October 21, 2008
Brasil, Eloá, ônibus 174
"Se Cidade de Deus é um soco no estômago, Ônibus 174 é um sacolejo na nossa alma." (um leitor qualquer, em um site qualquer)
Casos como o da menina Eloá são sempre importantes para compreendermos nosso mundo. De quando em quando, no Brasil, estoura algum escândalo de motes passionais, seja no próprio crime, ou na reação do povo.
O último caso foi da menina Isabella Nardoni. Comoção popular, confusão na investigação policial (lembremos das interferências sucessivas no apartamento, antes da peritagem chegar), conjecturas para todo lado, ódio coletivo e profissionais psi traçando o "perfil do criminoso". Como alguém é capaz de um crime desses? O que se passou na cabeça? Foi loucura momentânea, ou puro mal?
Antes do caso Nardoni, o menino João Helio, e vários outros. Alguém lembra do ônibus 174? Sandro Barbosa do Nascimento, vítima da chacina da candelária, menino de rua, tornado carrasco. Erros sucessivos da polícia, policial matando refém, lambança geral, e Nascimento morto por agressão dos policiais.
No caso Eloá, proliferam agora pareceres "psicológicos" do perfil do criminoso. E também a pergunta: "O que você faria com o sequestrador de Eloá?". Crimes como esse acontecem todos os dias, Brasil afora. Qual é a diferença? Como nos casos anteriores, formou-se em tempo uma cobertura televisiva, para esmiuçar todos os traços do acontecimento. Quem são as vítimas, e o carrasco? Que tipo de história está por trás?
Independente desse tipo de resposta, é interessante ver como essas perguntas sempre se repetem. De vez em quando estoura um escândalo desses. De vez em quando, as mesmas reações extremadas, a má condução policial, e toda a cadeia de atenção e afeto do povo, dirigidos ao caso.
Ontem um profissional psi, chamado para esclarecer o perfil do assassino, apareceu em um grande jornal. Para surpresa de todos, começou a dizer algo diferente do discurso corrente: casos como o de Lindenberg dizem respeito aos valores que damos aos jovens, do sucesso a todo custo, sem escrúpulos, e sem consequências. Difundimos em todo lugar práticas e discursos, relativos aos outros serem apenas instrumentos para nossos desejos.
Tão interessante quanto essa fala (não na profundidade, mas na direção), foi a reação dos jornalistas. Imediatamente se reviraram nas cadeiras, perguntando: "então o senhor acha que Lindenberg é vítima?". Não compreenderam que não se trata de desresponsabilizar o agressor, mas que o crime não se esgota nele. O profissional psi, diferente de todo o discurso corrente, queria mostrar que existem diversos Lindenbergs por aí, prontos para explodir, ou já explosivos em menor intensidade. Todo dia aparece um Lindenberg, a única diferença é a intensidade, e a visibilidade. Mas o princípio gerador dessas figuras, e desses casos de comoção geral, continua sempre em pé. Não basta reduzir tudo à figura do agressor, pois no fundo sabemos que, sob circunstâncias semelhantes, logo virá outro.
Mas, e o que faremos com o sequestrador de Eloá? Esse é um dos poucos momentos nos quais toda a opinião popular se une com a dos detentos. Lugar de bandido é na cadeia, um esboço de inferno na Terra. Mas bandido desses merece punição suplementar, dizem todos.
E esse tipo de pergunta ("o que faremos com ele?") junta-se a outro, sobre o próprio sequestro. Precisaria ser assim? Esse é o ponto no qual o caso de Eloá se aproxima mais de todos os outros. No ônibus 174, houve um episódio muito semelhante: em determinado momento, Nascimento poderia ser alvejado por um atirador de elite. O mesmo ocorreu com Lindenberg. "Tecnicamente", dizia um dos policiais do 174, tratava-se de uma decisão crua: mata-se um, para não colocar outros em risco.
Os policiais adotam (ou deveriam adotar, segundo eles mesmos) a prática do menor risco. E vemos, na prática policial, um microcosmo do Brasil:
- Recomenda-se o número mínimo de horas para negociação, antes da invasão. Se uma pessoa desajustada permanece em situação estressante por muito tempo, torna-se mais desajustada, imprevisível.
