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October 30, 2008

Aconselhamento psicológico para pastores


O problema é corriqueiro, enuncia-se em todo lugar: pastor evangélico pode dar aconselhamento psicológico? Pode-se "empregar" técnicas psicológicas no seio de uma prática pastoral?

O Catatau já escreveu alguns textos a respeito das relações entre psicologia e religião. Interessante, nisso tudo, é a quantidade de pessoas que buscam informações sobre o assunto, em máquinas de procura ou comunidades virtuais. 


Até "escolas de pastor" se criam por aí, com cursos tão duvidosos que beiram a má fé.

Quando se reune psicologia e religião, quando um pastor pensa que pode empregar técnicas psicológicas em sua atuação pastoral, existe uma crença implícita, comentada abaixo. A crença se enuncia mais ou menos nas palavras seguintes (retiradas de um relato de comunidade virtual):

Pastor pode dar aconselhamentos psicológicos sim, pois quando os mesmos estudam em uma faculdade séria, eles são capacitados por especialistas, para fazer. Claro que não é igual um psicólogo, mas pode usar alguns traços da psicologia para isso…

O comentário é muito interessante porque acerta na mosca, quando fala das pretensões dos evangélicos "utilizarem" a psicologia. Dado que existe uma formação em psicologia, técnicas psicológicas, teorias, procedimentos analíticos e afins, poderia-se concluir que, usando "alguns traços da psicologia" um pastor só tem a ganhar.

Entretanto, o problema é mais complexo. E essa crença, de saída, esconde uma premissa: se um pastor pode utilizar técnicas psicológicas em suas pregações, é porque trata de seres humanos, e, sendo assim, a pertinência de técnicas ou "traços" de psicologia seria fundamental. Quanto melhor o conhecimento de psicologia, maior a probabilidade de sucesso na pregação, e maiores as chances do fiel receber a boa mensagem.

Resumindo: se um pastor pastoreia homens, um traço fundamental da humanidade é a psiquê, as mentalidades, os comportamentos, as almas (e pode-se falar, nesse contexto, de qualquer noção de "alma"). Tudo é psicologia, e será melhor o pastor ciente disso.

O problema, entretanto, é mais embaixo. A questão verdadeira não é, e não deve ser essa. Tal visão de psicologia é ingênua, e imprecisa. Caso se aceite a premissa de que tudo é psicologia, e no fim o melhor pastor sabe disso, pode-se dizer que essa premissa é válida também para todas as outras áreas. Se tudo é psicologia - e de fato é, em certo sentido -, também seria melhor vendedor, advogado, governante, publicitário, marqueteiro, aquele que domina e emprega "traços" ou técnicas de psicologia.

E se levo a premissa adiante, percebo que qualquer prática pode "empregar" psicologia, como de fato muito se "empregou": no nazismo,  no socialismo soviético ou no capitalismo norte-americano, a exploração de traços psicológicos sempre foi fundamental. Vide, para dar apenas um exemplo, as diversas propagandas da Segunda Guerra, para motivação dos soldados de ambos os lados.

Mas como já mencionado, o problema é bem mais complexo, e dizer que qualquer ação sobre o homem pode "empregar" psicologia torna -se um postulado vago: no fim qualquer relação humana é "psicológica", o que não quer dizer que a ciência psicológica pode convir a tudo. Ou em outras palavras, a questão não diz respeito a como se pode utilizar as pessoas de um modo "melhor" ou "pior". O que fazer com elas é uma questão que não compete à psicologia, mas a questões de outra ordem (éticas, por exemplo).

Dito de outro modo: se "tudo é psicologia", não quer dizer que tudo é ciência psicológica aplicável. Pesquisar psicologia, ou utilizá-la segundo propósitos prescritos pela própria psicologia implica, relativamente, um estatuto científico. Mas algo bem diferente é tentar legitimar uma prática extra-psicológica, afirmando que é eficaz ou verdadeira simplesmente porque "usa" psicologia.

Em outras palavras, entramos na discussão entre ciência e técnica, ou mais precisamente no uso do homem como instrumento, alheio a um debate sobre ciência. Se ciências normativas como a psicologia intervêm na realidade, a intervenção não se rege por mero gosto, como se as técnicas fossem aplicáveis tanto para o nazismo quanto para uma religião. Se a técnica pode ser empregada tanto para enganar, quanto para pregar, revela-se aqui de que modo elas não dizem respeito à psicologia: não se empregam técnicas psicológicas porque são psicológicas, mas simplesmente para que se legitimem práticas não psicológicas. Não se sustenta o uso de técnicas psicológicas porque são psicológicas, mas porque se pretende convencer alguém.

A diferença entre uma prática psicológica e uma prática religiosa que pensa que "usa psicologia" torna-se evidente por um elemento muito simples: a prescrição. Uma religião, de saída, toma suas posições: é a favor ou contra o aborto, por exemplo. Diversas práticas evangélicas hoje criam práticas de "aconselhamento pastoral", ou ainda movimentos de apoio para que homossexuais "deixem" sua condição. Vê-se que qualquer "aconselhamento", "apoio" ou "orientação" já é prescrito conforme os preceitos considerados "verdadeiros" pelos pastores, sejam quais forem. Na igreja que se posiciona contra o aborto, a orientação seguirá essas diretrizes, como fará o oposto quando os valores também forem opostos; toda a "reorientação" de homossexuais parte do pressuposto orientador de que se trata de algo assemelhando a uma "disfunção", quando não de um pecado declarado (e não é raro ver nos relatos dos pastores termos como "anti-naturais", e afins).

