September 29, 2008
O demótico e o democrático no horário eleitoral
"Pelo não pelo sim, vote ni mim!"
Frases como a acima são corriqueiras nas propagandas eleitorais gratuitas. No fundo, elas não tem nada de gratuitas, mas é chover no molhado afirmar que servem para pouca coisa, ou que pelo menos são engraçadas. Não é raro encontrar nas residências a brincadeira: a cada candidato novo, alguém tenta uma rima; ganha quem acertar qual a rima utilizada pelo próximo, ou a mais esdrúxula ("quer fazer certo, vote no Felisberto").
Alguns candidatos dizem, em tom pomposo, que se trata da "grande festa da democracia". De fato, as propagandas políticas são uma festa, para não dizer também que alguns debates também são (vide nas entrelinhas certos conchavos não declarados, e compromissos sem fôlego…).
Um conhecido meu há muito tempo enunciou uma hipótese: se a propaganda eleitoral é uma festa, devemos sempre olhar para as crianças. Em muito - dizia ele -, podemos detectar o provável candidato vencedor olhando para a preferência delas. A musiquinha mais conhecida, o candidato mais simpático, o chavão mais repetido pelas crianças tem enorme probabilidade de antecipar o nome do próximo governante.
Se a hipótese do meu amigo é correta ou não, se a preferência das crianças antecipa os futuros vencedores, isso não vem ao caso. Não obstante, a observação oferece boa ocasião para pensar em campanha eleitoral, e no próprio tom da "grande festa". Com ou sem publicitários por trás de uma campanha, tem-se sempre duas premissas: a primeira (mais "séria"), que o horário eleitoral serve para discussão democrática, apresentação dos candidatos, e confronto das propostas. A segunda premissa, entretanto, mostra o que realmente se faz: deve-se chegar ao povo com uma linguagem simples, agradável, promissora, repleta de promessas; atingir a alma do eleitor de forma leve, sem complicações.
Não é difícil ver como as duas hipóteses são diametralmente opostas. Talvez isso se deva a uma pequena confusão - de enormes consequências - do uso da palavra "democracia", ou dos governos representativos atuais. A primeira premissa diz que o horário eleitoral consiste em um espaço "democrático": discussão de idéias, apresentação de "representantes" (essa é a tese), debate em espaço público. A segunda premissa, em contrapartida, mostra um espaço "demótico" (ou etimologicamente, "do povo"): Renato Janine Ribeiro, em uma boa contraposição entre esses termos (em O Afeto Autoritário), situa o "demótico" na televisão brasileira:
Assim, o que entendemos com o conceito de demotização é uma popularização da cultura que não se reveste de projetos emancipatórios, nem tem por meta a mudança social, mas ao mesmo tempo reconhece procedimentos e valores realmente existentes como merecedores de alguma cidadania televisiva.
Em outras palavras, "demótico" e "democrático" se confundem quando se trata do demos, do "povo". Em contrapartida, se a democracia visa o "poder do povo", evocando a primeira premissa acima, do povo enquanto cidadão e deliberante de seu futuro, a demotização da propaganda utiliza o "povo" em sentido negativo, de populaça: deve-se empregar uma linguagem "popular", que vise o povo - não enquanto ator de seu destino, mas mero receptor. Nas palavras de Ribeiro, "o papel do demos, do povo, na televisão e talvez na sociedade brasileira não é o de quem tenha ou possa ter poder, mas o de quem é objeto e alvo do poder".
Na propaganda eleitoral o demótico e o democrático se sobrepõem, em um jogo entre o que se prescreve segundo o direito, e o que ocorre de fato. Se a idéia é o debate público, a prática mostra os diversos atalhos e abreviações para que o debate público se contorne, ou até mesmo, se ignore. Em campanha política, em tese seriam essenciais as demonstrações de coerência partidária, projeto de governo, "ideologias" e afins.
Entretanto, mais do que a imagem do cidadão na tribuna, vende-se uma mais próxima do "demótico": a do homem de bem, pai (ou mãe) de família, compromissado com os problemas concretos da cidade, mesmo que tais problemas sejam apresentados apenas em facetas grosseiras. O resultado salta aos olhos: todos os candidatos "melhorarão a educação" e a "saúde" (sem entrar em debate orçamentário); acabarão com o "desemprego" (sem discutir caracteres político-econômicos); e enfim, farão grandes "parcerias" com o povo e outras organizações, para algo semelhante ao "bem comum" (sem discussão de detalhes mais objetivos). Olhando dessa forma ampla, não é rara no eleitor a impressão de que uma campanha não difere substancialmente de um candidato a outro, e aí novamente se reforçaria o caráter "demótico". Em campanhas tão semelhantes (salvo extravagâncias sempre presentes), só resta escolher o candidato que melhor se oferece ao "gosto".
Entra-se aqui em um debate complicado: como discutir tudo, com tão pouco tempo? Como acessar as parcelas menos desprivilegiadas da população, com esse tempo reduzido, e com uma linguagem mais "complexa"? É claro que o tempo é curto, e talvez não se tenha atingido ainda a melhor maneira de oferecer um debate político. Mas o modelo, desta forma, é falho?
Um bom exemplo, ainda fresco na memória dos brasileiros, talvez ajude a mostrar como os caracteres "democráticos" se subvertem, em um debate eleitoral. Trata-se do problema dos candidatos com "ficha suja". Se um brasileiro com antecedentes criminais não passa em concurso público, nunca se impediu um político criminoso de governar. Nas eleições atuais, candidatos "sujos" poderiam ser denunciados ao TRE (e, consoante à opinião pública, os TRE´s se mobilizam para que se crie uma lei impeditiva de candidaturas). Igualmente, diversas organizações publicaram listas na grande imprensa.
Mas sobre esses candidatos, deve-se observar que, se eram "sujos", já eram candidatos (ou pré-candidatos). Os partidos mesmos não se ocuparam previamente com a "índole" de suas próprias vitrines, daquilo que oferecem para o povo. E se procederam dessa forma, é porque outros objetivos se colocam em uma campanha eleitoral, alheios à idoneidade do possível governante, e aos objetivos efetivos de um governo.
Quaisquer que sejam esses outros objetivos, uma coisa, em todo caso, é certa: excluídos certos pontos fundamentais para um debate democrático, resta o que se vê por aí. Abre-se todo o espaço das rimas ingênuas, das piadas sobre a propaganda eleitoral, e da hipótese de meu amigo (propaganda eleitoral assim só pode ser coisa para criança). Se tanto é tão caricato dessa maneira, talvez tanta graça se refira às campanhas de cada partido não se adequarem ao que deveria ser, de fato, uma campanha. Se os partidos não se preocupam de saída com esses assuntos, vai ver é porque, para eles, nunca foram os assuntos principais. Não se engane, vote Ernani-Giovani-Gislaini! E pelo sim pelo não, vote no Carlão.
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- Pesquisa de livros de Renato Janine Ribeiro, e de O Afeto Autoritário.
- O blog Meandros selecionou diversas rimas do horário eleitoral curitibano.





2 Comments »
Major Tom Says —
Buenas Dias. This is Major Tom. I have already created this modified theme. But it is not yer perfect. Could you send me the POST and COMMENTS codes please.
Made on September 30, 2008 @ 3:37 pm
Thomás Says —
Espetacularização da política. Essa nossa “democracia” representativa mostra sua verdadeira face nas campanhas. É uma vergonha. Nessas horas é possível ver como sem uma mudança estrutural não é possível mudar as coisas…
abraço
Made on October 1, 2008 @ 2:12 pm
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