
Imagine que você tem 100 quilos de alimentos para distribuir a uma população carente. Acontece que, se dividi-los em porções iguais e entregá-las a cada indivíduo, 20 quilos serão desperdiçados. Em compensação, se apenas metade das pessoas for contemplada, a perda será de apenas 5 quilos. O que fazer: maximizar o total de alimento distribuído ou sacrificar 15 quilos de comida em nome da eqüidade? Com esse tipo de dilema ético hipotético e imagens cerebrais obtidas por ressonância magnética funcional, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia investigaram os circuitos neurais que participam de decisões referentes à percepção de justiça.
Publicados na revista Science, os resultados indicaram que, quando os voluntários optaram pela eficiência na entrega de alimentos, uma região cerebral conhecida como putâmen, que participa do processamento de sinais ligados à recompensa, entra em ação de forma exuberante. Já quando a decisão favorece a distribuição equitativa, a atividade da ínsula, área conectada com circuitos emocionais, torna-se predominante. As imagens revelaram ainda que, dentre os que preferiram a eficiência, a resposta cerebral foi bem mais variável do que nos que privilegiaram a eqüidade. Segundo os autores, as conclusões de estudo sugerem aquilo que Platão, Kant e outros filósofos já defenderam, isto é, que nosso senso de justiça depende mais da emoção do que da razão.
O texto em questão é esse:
The Right and the Good: Distributive Justice and Neural Encoding of Equity and Efficiency Ming Hsu, Cédric Anen, and Steven R. Quartz
Science 23 May 2008 320: 1092-1095; published online 7 May 2008 [DOI: 10.1126/science.1153651] (in Reports)
Até agora, tudo isso é muito estranho. Como assim, o nosso senso de justiça, nesse estudo, depende mais da emoção do que da razão? Como assim, Kant e Platão diriam que o senso de justiça seria mais afim à emoção do que à razão?
Como apenas os gringos com-
Science podem ler o artigo inteiro, vamos a um
review, que parece ter servido de base à Mente e Cérebro.
O review opõe inicialmente duas posições diante do dilema ético exposto acima. A primeira, dos
utilitaristas (na linha de Jeremy Bentham), diria respeito à realização do grau máximo de utilidade do ítem para a felicidade. Nesse sentido, o texto diria que o utilitarismo se encarregaria da primeira opção: para não perder 20 quilos abastecendo todos, escolhemos abastecer metade da população, e perder apenas 5 quilos.
Supondo que essa é uma ação verdadeiramente utilitarista, a segunda opção é relegada à "
deontologia". Se os utilitaristas avaliariam a ação por sua
consequência, os "deontólogos" levariam em conta o
princípio da ação, se ela é justa ou injusta. De acordo com o princípio da ação, não favorecer integralmente a população seria comparável ao não favorecimento da universalidade da espécie humana. Deve-se, portanto, perder mais, e abastecer a todos.
Um terceiro elemento diria respeito à emoção: faria ela parte do senso de justiça?
Com essas definições e questões na manga, os pesquisadores escanearam os cérebros de 26 indivíduos, apresentando questões morais como a do alocamento de recursos financeiros em um orfanato de Uganda. Os indivíduos, durante o teste, eram forçados a tomar decisões variáveis entre o extremo utilitário (visando eficiência) e o deontológico (visando equidade).
Os resultados neurofisiológicos estão acima, e no
review: inicialmente, a região do
putâmen, estimulada, correlacionaria com padrões de eficiência; já a ativação da
ínsula (córtex insular bilateral) corresponderia a padrões de equidade. Em ambos os casos, o
núcleo caudado também seria ativado.
Dentre todos os resultados, chamaria a atenção a atividade do córtex insular, diante da possibilidade de não distribuir equitativamente a comida. As decisões se encaminhariam, via de regra, para a igualdade, inclusive para evitar a mera eficiência (talvez por descartar vidas). Dado que as reações dos indivíduos todas se encaminharam para que o caráter distributivo se direcionasse à igualdade, ao invés da eficiência, o estudo favoreceria a hipótese deontológica, ao invés da utilitarista.
Ainda, dado que o córtex insular desempenha papel importante nas funções emocionais, isso mostraria que nossas decisões não são desprovidas de um elemento emocional ("contrariamente às crenças de Kant e Platão").
Estudos como esses se espalham como verdadeiros "virais". Eles oferecem aquilo mesmo que todos esperam: respostas para problemas complexos como o da justiça e da moralidade. Via de regra, na mídia de ciência (e até em algumas pesquisas), respostas simples.
