January 6, 2009
Robert Fisk: Forças de paz da ONU? Mas… em que fronteiras?
Terei ouvido o zurrar dos burros[1] da ONU em Gaza? Em seu tour pelo Oriente Médio, lá está o presidente francês, Nicolas Sarkozy, esse burrinho olhudo de história em quadrinhos, mais uma vez, lépido, querendo mandar as Forças de Paz para outra Missão Impossível.
Os palestinenses tentam internacionalizar seu conflito com os israelenses desde o tempo em que Yasser Arafat pediu que se enviassem tropas da ONU para proteger os palestinenses, depois do fracasso do acordo de Oslo. Os israelenses jamais permitiram.
Até uma esquisita força de observação, que a União Européia instalarou em Hebron, depois que Baruch Golstein massacrou os palestinenses na mesquita – e suas missões de patrulha eram regularmente interrompidas pelos colonos judeus nessa estranhíssima cidade – simplesmente sumiu. E, há décadas, só a Agência da ONU de Socorro Humanitário tem conseguido distribuir tendas, alimento e umas poucas salas de aula nas favelas que são os campos de refugiados palestinenses. Isso, há gerações.
Será que algum outro grande fracasso de Israel em Gaza conseguirá mudar a dinâmica da "pacificação" no Oriente Médio? Será que, pelo menos, o fantasma de Arafat conseguirá ver a "internacionalização" da guerra Israel-Palestina?
O clichê, nos dois sentidos da palavra – como frase gasta e como modelo de uma futura força a ser criada na ONU – é, é claro, a UNIFIL, conhecida como United Nations Interim Force in Lebanon [Força Provisória da ONU no Líbano].
A UNIFIL chegou ao sul do Líbano em 1978, depois do fracasso da pré-fracassada "Operação Litãni", montada para "destruir" as forças da guerrilha palestinense ao norte da fronteira com Israel. A ONU insistia que os israelenses tinham de voltar para seu território, para trás de suas fronteiras reconhecidas – o que os israelenses não fizeram. Assim as forças da ONU ficaram sob comando de uma força israelense de ocupação ao sul das fronteiras de Israel; e as unidades palestinenses, nas bases da própria ONU e ao norte.
Quando Israel encenou outra invasão sem-chance, em 1982, semelhante à irrealista operação contra o Hamás em Gaza, tão irrealista quanto a invasão de 1978 ao Líbano – a invasão do Líbabo foi encenada para "destruir" o inimigos palestinenses do Líbano –, a ONU descobriu que estava operando dentro de uma área ocupada por Israel, e que permitia que oficiais da inteligência de Israel atravessassem pontos de controle da ONU para prender ou assassinar militantes da última milícia libanesa que ainda resistia à ocupação no sul.
Só quando Israel retirou-se do Líbano em 2000, 22 anos depois da chegada da primeira força da ONU, alguma força "da Paz" – já então formada por soldados dos mais pobres países da África e da Ásia – passou a operar com alguma independência, embora, então, já depois de o Hizbóllah estar instalado.
A guerra de 2006 entre Israel e o Hizbóllah terminou com maior número de soldados da ONU no sul do Líbano, dessa vez comandados por generais da Otan, que patrulhavam uma área na qual o Hizbóllah não agia –, mas, isso, só porque o Hizbóllah já tinha foguetes novos, de mais longo alcance, que podiam ser disparados da região norte da área de operações da ONU.
Israel, deve-se dizer, sempre atacou as forças da ONU. Acusavam a ONU de ser "pró-Palestina" (o que jamais significou coisa alguma), de estar associada aos "terroristas" (sem jamais esclarecer como), que eram fracos, anti-Israel e – claro! – anti-semitas. Israel chegou a acusar um comandante da ONU, das ilhas Fidji, de estar espalhando Aids. Então… alguém ainda espera que venham forças da ONU para a Região?
De fato, chegou a haver uma força de observação da ONU na fronteira Líbano-Israel. Chegou em 1948 e existe até hoje – não-armada, na fronteira até hoje, dentro da área da UNIFIL – e essa, na verdade, poderia servir de molde para uma força da ONU da Palestina.
Em outras palavras, um grupo não-armado, de observadores, não de forças armadas, que pudesse acrescentar uma voz internacional, para denunciar as violações do cessar-fogo entre Israel e o Hamás. Mas, sim, os palestinenses reinvindicariam que a mesma instituição fosse isntalada também, na fronteira Israel-Cisjordânia. E aí está o problema para os dois lados: problema para Israel e problema para a ONU.
Onde está a fronteira? Que "fronteira" a ONU patrulharia? A fronteira que a ONU fixou nos anos 40, as linhas de antes de 67 – segundo as quais uma Jerusalem Leste pre-anexada pertencia aos árabes? Ou as linhas de depois de 67, quando Israel passou a reinvindicar uma Jerusalém "anexada"? Ou a "fronteira" escandalosamente demarcada por um muro, e que hoje morde muito mais fundo o território da Palestina – mordida ilegal, nos termos da lei internacional? E a ONU teria também de "observar" as colônias de judeus, também ilegais, construídas em território palestino e dentro da Cisjordânia?
Gaza parece ser opção mais simples. A ONU poderia instalar tropas internacionais à volta de Gaza. Nesse caso, então, em pouco tempo, elas passariam a ser indispensáveis também à volta da Cisjordânia. Essa seria a realização dos sonhos da Palestina. E é o pesadelo dos israelenses que trabalham para continuar a roubar território da Palestina.
Tradução de Caia Fittipaldi * © The Independent 2009. http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-bring-in-the-peacekeepers-its-not-as-easy-as-it-sounds-1228137.html
[1] Referência às caravanas de burros, único meio de fazer chegar mantimentos em algumas regiões do Afeganistão. Sobre isso, ver http://findarticles.com/p/articles/mi_m0WDP/is_/ai_59133412





Rodrigo Cássio Says —
Muito bom o texto. Informações, comparações, argumentos, enfim, gostei bastante.
Made on January 7, 2009 @ 1:15 am