, que em algum momento da nossa evolução já foi um “segundo cérebro”.
Podemos efetivamente dizer que tudo o que “somos nós” está no cérebro? E o resto do sistema são apenas “cabos de transmissão” instrumentos, e sistemas de acionamento dos orgãos? Ou será que não temos algumas processadores em lugares que não o cérebro? E na verdade somos não apenas cérebro mas todo o conjunto do nosso sistema nervoso? OU seja sistema distribuido de processamento?
Made on November 6, 2009 @ 7:35 am