E aí notamos um primeiro problema: a conclusão da Mente e Cérebro ("as conclusões de estudo sugerem aquilo que Platão, Kant e outros filósofos já defenderam, isto é, que nosso senso de justiça depende mais da emoção do que da razão"), escrita de modo bem semelhante ao review, é totalmente oposta à do próprio review.
Considerando que a conclusão do
review seja a mesma da pesquisa, o estudo provém de uma
linha já
consagrada das neurociências, que busca enfatizar o caráter emocional da cognição, ao invés dos "duros" racionalismos que a Tradição ofereceu. Platão e Kant estariam "errados", pois toda decisão carregaria um traço de emoção.
Mas aí surge outro problema: quando um neurocientista escreve, está preocupado com indivíduos, tomados no nível do corpo biológico. Esses indivíduos se comportam, respondem, agem, interagem com o ambiente, tomados no nível das necessidades funcionais, e suas interações com reações corporais. Isso tudo é bem diferente do que almejavam Kant e Platão. Quando Kant
buscava as condições lógicas do conhecimento e os princípios da moralidade, não estava preocupado com o homem enquanto indivíduo biológico, mas com a própria possibilidade de uma ação efetivamente moral. Ora, ações baseadas no caráter contingente e "individual" do homem (seus "desejos") nunca poderiam alçar universalidade, dado que respondem a aspirações individuais e não poderiam ser gerais. Apenas quando tomada segundo um princípio independente das aspirações é que uma ação poderia ser universal, e moral por excelência. E a própria Tradição encontra em Platão um marco da separação entre as esferas sensível e inteligível. Se o contingente oferece a opinião e o fenômeno, o caráter verdadeiro das coisas poderia ser encontrado na contemplação das Idéias.
Entre os três, além de ser conceitual, a questão é de interesses que não se encontram. A ciência empírica do animal humano não emprega, e nem compartilha dos mesmos interesses, das reflexões que buscam contemplar as Idéias ou estabelecer as condições pelas quais um conhecimento ou uma regra podem ser necessários e universais. O problema conceitual da moral em Kant
não se reduz a uma aspiração individual, detectável em um cérebro. Caso fosse assim, o próprio cientista deveria, antes de fazer sua pesquisa, responder pelo problema do conhecimento que ele mesmo formula. Em outras palavras, se todo conhecimento não passa de uma escolha individual assentada em um cérebro, o conhecimento do cientista também responde a um conjunto de escolhas individuais. Que estatuto dariamos a elas? O problema ético não se contorna por uma análise "cerebral".
Outro problema provém da mesma fonte: reduzir o conceito filosófico ou científico à escolha de um indivíduo biológico. Pensamentos como os do utilitarismo e da deontologia, formulados acima, nem se assentam em escolhas simples baseadas em equidade ou eficiência, e nem essas noções servem como princípio básico das doutrinas (sem contar que o nome de Bentham pode ser encontrado nas duas). O putâmen pode dizer respeito a como um indivíduo se comporta fazendo escolhas, mas não a uma doutrina filosófica. Escolhas simples, tendendo a extremos, não fazem desses extremos princípios de filosofia. Especialmente quando uma doutrina envolve várias posições diferentes, dependendo do autor, e até mesmo mudando em um mesmo autor.
Um outro problema diz respeito ao contexto: se a teoria "deontológica" é "favorecida", simplesmente pelo exame dos cérebros de um conjunto de indivíduos pertencentes a contextos sociais limitados, valeria esse resultado para toda a humanidade? Teríamos o risco de uma generalização ingênua, baseada em crenças sociais, valer como determinante biológico. O putâmen de um norte-americano contemporâneo normal pode ser tão ativado quanto o de um imperador medieval do oriente; mas enquanto o primeiro se solidarizaria com as crianças de Uganda, o segundo poderia ser um tirano cujos súditos não seriam nada mais do que meros joguetes em nome do próprio tesouro.
Isso não quer dizer que não se possa colocar em uma mesma mesa de debates autores como os enunciados pelos senhores MIng Hsu, Cédric Anen, e Steven R. Quartz. A grande questão está em depurar o debate. E depurá-lo implicaria primeiramente se livrar do reducionismo ingênuo das reflexões morais às respostas orgânicas. Depurando o debate, teríamos toda uma série de questões, novamente sobre os fundamentos do conhecimento e da moral. Nesse plano, a ciência moderna poderia ser confrontada com as tentativas dos antigos.
Se uma doutrina filosófica reduz-se a um elemento anatômico, meramente relacionado às respostas emocionais do animal humano, o que nos impediria de situar o neurofisiólogo segundo o mesmo estatuto? Assim, o que responderia por esse homem-cientista, detentor de um cérebro, que indica os modos de agir mais "favorecidos" para os cérebros dos outros homens?
