Na linha dos últimos posts sobre determinismo biológico, o bafafá sobre a nova pesquisa do cérebro dos gays não poderia passar despercebido por aqui. Ainda não tivemos acesso à pesquisa, mas o
Ricardo começou já a discussão. Sem tempo (pelo menos por agora) para saber mais a respeito, algumas boas perguntas se colocam abaixo:
- Uma coisa é correlação estatística, e outra bem diferente a determinação biológica. Mas dado que existe correlação estatística entre os cérebros, qual é o fundo dessa correlação? Herança genética, ou formação ontogenética (adquirida, relativa à história individual)?
- Função sexual é algo bem diferente de erotismo. Um ser humano é capaz de ser atraído por uma árvore (pansexualismo), ou por imagens em uma revista, por exemplo; pode ter o desejo desperto por roupas, ou por traquejos. Enfim, sabe-se desde o século XIX que o erotismo não se reduz às funções biológicas. Um macaco não possui erotismo, e a dança dos pavões não são eróticas. Mas, também como se sabe, não existe função individual que não perpasse o organismo. Quais seriam as relações entre erotismo e função sexual, tanto em termos anatômicos como fisiológicos?
- A última questão acima coloca outra pergunta: as funções eróticas se reduziriam a circunvoluções neuroanatômicas? Se uma homossexual feminina tem um cérebro correlato ao de um heterossexual masculino, como seriam os cérebros daqueles que Freud chamava de "perversos"? Ora, muitos deles não reduzem a sexualidade à dualidade "homem" x "mulher", e torna-se cômoda a hipótese de que basta buscar a figura oposta do outro sexo para haver correlação.
- E a velha questão: dado que não existe função que não tenha substrato neuronal, seria esse fundo que explicaria a sexualidade, ou seriam as relações sociais? Mantendo-nos em um determinismo biológico, o "cérebro" é lugar para o desenvolvimento de todas as virtualidades. Mas seriam essas virtualidades humanas de espécie cerebral, ou fruto da relação do homem com os outros homens? Isso inverteria a questão, e a pergunta sobre a sexualidade passaria do cérebro (ora, se o cérebro é a sede de tudo, de que vale explicar coisas desse tipo por ele?) para as relações sociais. Sendo substrato para tudo, e oferecendo tendências, a realização das tendências cerebrais não seria propriamente "cerebral".
Mais pano para a manga enunciada pelo Ricardo
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Agora consegui ler o artigo, e parece que os resultados batem a todo momento nas perguntas. Os limites da pesquisa são precisamente o contorno das variáveis "ambientais" e "comportamentais" (que os pesquisadores, com mérito, não deixam de lado).
Mas não só isso: pelo que entendi, o mérito maior da pesquisa é demonstrar que HoM e HoW (Homossexual Masculino e Homossexual Feminino[W]) não empregam os mesmos mecanismos fisiológicos, mas sim mecanismos correlatos aos da mesma orientação do sexo oposto. Assim, a correlação entre HeW e HoM demonstraria direções que apontam a padrões análogos de "stress", "ansiedade" e "vulnerabilidade". Dado isso, os pesquisadores cruzam com esses dados outros índices de ocorrência de padrões análogos em mulheres, e HoM.
Do mesmo modo, a correlação entre HeM e HoW aponta para padrões de "luta" e de "fuga", mais comuns em homens.
A direção do estudo mostra, portanto, que a correlação obtida bate nas funções sociais precisamente por HeW/HoM, e HeM/HoW, terem padrões funcionais correlatos. Os substratos neurofisiológicos mostram que mulheres homo tenderiam a padrões funcionais próximos a homens hetero, enquanto homens homo padrões próximos às das mulheres hetero. O que ainda deixa as perguntas acima em pé (ou de todo modo, mais lenha na fogueira).
Mas outra questão bem diferente, como o Leandro apontou, é o barulho dessa pesquisa na mídia, não? A julgar sobre como se portaram os pesquisadores, o tom de "determinância" parece mais vindo da divulgação, do que do próprio artigo.
