September 22, 2008

Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/ensaiosobrecegueira_5.jpg
 
Imaginemos uma Cegueira tão clara (o paradoxo salta aos olhos), tão evidente, que aparelho nenhum consegue detectá-la. Imaginemos um Segredo tão oculto, que seu segredo maior é o fato de ser absolutamente manifesto. Tão manifesto, que é mais secreto quanto mais se enuncia.
 
Ou ainda, poderíamos imaginar - na linha da neuropsicologia - algo semelhante à agnosia visual:

As agnosias visuais podem ser de objetos, de formas, de cor e de espaço. Nos dois primeiros casos, o paciente se mostra incapacitado para identificar o objeto ou a forma deste, em virtude de se encontrar alterada a integração das sensações elementares. A sensação óptica nesses casos se constitui muito mais em contornos, superfícies e cores, luzes e sombras, do que na individualização do objeto em si. Com freqüência não se destacam bem entre si, carecem de definição clara e patente e de relação nítida com o que se acha próximo a eles no espaço óptico.
ou
 Compreende a incapacidade de reconhecimento visual de objetos na ausência de disfunções ópticas.
ou
a pessoa vê, enxerga mas não sabe o que está vendo
Semelhante às diversas agnosias, não poderíamos pensar em uma agnosia "ética"? Seria uma agnosia não da noção ingênua de ética (o que é mais ou menos certo ou errado, "ético" ou "não ético"), mas dos modos de viver e se relacionar com o mundo. Ela carregaria os mesmos mecanismos daquelas desordens "cognitivas", sem recair em uma espécie de sociopatia.
 
O sociopata conhece as regras sociais, e as utiliza como meio patológico para a manutenção de suas condutas. Mas, quando se tenta problematizar uma "agnosia" dos modos de se conduzir no mundo, talvez se queira mostrar algo mais, que ainda se veja, mas não se conheça. Assim Saramago começa a problematizar a "Cegueira Branca", em seu romance:
Se o caso fosse de agnosia, o paciente estaria vendo agora o que sempre tinha visto, isto é, não teria ocorrido nele qualquer diminuição da acuidade visual, simplesmente o cérebro ter-se-ia tornado incapaz de reconhecer uma cadeira onde estivesse uma cadeira, quer dizer, continuaria a reagir correctamente aos estímulos luminosos encaminhados pelo nervo óptico, mas, para usar uns termos comuns, ao alcance de gente pouco informada, teria perdido a capacidade de saber que sabia e, mais ainda, de dizê-lo.
Diz-se por aí que o Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, divide as avaliações. Para alguns, Saramago relutaria em autorizar uma filmagem do livro, pois "o cinema destrói a imaginação". Para outros, as reações não deixariam nada a desejar. Saindo desse "debate", vale a referência do livro (se não for redundate repetir) e do filme. Eles lidam com questões bem maiores - e o filme consegue evocá-las - do que o mero "gosto" do leitor.
 
Pesquisa de preços do livro, e link para download em pdf.


3 Comments »

  1. Fred Matos Says

    Fez-me lembrar a música “Um Índio” de Caetano Veloso:

    “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
    Surpreenderá a todos, não por ser exótico
    Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
    Quando terá sido o óbvio”

    Grande abraço.

    Made on September 23, 2008 @ 7:14 pm

  2. joêzer Says

    alguns dos críticos e intelectuais já viram tanto e de tudo, organizam suas listas do que merece ou não virar antologia, escolhem que enquadramento funcionaria melhor, que às vezes esquecem que eles não são o alvo da produção do filme.

    daí, quantos de nós não chamamos, sem o mencionar, de gosto ‘middle-brow’ a história elementar, de redundante a metáfora óbvia e de cansativa e publicitária o estilo da fotografia.
    há falhas em ensaio…? sim, as que importam para nós e não para uma boa parte do público tachado de inculto.
    mas esse tal público vai gostar/não gostar do filme sem precisar da referência dos arquivos do saramago, sem relacionar cidade de deus com este. se meirelles tem uma visão simples do mundo e procura equilibrar criação com comunicação para um público mais amplo, os críticos o chamamos de calculista.
    eles/nós viram/vimos demais e precisamos enxergar algo além do que chamamos de obviedades? talvez sim.

    Made on September 26, 2008 @ 1:49 am

  3. Thomás Says

    O livro é ótimo, o primeiro q li, anos atrás, do Saramago. Assisti ao filme semana passada e acho q é uma obra a parte, bom tbm, arte tbm, e traz reflexões tbm. O Saramago assistiu e ao final, emocionado, agradeceu ao diretor… tem o vídeo disso no youtube.

    Made on September 26, 2008 @ 4:21 pm

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