- Outros links:
Informe do Science and Reason, com mais conteúdo; e um
estudo de Ming Hsu, intitulado
The Neurobiological Foundations of Valuation in Human Decision Making under Uncertainty.
- O
Post slug foi para desviar outros assuntos, mais "atuais"
Ricardo Cabral Says —
Catatau, isso é lá assunto para um post?
Retificando, isso é lá um post que se escreva sobre o tema?
Explicando: catzo, é detalhe demais para responder!
Além das questões que vc levanta — que como já é costume seu, apontam para o que há de criticável nas premissas de muitas dessas pesquisas —, jogo mais um detalhe. Lembrei de um exemplo com o qual brinco em sala de aula, falando de diferenças culturais. E o exemplo é o seguinte:
Digo aos meus alunos que os seus equivalentes americanos dão muito pouca cola uns aos outros. Diante do olhar algo envergonhado de alguns, acrescento que não se trata de alunos mais éticos, e sim de gente que não está disposta a “dar munição ao inimigo”, isto é, numa sociedade altamente competitiva e individualista, dar cola poderia significar dar um tiro no próprio pé… Por outro lado, em uma sociedade como a brasileira, onde a tal da “rede de relações” — de que os administradores gostam tanto de falar — é incentivada desde a mais tenra infância, dar cola é um comportamento positivo, já que se trataria de um “investimento” na ampliação e consolidação de sua “rede de relações”… Claro que depois disso eu monto cinco provas diferentes, hehehe!
RE: Oi Ricardo!
Você tem razão, e é meio complicado fazer um post assim, pelo seguinte problema: é questão da academia, ou da mídia de ciência? Ainda, como a mídia de ciência divulga o que divulga, faz o que faz? A quem ela recorre, e a quem não recorre, para divulgar o que divulga?
Então, já que um post “acadêmico” não tem sentido nenhum (é um absurdo), a questão é chamar a atenção à mídia de ciência. Diante de uma revista que divulga pesquisas científicas para linguagem popular, talvez não seja inútil chamar a atenção a esses fatores dentro da própria esfera popular, o que você acha?
Quanto ao exemplo antropológico, é bem interessante, especialmente com as 5 provas diferentes, hehehe O mais legal é quando a faculdade permite que você faça tamanha “injustiça” para com os teus alunos, hehehhehe Pois sabe que, no Brasil…
abraços,
Made on June 9, 2008 @ 2:14 pm
Ricardo Cabral Says —
Elegante como sempre, diante das minhas piadinhas bestas. O teu post realmente põe em cheque essa freqüente tentativa de livrar-nos dos debates éticos jogando as respostas para partes da anatomia do cérebro…
Made on June 9, 2008 @ 7:07 pm
Ricardo Cabral Says —
E respondendo a sua pergunta, você tem toda a razão ao questionar a mídia de ciência, especialmente quando presta um desserviço à ciência, à mídia e ao público leitor, seja ele leigo ou não.
Made on June 9, 2008 @ 7:12 pm
Fred Says —
Excelente post, Catatau. O jornalismo de ciência realmente deixa a desejar mesmo nas revistas “especializadas” que se utilizam de linguagem popular - Scientific American, SuperInteressante (nem se fala) etc… Sugiro um post sobre as frequentes “barrigas” da imprensa na área. Aliás, é impressionante como não há o menor esforço em esclarecer os procedimentos básicos do método científico.
RE: Poisé, Fred, temos que separar o joio do trigo. É claro que deve haver mídia científica, e é claro que existem ótimos divulgadores de mídia científica, inclusive no Brasil. Apenas dois cuidados devem ser tomados: não a mera tradução e reprodução do que foi escrito nas fontes; e um certo senso crítico, de apresentar ao leitor os caminhos que o debate pode seguir.
Claro que existem profissionais com essas qualidades no Brasil, como existem também bons jornalistas políticos, por exemplo. O problema é o da visibilidade do dado problemático, que às vezes é maior do que a de uma boa discussão
abraços,
Made on June 9, 2008 @ 8:50 pm
Fred Says —
Por falar em fome, convido-os a tomar um café lá em casa para voltarmos ao tema. O link: http://asterion.rizosfera.net/?p=8
Cito-o aqui porque me refiro também a outro texto teu C.
abraço
RE: Opa, vamos lá então
abraço,
Made on June 11, 2008 @ 2:36 am
Diego Viana Says —
Para variar, o post é excelente e toca em um assunto fundamental em nossos tempos de determinismo neurológico.