Fred Says —
Lembrei de uma aula de psicologia, em que o professor levantava questões contra a restrição que vários, incluindo seus alunos, faziam a essas pesquisas e afirmou: ninguém levanta essas questões quanto a síndrome de down… Então, eu objetara a posição dele, lembrando que ele estava comparando a homossexualidade a uma doença. Depois de algum tempo, ele se recompôs e disse: Síndrome de down não é uma doença. Obviamente, eu olhei pra ele e pensei: dã. Não é, mas será que homoerotismo é deficiência… Enfim… O raio com essas pesquisas, mas principalmente com a sua divulgação (e aqui de novo a questão da mídia de ciência) é que pensamos diretamente na utilidade delas (o que o Ricardo também levantou). Mesmo porque o cientista já começa se perguntando sobre o homoerotismo e não sobre o heteroerotismo. Aliás, como você aponto, como se a questão erótica se reduzisse a esses dois pólos.
Por sinal, vejam essa reportagem da CartaCapital: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=756 . Nela, se alude a uma teoria chamada de Darwinismo Neural. Não se trata de pura combinação genética para se explicar a consciência, mas sim da combinação entre diversos fatores, inclusive ambientais (também sociais).
Made on June 18, 2008 @ 2:19 pm
Fred Says —
Puxa… eu tinha escrito um grande comentário que foi pro espaço sei lá por que. por enquanto, deixo a vocês essa reportagem da CartaCapital, que tem um dos melhor jornalistas científicos do Brasil, sobre cérebro, genética e ambiente. Vale a pena ler. http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=756
Made on June 18, 2008 @ 2:24 pm
Ricardo Cabral Says —
O diálogo continua frutífero, Catatau, e cada uma dessas questões valeria uma discussão. Pena que tb tenho pouco tempo hoje… Mas adianto que provavelmente o nosso entendimento sobre esses pontos que você mencionou seja o mesmo!
Abs
Ricardo
Made on June 18, 2008 @ 2:49 pm
Edu Says —
Caraca… vcs atingiram um nível de discussão realmente alto! Enfim, li tudo, acho que não entendi metade. Acredito que não haja necessariamente uma regra para determinar a sexualidade de um indivíduo e uma série de circunstâncias psico-sociais envolvidas. Resumindo, a escolha da postura sexual talvez seja igual à escolha por uma postura política, cheia de nuances.
Made on June 18, 2008 @ 2:54 pm
Leandro K. Says —
Impressionante como está causando polêmica esta pesquisa! As questões aí levantadas na verdade passam ao largo do artigo científico publicado e a função dele não é discutir nada disso. É um estudo anatômico que encontrou diferenças anatômicas em dois grupos de pessoas.
Como você muito bem explicitou, correlação não é causação. Outros delineamentos de pesquisa se fazem necessário.
O interessante é que uma pesquisa biológica sobre o tema é vista como reducionista e determinante. Mas é apenas uma pesquisa biológica! Assim como uma pesquisa psicológica , atropológica ou sociológica não vai abordar aspectos biológicos e nem por isso são acusadas de psicologizantes, antrologizantes ou sociologizantes. Deixem os biólogos trabalharem em paz, estão fazendo parte deles.
Boa parte da polêmica em cima da questão são de pessoas se não quiseram ler o artigo e logo tiraram conclusões precipitadas. Principalmente as do tipo: “eu não acredito nesse estudo”. Como se fosse uma questão de crença.
É o que fez, por exemplo, o Arnaldo Jabor na coluna de hoje na CBN. Aqui está, pra quem quiser passar raiva:
http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/comentarios/arnaldojabor.asp
RE: Consegui ler agora o artigo, e tentei responder teu apontamento sobre as perguntas do post (ou colocar mais lenha na fogueira!)
abraços,
Made on June 18, 2008 @ 5:56 pm
Ricardo Cabral Says —
Leandro K., o Jabor não vale, ele nem sabe do que se trata. Mas a sua própria apreciação do tema me parece ingênua, no mínimo.
É importante pensar na agenda por trás da pesquisa, para começar. Ao mesmo tempo, as questões que o Catatau levanta são bastante relevantes. Enfim, no post que ele lincou falei das minhas próprias preocupações em relação aos possíveis desdobramentos das pesquisas — tal e qual o Marcelo Leite fez —, sem contudo ser contrário a elas. Ciência sim, obscurantismo não, é evidente. Mas obscurantismo com um uso torto da ciência, menos ainda!