- Recomenda-se negociação rigorosa com os policiais, tudo deve resolver a tensão existente entre a invasão do cativeiro pelos policiais, e o risco dos reféns. No caso Eloá, os policiais abrandaram as negociações, cederam onde não poderiam ceder, e o longo tempo facilitou o desajuste do agressor.
- O episódio do retorno de Nayara ao cativeiro é um caso à parte. A negociação perpassou todo um jogo de confiança, atestado pela quebra de trato dela (que surpreendeu a todos, entrando novamente no apartamento), mas também pela ausência de uma posição firme dos policiais. A negociação envolveu tanto a menina, quanto a mãe dela, e ainda sem a intermediação da figura policial, até mesmo para fazer valer o trato e impedir (segundo circunstâncias controladas) a ocasião da reentrada.
Veja-se o que está em questão: a atuação dos policiais não é impessoal, existe um jogo de negociações que não deixou as posições claras. A tensão entre policiais e criminoso recebeu um elemento suplementar, de circunstâncias nas quais o sequestrador se viu em situação relativamente independente, ou até (de certo modo) privilegiada.
Foi quando ocorreu a invasão. Tudo diz muita coisa: ela foi descoordenada. Não envolveu sincronia dos policiais, nem a previsão de que a porta poderia estar reforçada com móveis. O esboço de impessoalidade, representado pela fila de policiais de elite com suas armas de mão, se misturou com os obstáculos imprevistos: todos se expondo, na medida em que precisavam empurrar a porta e entrar rápido no apartamento ("se não se dispusesem móveis diante da porta, o resultado seria outro", disse um dos policiais responsáveis); a ausência de coordenação e de outros efeitos (bombas de efeito moral) que confundissem o sequestrador, etc..
E finalmente, o que fecha o círculo: as reféns são alvejadas, e o sequestrador inabilmente imobilizado, agredido. Numa das últimas imagens, a expressão de um dos policiais profere o gesto final: nitidamente alterado, como que encarnando todo o ódio popular, arremessa Lindenberg no carro.
Não se trata de dizer que as práticas de outros países são mais assépticas do que as brasileiras, o quanto a polícia errou ou não, o quanto tais "técnicas" de abordagem são corretas ou não, ou algo que o valha. Mas não se pode deixar de considerar as consequências. Não é a primeira vez que isso acontece, não é a primeira lambança que ocorre no Brasil, unindo sempre diversos elementos controversos em um mesmo saco. Usualmente, a polícia não é tão requerida, o bandido não está lá em um tudo ou nada desequilibrado e imprevisível, o país inteiro não assiste tudo pela TV. O problema é quando esses elementos se encontram. Nessas situações que se repetem, vê-se uma confusão geral que também se repete.
Nos EUA, alguma coisa faz repetir, reeditar, reaparecer sempre, novos massacres de estudantes por estudantes, nos moldes de Columbine. Estudos traçam as circunstâncias dos ataques. No Brasil, alguma coisa de repente faz emergir esses grandes registros passionais, repletos de elementos confusos e desencontrados. De quando em quando, um novo criminoso não usual, atuações policiais controversas, cobertura midiática obsessiva, e comoção social exacerbada. O Brasil se comove, e depois silencia, até aparecer um novo caso.








Leandro K. Says —
Ótimo post!
Muitas questões e desdobramentos.
Vou salientar apenas um: o efeito, melhor dizendo, a intervenção da mídia (voluntária ou não) no desenrolar e desdobramento do caso. O acesso que alguns jornalistas tinham ao seqüestrador e o uso que fizeram desse acesso é de se ficar perplexo! O espetáculo do terror em formato de reality show…
E, lembrando o número de mães que começaram a jogar seus filhos pela janela depois dos Nardony, é de se esperar mais alguns seqüestros de jovens apaixonados por aí.
Made on October 22, 2008 @ 1:11 am
Cássio Augusto Says —
Preferi não fazer um post sobre o caso Eloá, até pq, “não existe caso Eloá”!!! O que existe sim é uma flagrante busca por audiência… a TV torcendo pela tragédia… torcendo para mostrar em cadeia nacional o sangue, a morte!!!
