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August 3, 2008

Maurizio Lazzarato, para socorrer trabalhadores temporários


Recebi do Desobediente a resenha abaixo, de um novo livro de Maurizio Lazzarato intitulado Intermittents et precaires (sedutora a tradução Intermitentes e Precários).
 
Pelo que parece, o mote do Lazzarato [livrarias] é semelhante ao de Castells [livrarias], quando este mostra que o tipo de acessibilidade do grande contingente populacional ao trabalho e consumo é sempre sazonal: diante de um número mínimo de consumidores (e trabalhadores) permanentes, haveria uma massa de consumidores (e trabalhadores) sazonais. E esse caráter "sazonal" serviria para reforçar a mesma dinâmica de trabalho e consumo: quem está fora quer entrar, e quem está dentro não quer sair. Porém, com o pequeno detalhe: não há lugar para todos.
 
O livro aborda trabalhadores temporários de "arte" e afins. Com base na resenha, à primeira vista esse tipo de dinâmica não se restringe apenas aos "artistas". Um grande número de projetos chamados "sociais" poderiam se enquadrar no mesmo contexto, em um discurso e ato criativo que não são mais discurso por excelência, nem ato criativo por excelência. Apenas afloram enquanto tais por certos jogos de conveniências, exteriores à criação e ao discurso.
 

[fonte] Acaba de ser publicado na França, o livro Intermittents et precaires (temporários e precários), de Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato. Ed. Amsterdam, 232 páginas. Segue uma resenha de Clarisse Fabre publicada no jornal francês Le Monde, 11-07-2008. A tradução é do Cepat.

Não se lerá neste livro nem chavões, nem fórmulas para calcular o seguro-desemprego dos artistas e dos técnicos do espetáculo. Também não se trata de uma "retomada" da luta empreendida depois da reforma de junho de 2003, entre manifestações e cancelamento de festivais. Intermittents et precaires (Temporários e precários) apresenta os resultados de uma pesquisa realizada sobre as condições de trabalho de todos esses profissionais do espetáculo que alternam períodos de emprego e de desemprego, ao longo dos projetos de que participam por conta de seus (múltiplos) empregadores.

Os autores fazem uma reflexão prospectiva sobre a noção de trabalho: como vanguarda, o movimento dos intermitentes põe em questão o binário emprego-desemprego e nos convida a reconstruir as bases da proteção social, nos dizem Antonella Corsani, pesquisadora da equipe Matisse do Centro de Economia da Sorbonne e co-fundadora da revista Multitudes, et Maurizio Lazzarato, filósofo.

Do outono de 2004 à primavera de 2005, foi realizada uma pesquisa pela equipe de pesquisadores Isys (integrante do Matisse de Paris-I e do CNRS) a pedido da Coordenação dos temporários e precários e com o apoio da Prefeitura de Île-de-France. À época, a imprensa criticou o método em razão de que os próprios temporários participavam deste estudo ao lado de economistas, sociólogos, estatísticos. Os autores defendem sua "expertise cidadã" que faz cooperar especialistas e outros. Uma metodologia que interroga as relações entre "saber, poder e ação", explicam, como o fizeram Michel Foucault ou ainda Pierre Bourdieu em sua pesquisa sobre A Miséria do Mundo [Vozes, 1997].

Feitas essas precisões, os autores traçam um quadro inquietante da intermitência. Mostram como a produção dos espetáculos, de documentários, etc., obedece cada vez mais a uma lógica de rentabilidade, num universo em que só há "casos particulares": assim, o tempo de trabalho ou é escrupulosamente contabilizado nos setores fortemente sindicalizados ou, ao contrário, é declarado ‘liberado’, deixado a cargo do "autor do projeto" de negociar o melhor cachê. Sem falar da variabilidade dos salários diários nem da estagnação das rendas, e até mesmo de sua diminuição nos últimos dez anos.

Alguns – diretores, mas também companhias de teatro que trabalham em coletividades locais – reconhecem trabalhar "sob encomenda". Como se eles respondessem à demanda de um cliente, o que obriga a revisar a noção de criação. A redução dos orçamentos e dos tempos de produção impõe às companhias a reorganização do trabalho em torno dos postos julgados indispensáveis. O artístico perde terreno diante da comunicação, em que a difusão dos espetáculos se torna crucial, num contexto muito competitivo…

Longe dos autores a idéia de que a intermitência seja coisa que se deva que combater. Pelo contrário. Digam o que disserem os sindicatos, dizem eles, o emprego estável para toda a vida não é "desejado e desejável para todos". "A intermitência, sob certas condições, é esta possibilidade para todos e cada um de preservar o domínio sobre o tempo, sobre suas intensidades (…). Uma liberdade para desenvolver projetos fora das normas da indústria cultural e do espetáculo e, enfim, last but not least, uma arma fundamental para a negociação dos salários e das condições de trabalho", destacam Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato no último capítulo. Observando que outros profissionais intelectuais compartilham com os intermitentes práticas comuns, eles convidam a refletir sobre "um novo estatuto do trabalho e sobre novos direitos sociais". Estimulante e revigorante.

August 1, 2008

Primeiro debate com os candidatos à prefeitura de Curitiba



Atualização: Vídeo do youtube com as falas do candidato Lauro Rodrigues
Terminou há pouco o primeiro debate televisivo dos candidatos à prefeitura de Curitiba, pela Bandeirantes. Como mostrou o blogue associado à produção, o grande nome da noite foi o candidato Lauro Rodrigues, do PT do B:

Vendo uma ambulância chegar na Band, vários comentários começaram a pipocar entre os presentes. Deve ser pro Lauro Rodrigues, falaram alguns. “Daqui a pouco ele tem um infarto”, comentou um assessor. “Não adiantou nem tirar a gravata”.

Pouco antes, na sala ao lado, Ratinho Jr. quase se afogou assistindo ao desempenho do candidato. Mastigando, o deputado riu tanto que quase engasgou com a comida.

Com a cena, resolveram chamar uma ambulância. “Por precaução”, falou o socorrista. Não se sabe se ele se referia ao candidato do PT do B ou ao deputado… [post 2080]
Das propostas mais realistas às mais fantasiosas, duas questões se realçaram (com um grau de objetividade relativamente maior do que as outras): a do transporte público perder seu caráter "inovador"; e a discussão sobre a "linha verde", seu custo e viabilidade efetiva.
 
Outras ofereceram aos candidatos maior grau de imaginação: creches noturnas, a diferença inexistente entre ciclovias e ciclofaixas,  garantia de atendimento gratuito em hospital particular, um parque contínuo beirando o rio Belem (e atingindo portanto toda a extensão central da cidade), e outras que favoreceriam mais o "debate".
 
Voltando a Lauro Rodrigues: ele foi o grande nome. Dirão alguns que foi o grande nome por não conseguir articular as palavras, quase engasgando a saliva pelo nervosismo. "Respira!", foi o pensamento predominante aqui em casa. O outro pensamento se manifestou nos links acima.
 
Mas outra contribuição nos apresentou o candidato Lauro. No formato do debate da Band, cada pergunta tem resposta, réplica e tréplica. Todos os candidatos aproveitaram as réplicas e tréplicas (quando não as respostas) para fugir do debate e tagarelar as próprias propostas.
 
Só não fez isso o Lauro Rodrigues. Pela ingenuidade ou pelo nervosismo, quando não tentou seguir o padrão dos outros candidatos, não esqueceu de discordar, ou mesmo concordar com seu interlocutor. Não esqueceu que estava em um debate, mesmo sem falar quase nada.
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