A única coisa que eu acho que não encaixa muito é a menção a Platão e Kant. Ao contrário do que parece, ambos reservam um lugar importantíssimo pra emoção nas suas filosofias morais. Em Platão, por exemplo, o que conduz a alma na direção das famosas formas inteligíveis é uma emoção: o amor. Isso está no Banquete e no Fedro, se não me engano. Mas aí vemos, na República, que a recíproca é verdadeira. A alma, segundo Platão, é dividida em três: os desejos desordenados, a coragem e o intelecto. No homem sábio, no filósofo que contemplou as formas e voltou para o mundo (cf. a maldita alegoria da caverna), a função do intelecto, em termos de ação humana, é dirigir as ações corajosas e orientar a parte da alma que deseja. Em outras palavras, a ação é fundamentalmente emocional, toda ação, inclusive a moral. É claro que as diretrizes morais não são emocionais, como são pra Hume. Mas já não é pouca coisa.
Em Kant, evidentemente, a coisa é bem mais complicada. A moral kantiana é muito menos descritiva do que a de Hume, eis aí o exemplo de novo, e muito mais prescritiva. O imperativo categórico é um dever (é por isso que chamam a moral de Kant de deontológica) e um conceito fundacional do direito e da famosa “metafísica dos costumes”. Não é um fato inerente ao homem, de forma nenhuma. O homem não é um sujeito prático puro. O homem é um homem. E a emoção, onde entra nisso? Ora, é justamente a emoção que causa o encontro entre os dados sensíveis, escolhidos pela imaginação, e os conceitos do entendimento. Em resumo, o que acontece é uma espécie de encontro entre uma emoção (uma paixão, dirão os antigos) que quer uma ação, qualquer ação, e um conceito que quer enquadrar a situação e mandar na ação. Tudo isso é altamente emocional.
RE: Você se refere à questão da emoção nos informes, ou no texto catatauesco? Por aqui, o intuito foi mostrar precisamente que conforme autores como Kant e Platão não se trata de fundar a justiça ou os atos morais segundo aspirações que se remetam às paixões em sentido “biológico”. Em jogo estão análises como a de Damásio, que (1) fundam as faculdades no cérebro, (2) sobrepoem Conhecimento (em sentido epistemológico) e cognição (em sentido individual), (3) criticam a tradição filosófica pela emoção estar no fundamento da cognição, que é Conhecimento. Talvez estamos mais no plano da crítica de Kant a Soemmering (e outros autores como Platner) do que na questão de como a emoção opera, o que você acha? Daí caber a preponderância do mundo inteligível, em Platão, e em Kant as diversas críticas às psicologias e a tentativa de fundar a moralidade (prescritiva) em direções bem distantes da emoção (”descritiva”).
De todo modo, seria interessante articular a questão do Imperativo (enquanto princípio prescritivo da ação) com o papel da emoção no esquematismo, por onde percorreríamos?
Made on June 13, 2008 @ 12:00 pm
e.s. Says —
Pra complicar um pouco mais essa difícil “rotulação” utilitarista ou deontológica, segue atalho para um texto de Hare (orientador de mestrado de Peter Singer, se lembro bem) que vcs devem conhecer, mas não custa mencionar para os visitantes:
COULD KANT HAVE BEEN A UTILITARIAN?
RM Hare
[An extract from Sorting out ethics, ©1997 RM Hare, ISBN 0-19-823727-8 Published by Oxford University Press.]
http://deontology.com/
Noutro sentido, há uma crítica interessante de Lacan a respeito do imperativo categórico. No texto “Kant avec Sade” [LACAN, Jacques. Écrits], Lacan tenta demonstrar que a suposta racionalidade inquestionável do imperativo kantiano funciona melhor como máxima perversa que como princípio ético, justamente pela tentativa de anteceder a ação correta (por dever) à vontade (que seria a vontade de agir segundo o dever). Note que para a psicanálise, segundo Lacan, o que se busca é a autonomia do sujeito e não sua submissão a um princípio, ainda que universal. De todo modo, permanece a questão se a satisfação do bem agir vem do dever (imperativo) ou se produzimos o dever para justificar (e tornar satisfatória) nossa ação.
Finalmente, vale folhear o livro de Marc Hauser, “Moral Minds”, para ver uma abordagem que envolve etologia, neurociência, psicologia evolutiva, ética e filosofia na tentativa de fracionar a ação humana em elementos comportamentais anteriores aos princípios éticos. Tá, é do mesmo caldo da tentativa de fundar um sujeito a partir dos neurônios, mas o viés do etólogo é bem menos grosseiro do que se vê normalmente. Vale checar.
A propósito, e fazendo coro, o post foi mesmo excelente.
Made on July 5, 2008 @ 11:37 pm