November 11, 2008
Cuidado com seu cérebro, ao coçar a cabeça!
Algum tempo atrás publicamos um pequeno texto, sobre programas televisivos que, baseados em uma má leitura do modismo das neurociências, acabam transformando tudo em samba do crioulo doido.
Pelo jeito, o texto continua atual. Tamanha surpresa foi ver, em um desses programas domingueiros, um cérebro gigantesco, projetado em 3D e correspondente a um bloco inteiro desse programa.
Junto com aquele gigantesco cérebro, o cérebro de uma pesquisadora. E o cérebro dela explicará sobre os cérebros de todos nós. A criança agiu de tal forma? O cérebro responde, dizendo que não houve ainda maturação das áreas pré-frontais. Como se estivéssemos todos errados, quando antes dizíamos que fazem assim simplesmente porque são crianças.
Existem raizes biológicas para a fidelidade ou a traição? O cérebro responde. Tudo, da criminalidade à política, o cérebro "responde".
Um cérebro explicando o funcionamento do cérebro: isso é algo um tanto curioso. O que explicaria esse interesse "cerebral" dos jornalistas, motivados a buscar especialistas do cérebro, para explicar nosso cérebro? Dado que esses jornalistas em tese possuem um cérebro, deve haver ali alguma motivação "cerebral", quando pretendem mostrar o que mostram. Se tudo se reduz às aspirações biológicas de um cérebro, se temos um misto de admiração e constrangimento vendo nossas aspirações na televisão, imaginemos então quais seriam as aspirações desses jornalistas… Dado que possuem um cérebro, não devem ser aspirações neutras e descompromissadas - iguaizinhas às nossas -, não é mesmo?
Talvez encontremos essa motivação dos jornalistas no mesmo programa domingueiro, mas em outra parte. Antes do bloco sobre o cérebro, um outro - o mais acessado do site - mostrava a manchete: "Coçar a cabeça pode significar mentira". A reportagem (pela forma e conteúdo, só poderia ser da Renata Ceribelli) mostrava aqueles estereotipados ambientes empresariais, com as velhas crônicas que todo brasileiro dia ou outro acaba se submetendo: cuidado como você age, você mal sabe que pode estar se sujeitando sem saber a um desses modismos de gestão, tão passageiros quanto misteriosas as motivações que o animam.
Ceribelli mostrava uma moda agora passageira, mas sempre recorrente(1): a da linguagem corporal. Você gesticula muito rápido, enquanto conversa de pé junto a uma bela mulher? Cuidado! Diante de algum olhar "atento" você pode manifestar nos gestos um desejo inconsciente de manipular os seios dela (sic!). Não importa se você é italiano ou descendente (não seriam eles os gesticuladores por excelência?), coçar a cabeça pode ser gesto de mentira, e gesticulação diante de uma bela mulher pode ser desejo pelos seios.
A reportagem adianta: "não se pode analisar um gesto isoladamente". Também diz, de passagem, que um gesto pode significar várias coisas. Mas vá lá: todo o tom da notícia se dirige ao fato de que tudo o que nosso corpo faz pode significar alguma coisa - e muito cuidado! pode ser um significado constrangedor, ruim, passível de punição, e nem saberíamos disso.
Quando a reportagem falou de linguagem corporal, só esqueceu de comentar sobre o olhar. Esse, que aponta o dedo aos gestos que desejariam os seios. O olhar nunca é neutro. Se ele vem de um ser humano, também é uma "linguagem corporal". E é uma situação muito diferente se relacionar com outra pessoa naturalmente, ou nessa mesma relação manter sob ela um olhar avaliador. Tudo muda de qualidade. Se olho para alguém tentando avaliar seus gestos, o olhar já não vê a ação natural porque a situação não é mais a mesma. Se a equipe de reportagem buscasse saber, veria que qualquer "especialista" de linguagem corporal, desde o pior, afirma que nenhuma relação, sob um olhar que julgue a própria relação, é natural. Moral da história: se alguém tenta "interpretar" o significado dos gestos de outrem numa relação, com grande probabilidade apenas lança mão de uma ficção. Se a bela mulher que vê um homem gesticular sem parar diante dela nota depois da reportagem que aquilo pode ter algo a ver com seus seios, em boa parte das vezes ela fala muito mais de si e de seus desejos do que do pobre coitado à frente.
Voltando ao caso do "cérebro", o caso não é muito diferente. No cérebro e na linguagem corporal, talvez nos aproximemos um pouco dessa mania de incidir o olhar sobre os outros. Esses jornalistas possuem um interesse cada vez mais frequente de chamar os misteriosos "especialistas" (sempre assim, indefinido) para explicar a nós mesmos as nossas determinações. E não por acaso, essa demanda perpétua de "especialistas" se aproxima muito desses contextos sociais duvidosos, os quais os jornalistas nem ousam colocar em questão: a empresa, o emprego, a seleção profissional, as relações interpessoais, as modas de gestão… Basta uma pesquisa na internet para ver como os interesses sobre linguagem corporal, ou sobre "uso" do cérebro (seja lá o que isso for), se aproximam sem qualquer reflexão de técnicas de avaliação e gestão de homens.
Como se todo comportamento se determinasse por algum subterfúgio biológico, mas os subterfúgios dos modismos empresariais permanecessem fora de questão…
Vale repetir: muito curioso notar que essas técnicas mesmas, de gestão e avaliação, nunca se colocam em questão. Como se o ambiente gerado pelo homem, na relação com os outros homens, se assemelhasse sem qualquer reflexão a uma savana animal, e não a um mundo criado pelos próprios homens. Como se essas técnicas de avaliação e gestão não se criassem pelos mesmos homens que submetem os outros homens sobre seu olhar. Dado que são apenas cérebros, dado que são só "linguagens corporais" (portanto, motivação biológica), imaginemos o que deve implicar esse olhar, tão cioso de delimitar e gerir. Se são homens, deve haver ali algum cérebro, correto?
(1) Certas modas funcionam assim: são "modas", e logo são passageiras; mas por serem "modas", sempre buscam algum subterfúgio, às vezes no passado, para sua novidade que, por ser "moda", não se deve confundir com originalidade






Alisson Says —
Ótimo texto.
Eu assisti esses dois quadros que você faz alusão e realmente, as coisas surgem assim como a manifestação de algo longe do homem, fora dele, como se estas relações não fossem criadas pelo próprio homem.
Somente um olhar apurado e crítico como o do senhor para verificar essa mediocridade que apresenta com formato de novidade.
Abração índio velho!
RE: Alisson,
Só tenhamos o cuidado de separar as neurociências, de uma má leitura delas!
abração,
Made on November 11, 2008 @ 9:55 pm
Alisson Says —
Ah, esse vídeo e ótimo… rsrsrs
Salve!
Made on November 12, 2008 @ 1:05 am
strambinha Says —
Olá Catatau,
Lendo seu post não pude deixar de lembrar deste outro artigo sobre coçar a cabeça…
http://www.newyorker.com/reporting/2008/06/30/080630fa_fact_gawande
RE: Que artigo grande! Tão longo quanto… inusitado, rsss
Made on November 12, 2008 @ 4:55 pm
Leandro K. Says —
A Suzana Herculano Houzel (que estreiou o quadro no Fantástico) tem um trabalho muito bom, tanto na divulgação científica quanto na área acadêmica. Mas o primeiro episódio da série ficou bem fraquinho, quando achei que o negócio estava começando… acabou.
Vamos ver se a Globo não estraga o trabalho dela.
Made on November 13, 2008 @ 12:58 am