Made on October 24, 2008 @ 11:42 am
Arnoud Says —
MUito bom o seu post!
Sem apontar nenhuma solução facil, analisa de forma lúcida todo o caso.
No fundo só retrata nossa sociedade. Nada de estudo, nada de planejamento, treino, etc. É tudo na emoção de parte a parte.
O Padre Voador é o simbolo máximo do Brasil.
Made on October 25, 2008 @ 7:10 pm
Alba Says —
Catatau,
De fato, um excelente post! E que abre várias possibilidades de discussão, como observou o Leandro. Nos últimos tempos, não tenho tido tanto tempo para ler, quanto mais para produzir um comentário mais ou menos consistente.
Mas, de toda forma, esses casos que causam comoção nacional, além de serem explorados obsessiva e indecentemente pela mídia em busca de audiência, tocam, me parece, em cordas sensíveis aos brasileiros em geral. Recentemente, e perdindo perdão pela comparação talvez um tanto esdrúxula, estive falando em aula, da reação popular ao suicídio de Vargas, quando multidões saíram às ruas para demonstrar seu pesar e indignação contra Lacerda e a UDN, por conta da carta-testamento. E, claro, não escapei de repetir uma observação meio clichê: somos uma república sentimental.
Isto se mostra muito claramente, de tempos em tempos. Mas me restringindo aos casos em há uso político direto, como no caso do sequestro de Abílio Diniz, que ajudou a detonar a candidatura Lula, é interessante observar que o “caso Eloá” também serviu de combustível eleitoral tanto para o PT, como para Serra - ao menos, do meu ponto de vista, ainda mais acontecendo logo depois do confronto entre as polícias em São Paulo. Todos queriam seu naquinho naquela exposição toda, némêss?
Sei que há muito mais a ser dito, envolvendo os aspaectos psicológicos, a hipocrisia, etecétera.
Certamente alguém mais dotado do que eu escreverá melhor sobre tais coisas. :=)
Abraço
RE: Leandro, Arnoud, Alba,
Obrigado pelas leituras, e especialmente pela compreensão do texto! Foi precisamente o que tentei mostrar: que o problema é complexo (Arnoud), e que seria muito interessante verificar se não é mesmo uma marca do Brasil (Alba).
Agora, Alba, você teria mais direções sobre as indicações que fez? De fato, da maneira que você expôs, dizem diretamente respeito ao problema que tentamos discutir. Pena que eu não tenho boa formação para adentrar na história, e pescar mais e melhores exemplos. Mas quem sabe não é um bom problema para seguir adiante? O que seus alunos diriam a respeito, por onde poderíamos seguir?
Quanto aos clichês - você deve bem saber -, é interessante notar que às vezes dizem respeito a coisas demodés, repetidas demais; outras, referem-se a problemas que nunca deixam de se enunciar, e o fato de descaracterizá-los, nomeando como “clichês”, apenas ajuda a despotencializar críticas possíveis, e manter o problema
abraços,
Made on October 25, 2008 @ 7:52 pm
Camila Says —
Estou impressionadíssima. Nunca havia pensado no que você afirma na conclusão do texto, e sua argumentação me convenceu plenamente. Mas já pensei sim, e muito, na dificuldade em “despsicologizar” o senso comum - e poucas vezes vi esta idéia exposta de maneira tão pertinente. É isso mesmo: qualquer tentativa de ampliar o debate para o âmbito social leva a reações como “mas então você está dizendo que o bandido é vítima?” - ou, o que também é muito comum, “a-ha, então você é dos direitos humanos que só quer saber dos direitos dos assassinos”. Já ouvi muito essas duas categorias de resposta, pois na condição de “especialista” (sou psicóloga), inúmeras vezes fui convidada a analisar os recônditos mentais da celebridade-criminosa (ou seria criminoso-celebridade? either way) do momento. Parabéns pelo post essencial.
RE: É interessante vc ter chamado a atenção sobre o fim do texto, especialmente pq, sobre outros conteúdos, existe uma espécie de forma de análise coincidente entre o que ocorre por aqui, e o que ocorre lá na gringolândia. Em uma das últimas chacinas que ocorreu por lá, dentro dos diversos perfis psicológicos, chegaram até mesmo a falar de ‘possessão’. E não é que o mesmo ocorre por aqui?