Cordiais saudações
Made on June 18, 2008 @ 7:44 pm
Artur Says —
Grande Catatau,
a propósito dessa discussão, mas abordando de forma enviesada: é incrível a vontade de naturalização da “mentalidade” moderna. É inquietante o desprezo profundo pelas explicações sociológicas, antropológicas e da psicologia social. É impressionante a desvalorização da sociologia, da antropologia e da psicologia social no mundo contemporrâneo, principalmente no Brasil (vide a resistência contra a introdução da filosofia e da sociologia no ensino médio). Diante de um fenômeno social, a tendência é naturalizar a explicação, via biologia (muitas vezes, um darwinismo fubeca) ou via… economia. Sim, muitas correntes econômicas, com suas premissas monadológicas da individualidade, namoram com explicações naturalistas dos fenômenos sociais. No fundo, não existem relações sociais e sim epifenômenos de uma psicologia do indivíduo ou da biologia. Falta um novo Durkheim…
Por falar nisso, um cabra interessante, que vai de encontro à onda de naturalização das interações sociais, defendendo processos sociogenéticos como fonte de explicação, é Michael Tomasello (”Origens culturais da aquisição do conhecimento humano”), co-direitor do Max Plank Institute for Evolutionary Anthropology em Leipzig.
Made on June 18, 2008 @ 10:31 pm
Leandro K. Says —
Ricardo, ué, não entendi onde está minha “ingenuidade”. O autores suecos da pesquisa são anatomistas. Se eles querem contribuir com a discussão sobre o tema da homosexualidade, espera-se que pesquisem sobre anatomia, não é isso?
Não nego toda a complexidade multivariada de fatores que determinam um comportamento homoerótico (nem os autores da pesquisa assim o fazem). Ao contrário, penso que a realidade é mais complexa do que qualquer lâmina de Ockhan que queira fatiá-la.
Sobre a agenda, não é a revista científica que encomenda um estudo. Quem já tentou publicar (e, de repente, até conseguiu) em um periódico conceituado sabe o quanto é difícil fazê-lo. É um grande mérito e esforço dos pesquisadores e não uma encomenda dos editores.
Por isso bato na mesma tecla. O artigo não tem todo esse poder que estão atribuindo (aliás, ele não é nenhuma novidade, conforme a revisão de literatura do próprio artigo trás). A questão é, justamente, por que tanto barulho para um artigo biológico e não a uma pesquisa sociológica, conforme a idéia do Arthur?
Made on June 19, 2008 @ 12:19 am
Ricardo Cabral Says —
Leandro, só espero que a palavra “ingenuidade” não tenha soado agressiva, pois a intenção não foi essa.
Você bate na tecla do artigo não ter esse poder todo, de tratar-se de uma pesquisa biológica que deveria ser debatida nesses termos. Acontece que ao sabor das marés, a onda agora (e há algum tempo) é biologizante por excelência, como deu a entender o Artur no comentário 7. E tanto na visão do leigo quanto na de pesquisadores de exatas e biológicas, são estas últimas ciências as “que contam”, com as suas descobertas pautando tendências e mesmo políticas. Lembremos do caso que citei no meu próprio post, a tal pesquisa a ser feita com menores homicidas na busca de bases biológicas da violência. Pois a pergunta que você mesmo deixou ao final do seu comentário 8, sobre o porquê do barulho por um artigo biológico, no fundo já tem resposta, e me arrisco a dizer que vc a conhece.
Aqui nesta caixa de comentários parece que estamos todos de acordo com a legitimidade de se seguir pesquisando o tema. Mas insisto que tb seja importante questionar as suas bases nos termos que o Catatau sugere, assim como preocupar-nos com as suas conseqüências práticas a partir de futuros resultados que por ventura apontem para uma herança genética, um determinismo biológico. Isso porque 100 pesquisas psicológicas, sociológicas e/ou antropológicas juntas não têm o mesmo impacto do que essa única pesquisa. É uma lástima, mas são os nossos tempos, e não dá para fingir que não acontece.
Abraços
Made on June 19, 2008 @ 11:12 am
Leandro K. Says —
De acordo.
Made on June 19, 2008 @ 4:15 pm
Catatau Says —
Artur, ótimo comentário e referências, especialmente essa questão dos “epifenômenos”.
Tem um texto do Georges Canguilhem intitulado “O problema das regulações no organismo e na sociedade” (dos Escritos sobre a Medicina). Ele vai em uma direção que mostra precisamente como as noções contemporâneas de organismo nascem junto às noções de “organismo social”, em diversos “fisiologismos”, “organicismos” e afins.
Mas aí você abriu o leque, e chegamos na discussão que o Leandro e o Ricardo já colocaram: a do alarde sempre grande sobre esse tipo de pesquisa. Como o Leandro disse, são apenas biólogos, deixem que eles pesquisem. Por um lado, pesquisa em biologia, ou a própria pesquisa, não tem (ou não deveria ter) relação direta com o socius. Como o Leandro também disse, não há necessariamente uma “agenda” explícita para esse tipo de pesquisa.
