September 17, 2008

Isso Fed!

Comunicado do Federal Reserve, sobre os 85 bi que estatizaram hoje o American International Group:

o empréstimo tem respaldo do Tesouro "com termos e condições desenhadas para proteger o governo dos Estados Unidos e os contribuintes". "O propósito dessa linha de liquidez é ajudar a AIG a cumprir as obrigações à medida que vençam."

A crise - diz-se - não afetaria apenas o governo e empresas dos EUA, mas geraria uma reação em cadeia afetando diversos outros mercados.


Sobre isso, o Ryff enunciou uma passagem lapidar, sobre a estranheza de nosso novo mundo:

Este mundo está mesmo de cabeça para baixo, como já percebeu o Quiroga…  o grande defensor do livre-mercado, o governo dos EUA, resolveu apelar para a estatização para salvar a seguradora AIG; e Cuba pediu que o embargo norte-americano, que dura 40 anos, seja suspenso.

Acompanhando a observação dele, basta ver o tom de diversos dos principais jornais do mundo:

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Ou ler também o que se multiplica por aí, na linha do Josias de Souza:

São providências que, até bem pouco, pareciam impensáveis no templo do liberalismo, na meca da livre iniciativa, no Éden do mercado auto-regulado.

Recorre-se lá a uma justificativa muito encontradiça aqui, no Brasil da era FHC: o governo precisa evitar o “risco sistêmico.” O Estado encampa a encrenca, saneia o rombo, engole o prejuízo e devolve empresas financeiras saudáveis ao mercado. 

Desconheço o suficiente de economia, para não duvidar das consequências catastróficas no mercado mundial, caso não se injetasse tanto dinheiro em empresas privadas. Mas dada a medida, pareceria interessante revisitarmos o que se disse sobre a mesma economia nos últimos 30 anos, especialmente na discussão entre as noções de Welfare State e Neoliberalismo.

Desde então, proclamou-se muito o fato de que o Mercado - como em antigas doutrinas liberais - deveria ser um fim em si mesmo, sem a intervenção de algo semelhante a uma Vontade estatal. Como se aquele velho preceito de Adam Smith, sobre a iniciativa individual relacionada à "mão invisível" regedora das liberdades, reaparecesse, reeditado.
 
De todo modo, o Mercado foi desde então um fim em si mesmo, com críticas a intervenções estatais… até agora. Como se o princípio liberal se reeditasse em apenas alguns de seus caracteres exteriores e, no fim das contas, valesse apenas por certas conveniências.
 
Como se o jogo, acordado por todos, tivesse secretamente um dono, e esse dono devesse ser sempre o vencedor, mantida a regra de que é café com leite, e se não for assim todo o jogo cai por terra.


3 Comments »

  1. Cássio Augusto Says

    Esse povo é uma comédia. Pregam a não intervenção do Estado na economia… mas sempre que as coisas ñ vão bem quem eles chamam para salvar seus investimentos? Bingo! O Estado. Mas só qdo é pra dividir o prejuízo, pq qdo for pra dividir o lucro…

    Made on September 17, 2008 @ 11:35 pm

  2. Adriano (ex-Palatando, etc.) Says

    Catatau,

    escrevi, se me permite dizer, um certo texto antes de ler o que você escreveu acima. Mas considere-se criticado!

    É preciso ir além do partisanship para realmente entender o que se passa.

    Made on September 18, 2008 @ 8:32 am

  3. Catatau Says

    Oi Adriano!

    Entendi tua análise, mas a questão clara é - como vc tb mencionou - a das relações entre discurso e ação.

    Você está certo no que diz, sobre práticas misturadas esquerdistas e direitistas. De todo modo, é muito interessante sermos catequizados por discursos cuja validade é sempre relativa, e foi mais ou menos por aí que tentei puxar a sardinha…

    Made on September 18, 2008 @ 1:30 pm

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