December 16, 2008

William Blake e Francisco de Holanda

Gravura de Aetatibus Mundi Imagines (1543-1573), do ilustrador português Francisco de Holanda (via BibliOdyssey)
 

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/blakejob_color14.jpg
Jó, a esposa e os três amigos, nas ilustrações de William Blake para o Livro de Jó (1805-06 e 1821-27)
 
Quase 300 anos separam as gravuras de Francisco de Holanda e William Blake. Mas é muito curioso notar como os modos de expressão do segundo parecem se remeter ao primeiro. Alguma inspiração, ou raiz comum? O Mr. PK sugere simbolismos iniciáticos nas gravuras de Holanda. Algo também muito presente nas de Blake. 
 
***
 
Sobre o Livro de Jó, retornamos àquelas considerações de Toni Negri, sobre a criação de valor, e os "adversários".  Os amigos de Jó - Elifaz, Baldad e Sofar - buscavam personalizar a culpa de Jó, mais do que compreender as palavras do amigo. Não se dirigiam à injustiça, mas ao injustiçado. Mais fácil culpar o injustiçado, do que pensar sobre a injustiça.
 
Caso se inclinassem à compreensão, talvez os amigos percebessem que a Doutrina da Retribuição Temporal - e por conseguinte, suas próprias posições - estivesse em questão. Isso é boa parte do enredo. No limite, ao interrogar Jó, talvez faltasse a eles interrogar o próprio significado da amizade. Ao não buscar compreender Jó, os amigos passaram de defensores a acusadores. Mais do que advogados, tornaram-se promotores. 
 
Posição cômoda, de certo modo inevitável. Porém ineficaz, dada a não disposição da compreensão. Aquilo que Jó sofria não se inseria no julgamento precipitado dos amigos. O contexto exigiu a mudança de Jó, como exigia a abertura dos amigos; mudança realizada no avanço da narrativa, porém apenas em Jó. Aquilo que deveria ser auxílio tornou-se disputa. A amizade - no contexto de Jó - se define muito mais em se colocar ao lado para resolver os problemas, do que subsumir o amigo às próprias crenças.
 
A Jó restava, nas belas palavras de Negri, transformar a dor em criação; a desmedida do poder, em potência desmedida.
 
O que se demonstra no final do Livro, quando Deus restitui a Jó todos os bens, e impele os amigos a rituais de sacrifício.
 
Na questão da amizade, uma bela alegoria da vida.

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