Em psicologia, ocorre algo bem diferente. As prescrições não advêm de preconceitos morais, que guiam toda a intervenção. Existem sempre pressupostos, mas eles se pretendem científicos. Nunca um bom psicólogo prescreverá, por exemplo, a escolha sexual de seu paciente. Seja qual for, tal escolha compete apenas ao paciente, e o processo terapêutico consiste precisamente em auxiliar o paciente na mediação de suas próprias forças conflitantes. Não existe resposta prévia, a não ser a de que o fim de uma terapia é a autonomia do paciente, e isso não envolve preconceitos prévios.

Mas essa "chamada" da psicologia pelo pastor também revela duas outras questões.

Em primeiro lugar, se um pastor precisa de psicologia para legitimar suas práticas pastorais, existe uma relação de exterioridade entre psicologia e religião. E ainda, se a psicologia confere uma roupagem de "credibilidade" à pastoragem, que tipo de credibilidade se retira da própria pastoragem, sem o recurso à psicologia? Se uma religião precisa de instrumentos para convencimento, parece que ela não considera sua doutrina, de saída, suficiente. É preciso recorrer a uma linguagem "científica" para conferir maior credibilidade e convencimento, para que se atinja o fiel de modo mais eficiente, enfim, para que se faça uma boa pastoragem.

Em segundo lugar, o pastor "usa" a psicologia como "usa" a retórica e a oratória: são técnicas que permitem de um lado "falar bem", passar de modo eficiente e agradável uma mensagem, e de outro atingir o público com eficiência. E relatos como o do evangélico que pretende fazer psicologia para "se tornar um bom pastor" não são nada raros: ele escolhe fazer a faculdade com o intuito de compreender melhor as pessoas, e a partir dessa compreensão ter um bom uso das "técnicas" para sua pregação. Moral da história: pensa-se "usar" psicologia, quando nem se tem uma noção suficiente dela. O pastor "usa" algo que, caso conhecesse com mais detalhes, perceberia que fez um uso ilegítimo.

Curiosas doutrinas, as que dão tanta ênfase ao adorno, mesmo sustentando paradoxalmente a convicção de que não precisariam de adorno algum. ;)

5 Comments »

  1. Ricardo Cabral Says

    Excelente texto, Catatau, a começar pela fina ironia do próprio título. E salta aos olhos o dito “uso” da psicologia nos mais diversos segmentos, não é? Pode-se mesmo substituir a palavra “pastor” por tantas outras! Diria que a mais abrangente talvez seja “profissionais de marketing”, pois englobaria tanto os próprios pastores quanto vendedores, políticos, administradores, cafetões(tinas), bicheiros, traficantes…
    ;-)

    Made on October 30, 2008 @ 1:29 pm

  2. rfelipe Says

    Meu caro, você escreve muito bem e os temas abordados em seu blog são sempre urgentes.

    Aproveitando o ensejo, gosto de desvincular a ação de dar conselhos, “aconselhar”, do rol dos psicólogos, pois geralmente o conselho consiste em dizer aquilo que aquele que diz acredita ser o melhor (o bem) para aquele a quem se diz (ainda que existam os conselheiros que agem de má-fé). Quando nosso papel, enquanto psicólogos, como você tão bem escreveu está “em auxiliar o paciente na mediação de suas próprias forças conflitantes. Não existe resposta prévia, a não ser a de que o fim de uma terapia é a autonomia do paciente (…)”. Amigos, parentes e grande elenco dão conselhos sem cessar e “só querem o bem”. E o bem que eles aconselham é o bem que eles têm/querem. Não necessariamente o que seria o bem para quem recebe o conselho.

    A mistura religião e psicologia é bastante controversa. No mais das vezes camufla uma bomba relógio pronta para explodir ou fazer explodir a qualquer hora. O debate sobre os usos desta ou daquela técnica, seja ou não do campo Psi, assim como a legitimidade de seu exercício devem permanecer sempre na pauta. Psicologismos transbordam e nem mesmo os psicólogos estão imunes. De fato é a ética a grande divisora de águas em meio a esse maremoto.

    Abraços e afectos.

    rfelipe

    Made on October 30, 2008 @ 4:46 pm

  3. rfelipe Says

    … faltou comentar a grande quantidade de vítimas destes supostos conselheiros que se aglomeram pelos corredores de instituições de saúde mental após o convívio psicologizante, meso-transe, meso-lavagem cerebral praticado em alguns recantos desse mundo afora. Eles provocam, depois abandonam.

    Que fique clara a minha posição que não é a de uma oposição a qualquer sistema/praticante religioso, mas de repúdio a um sem-número de irresponsáveis de todos os cantos, religiosos ou não, que manipulam através de encantos de má-fé absoluta legiões de seguidores aos piores cenários de manipulação.

    Ufa!

    Made on October 30, 2008 @ 4:55 pm

  4. _Maga Says

    Parabéns, Catatau.

    Um texto muito bem escrito, com profundidade. Deveria ser lido por mais estudantes de psicologia e psicológos, tenho a sensação de que muitos deles não tem claros os conceitos que você expos tão bem aqui.

    Um abraço

    Made on August 3, 2009 @ 2:30 am

  5. :Pr.alberto Thieme Says

    Ao Ricardo Cabral,

    Primeiramente coloque o sapato de um “verdadeiro pastor” como temos muitos entre os 100.000 existentes e vais ver que a coisa não é como a zombaria que voce faz com gente séria. Voce provavelmente é um dos tais que me escreveu dizendo que 5 poastores tinham cometidos crimes. Considere 100.000, ele falar em 0.000005%. Conheça (conviva) com o verdadeiro Cristo e conheça seus ensinos e vais aprender a não “mostrar o argueiro no olho do teu irmão, quando tens uma trave no teu olho”. Que Deus te ilumine. Pr. Thieme; thiemeus@yahoo.com

    Made on August 8, 2009 @ 1:22 am

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