January 15, 2009
O Homem que desdenhava a máquina
Quando Tsekung, discípulo de Confúcio, veio para o sul, ao estado de Ch´u, no caminho de Chin passou por Hanyin. Aí viu um velho empenhado em fazer uma vala para ligar a sua horta a um poço. Transportava ele um jarro na mão, com o qual trazia água e a derramava na vala, com enorme trabalho e pouco resultado.
- Se tivesses uma máquina - disse Tsekung -, poderias num dia irrigar cem vezes a tua área. O esforço necessário é insignificante comparado com o trabalho que ela faz. Não gostarias de ter uma?
- Que vem a ser isso? - perguntou o hortelão, olhando para ele.
- É um aparelho feito de madeira, pesado atrás e leve na frente. Puxa a água suavemente numa corrente continua, e ela cai borbulhando como sopa a ferver. Chama-se uma bomba.
Então o hortelão empertigou-se e falou com um sorriso:
- Ouvi meu mestre dizer que aqueles que tem engenhosos instrumentos são espertos nos seus negócios, e os que são espertos nos negócios tem astúcia no coraçao, e os que tem astúcia no coração não podem ser puros e incorruptos, e os que são assim tem o espírito agitado. Aqueles cujo espírito é agitado não são veículos convenientes para Tao. Não é que não conheça essas coisas. Teria vergonha de usá-las.
Tsekung baixou o rosto, humilhado, e sentiu-se confuso e abatido. Só depois de terem andado trinta li foi que ele recobrou a tranquilidade.
- Quem era aquele homem? - perguntaram os seus discípulos. - Por que a tua face mudou de cor depois de vê-lo e pareceste perplexo o dia inteiro?
- Pensava - respondeu Tsekung - que só havia um homem (Confúcio) neste mundo. Mas não sabia que havia este homem. Ouvi do Mestre que a pedra de toque de um projeto é a sua praticabilidade, e a meta de qualquer esforço é o bom êxito, e que devemos alcançar os maiores resultados com o menor trabalho. Não é assim aquela espécie de homem. Entrando na vida, ele vive no meio do povo, sem saber a queestá sujeito, infinitamente completo em si mesmo. O bom êxito, a utilidade e o conhecimento das artes decerto fariam esse homem perder o coração humano. Mas ele não vai a parte alguma contra a vontade e nada faz contrário ao seu coração, senhor de si mesmo, acima do louvor e da censura do mundo. Ele é um homem perfeito.
[Chuangtse, "O Homem que desdenhava a máquina", do esgotado A Sabedoria da China e da India, coletânea de Lin Yutang]








Aura Sacra Fames Says —
Realmente “infinitivamente completo em si mesmo”, creio que todos devemos procurar alcançar essa condição, pois, assim, evoluiremos para um estado nunca dantes atingido.
Abraços
aurasacrafames.blogspot.com
Made on January 17, 2009 @ 10:48 am
Guilevy Says —
Basicamente o mito do “Fruto Proibido”, pois não?
O Ser puro, de plena felicidade, é ignorante, etc.e tal.O conhecimento vem acompanhado da angústia.
Apesar que aqui ele diz:”Não é que não conheça essas coisas. Teria vergonha de usá-las.”
Sapiência, enfim? Será o sábio necessariamente melancólico? Que tristeza…
RE: O que parece interessante é a contraposição “taoísta” às narrativas confucionistas, do homem público, em certo sentido “eficaz” e virtuoso, e assim por diante, o que você acha? Uma espécie de tradição do Wu Wei contraposta a um pensamento sobre o homem dentro da cidade, reflexões cosmológicas contrapostas às antropológicas…
Made on January 21, 2009 @ 5:10 pm
Thomás Says —
Muito bom isso. É muito mais difícil perdermos nossa humanidade do que mantê-la num mundo como o nosso.
Made on February 1, 2009 @ 1:51 pm
Thomás Says —
Muito bom isso. É muito mais difícil mantermos nossa humanidade do que perdê-la num mundo como o nosso. (o outro comentário foi errado, qdo fui reescrevê-lo rs)
Made on February 1, 2009 @ 1:53 pm