Em um texto sobre a chacina de um certo Kaszmierczak, vinculamos um estudo muito interessante sobre os elementos que se correlacionam lá nas chacinas dos EUA. Dentre os elementos, grosso modo todos os traços psicológicos dos assassinos, embora recorrentes, não eram determinantes. Mas um elemento fugia aos pareceres psicológicos, e sempre se repetia: o bullying.
Traduzindo: aqui e nos EUA as análises dos criminosos são muito parecidas, espécies de redução psicologizante do criminoso; mas, aqui e lá, talvez o que se repita efetivamente, na linha do parecer daquele profissional psi mencionado acima, são certos padrões de valores…
Made on October 26, 2008 @ 8:08 pm
Alba Says —
Catatau,
Acho que vou fugir um tanto ao teor do meu próprio comentário, já que as mobilizações históricas no Brasil, como no caso do suicídio de Vargas, do assassinato de João Pessoa, e outros mais, aconteceram em momentos diferentes e sem a interveniência tão acachapante da mídia irresponsável e sequiosa de audiência.
Temos um histórico mais ou menos impressionante, ao menos pra mim, de mobilizações populares causadas pela comoção. Não sei bem se isso seria uma característica apenas do Brasil, mas ao ler sobre os linchamentos aqui, muito mais frequentes do que se imagina - por exemplo, nas periferias das grandes cidades, a sensação que fica é de que as pessoas se deixam mobilizar com uma facilidade absurda. Quem tem estudos sobre isso é o José de Souza Martins, que já escreveu a respeito no Aliás do Estadão. Vou procurar o link para postar mais tarde.
De uma forma pra lá de canhestra, vou tentar amarrar alguns desses pontos: é claro que faltam Estado, educação, e tantas outras coisas! Por outro lado, sobram e estão sempre nas paradas, o consumismo narcisista, o culto às celebridades, não que esta seja uma observação original, pelamordezeus!
Mas há mesmo, da forma como entendo e que você mesmo realça no post, ao mencionar o caso João Hélio, uma reação popular imediata e violenta de repúdio, calcada ou não no moralismo que é muito próprio a essas manifestações. Como se manifestar-se já indicasse a superioridade moral de quem o faz.
Sem dúvida, a Camila trouxe mais elementos à discussão. E eu diria ainda, que poderíamos falar um tantinho das relações homem X mulher e de policiais que não desarmaram Lindemberg porque se tratava de “um caso de amor”
Clichê ou não (sim, você está muito certo, obrigada!), penso que somos, sim, muito sentimentais. Fico questionando mesmo é o quanto desenvolvemos valores realmente republicanos.
(
Abraço
RE: Esperamos pelo link!
Então, vc mencionou duas coisas: a emotividade, as reações imediatas de repúdio, um certo machismo incipiente, o moralismo pretensamente auto-isento e… os valores republicanos.
Será que tudo isso não está na nossa cara, quando vemos um caso como o último? Caso pensássemos em “valores republicanos”, em uma espécie de garantia das instituições, não teríamos um resultado muito interessante? O texto tentou chamar de “impessoal” o que seria uma atitude policial, segundo a prescrição dos próprios policiais. E o que tivemos? O resultado é muito interessante.
E algo tão interessante quanto, nisso tudo - e aí veríamos onde chega o “republicanismo” -, seria notar quando as reações mais se exaltam, e quando a emotividade desponta: na partida de futebol, e no crime passional. Não teríamos aí uma ponte com os dados históricos que você mencionou? A mídia como expressão e reforço de certos padrões sociais, existentes antes da popularização da própria mídia, e assim por diante?
Made on October 27, 2008 @ 5:56 pm
Alba Says —
Catatau, por enquanto aí vai o link. Depois volto para discutir os pontos que você levantou, viu?
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup125893,0.htm
RE: Muito interessante, bem na linha da questão “republicana” e do que viemos discutindo!
“As sociedades lincham quando a estrutura do Estado é débil. (…) As pessoas que tentaram linchar o rapaz acreditavam que não haveria justiça, já que a pena seria mais leve por conta da atenuante. (…)”
Made on October 27, 2008 @ 10:52 pm