Mas como colocou o Ricardo, basta ver a divulgação científica para notar que são as ciências exatas e biológicas as “que contam”, não necessariamente no debate científico, mas na “mídia”. Para isso, basta ver o jornal à noite, ou os informes por e-mail de alguns coordenadores toscos de curso, que apenas acolhem o Ensinamento como se fosse Verdade Absoluta, e regurgitam tudo sobre os alunos
.
O que talvez caiba assinalar é que o peso conferido passa ao largo de outro debate, que ainda permanece aberto, e que a pesquisa em questão esbarra: uma espécie de analfabetismo sociológico dos biólogos, e também (porque não dizê-lo?) um analfabetismo biológico de boa parte dos pesquisadores em “humanidades”. Na pesquisa em questão, é difícil não situar os “dois grupos de pessoas”, como diz o Leandro (ora, são apenas dois grupos de pessoas, que tem de mais?, dizia isso para afastar o bafafá, ligado aos preconceitos sociais) como categorias sociológicas. Ora, caso se queira um resultado de conceitos biológicos, que não se reduzem a meras convenções, e digam sim respeito às relações neurofisiológicas, deve-se definir bem os termos, e não cair no risco de hipostasiar os dados biológicos.
No fim das contas, se os “dois grupos de pessoas” são categorias sociais, como no fim são, temos um bom problema de função biológica x convenção social, e de sobreposição de dados de diversas ordens, como se dialogassem naturalmente. Ora, o biólogo apenas pode dizer da correlação funcional entre indivíduos que “operam” de modo semelhante; agora, dar um juízo sobre categorias sociais, é algo bem diferente. De todo modo, o artigo de 6 páginas nao parece fazê-lo, embora não reflita de modo rigoroso entre a passagem do papel social à função biológica (caso fizessem, não seria interessante notar que a correlação funcional neurofisiológica é também correlata aos papéis comportamentais dos indivíduos, apontando a correlação para fatores ontogenéticos?)
Made on June 19, 2008 @ 4:22 pm
Artur Says —
Concordo inteiramente contigo, Catatau: há “uma espécie de analfabetismo sociológico dos biólogos, e também (porque não dizê-lo?) um analfabetismo biológico de boa parte dos pesquisadores em humanidades” — isso, exatamente isso. Como médico, mas vivendo entre sociólogos, percebo o pavor dos meus colegas diante da biologia. Sussurre “Darwin”, num dos milhares de corredores da UFPB, e será incinerado pela Sociologia e estigmatizado como adepto da sociobiologia. Caso tenha curiosidade, abordei essa questão num artigo da nossa revista “Política & Trabalho”, quando analisei o papel da técnica em Leroi-Gourhan, “etnólogo” da pré-história. (http://www.cchla.ufpb.br/ politicaetrabalho/ arquivos/ artigos_edicao_21.htm)
Made on June 20, 2008 @ 12:04 pm
doni Says —
Muitas questões mesmo levantadas nesta caixa de comentários. Excelente.
Made on June 21, 2008 @ 9:42 pm
Diego Says —
Creio que nunca chegaremos a respostas ditas científicas para questões tão humanas. Seria preciso isolar o homem de toda e qualquer influência social para ver o que brota dele, naturalmente. No entanto, se realmente isolado desde o nascimento, o homem não sobrevive. E ainda que fosse possível a sobrevivência - e não é -poderiam falar sobre a influência do período de gravidez sobre a criança, sua herança genética e uma infinidade de outras coisas.
Acho que cada vez mais percebemos que não existe uma homossexualidade, mas tantas sexualidades quanto existem pessoas. Que elas se assemelhem entre si, por um ou outro aspecto, é algo que vai acontecer invariavelmente.
Enfim… a questão é tão complexa que me sinto um tanto bocó de ficar falando e dando minha opinião. Mas ainda acho importante falar sobre isso, porque ainda vivemos numa sociedade tão díspare, e as pessoas que se interessam por estar no poder são todas tão incapazes, e os governados, mais ainda. Aqueles que pensam e vivem e questionam são como salmões que nadam no sentido do fluxo do rio. São os párias. Porque normal mesmo, é subir rio acima. Não é mesmo? Hahahaha
Made on June 24, 2008 @ 5:43 pm