February 17, 2009
O filósofo e o behaviorista, por Jean-Baptiste Botul
Certo dia enviaram um behaviorista para analisar padrões funcionais de comportamentos dos filósofos. Como vivemos em uma era onde tudo pode se reduzir a argumentos ad hominem, nada como aplicar uma etologia (estudo das condutas) na escala do pensamento, ou no comportamento pensante (eventos privados) dos pensantes de nossa cultura.
Tarefa dada, o behaviorista começou do início: os cursos de graduação. Lá, viu como se faz a formação dos filósofos: alguns anos de estudos, permeados de muita dúvida e muito rigor (pelo menos nos melhores deles). Um dos professores entrevistados mencionou como é notável a evolução de um aluno de filosofia, em detrimento às outras ciências humanas. Enquanto nos outros cursos o aprendizado básico é forte nos primeiros anos, resumindo-se a aplicações mais ou menos complexas nos últimos, o aluno de filosofia manteria um ritmo rigoroso e constante, ou mesmo crescente. Um estudante de humanas, avançando os anos, configuraria uma curva ascendente de procedimentos aprendidos, e outra descendente de conceitos aprendidos. Já o aluno de filosofia continuaria no mesmo ritmo rigoroso.
Resultado: se em outros cursos de humanas - segundo o professor - o aluno entra, por critérios de concorrência, "melhor" do que o estudante de filosofia, ao final do último ano o aprendiz de filósofo acabaria "ganhando" (sic), por conservar - ou dever conservar - um mesmo tônus de estudo.
Dado o primeiro termo, o behaviorista percebeu uma informação anômala, relativa às contingências filosóficas de reforçamento. Se - como disse outro professor analisado - um aluno de filosofia é para as humanas o que um aluno de física é para as exatas, é curioso notar que o aumento de rigor e tônus no estudo acompanha um decréscimo em vantagens financeiras. Em outras palavras - mantendo-nos no aluno de filosofia - enquanto em termos populacionais a margem de lucro de um profissional de humanas (e humanas aplicadas) tende a aumentar, a população filosófica enfrentaria redução no número de vagas de trabalho, e no salário.
Assim o aprendiz de filósofo empreenderia, depois da formatura, uma curiosa dinâmica: dadas as poucas oportunidades de emprego, restritas a aulas de segundo grau, restaria via de regra o ensino superior, alcançável após anos de pós-graduação. Diferente de outros profissionais de humanas, o behaviorista notou que um filósofo sabe distinguir pós-graduação stricto sensu de lato sensu. E por isso mesmo, deveria cursar todas, ouvindo a partir daí todo o desconhecimento geral do que significa uma pós graduação de conteúdos puros, e as vistas grossas do também desconhecimento sobre uma pós-graduação não ser apenas uma atividade de fim de semana, mas um trabalho (em seu estudo, o behaviorista não soube precisar se otium, labor, ou tripalium).
Nesse ponto - na pós-graduação - as curvas de padrões comportamentais sofrem um entrecruzamento curioso. Notou o behaviorista que, confrontado com os outros profissionais, os padrões do filósofo eram simétricos e inversos: enquanto o formado em outras áreas tenderia a ganhar mais e trabalhar menos, o pós-graduando em filosofia trabalharia mais, com um ingrediente reforçador adicional: respostas de ansiedade indicando que o estudo a mais da pós-graduação também denotava padrões de esquiva, diante da ameaça de punição futura significada pelo desemprego.
Após recolher experimentalmente tal conjunto de padrões - respostas de ansiedade e esquiva diante de reforçamentos negativos futuros, unidas a consequências auto-reforçadoras com elementos ambientais de reforço intermitente -, o behaviorista se lançou na História da Filosofia para analisar se o filósofo sempre envolveu tais repertórios e jogos de contingências.
A investigação conduziu o Behaviorista até a análise funcional da figura socrática. Lá o experimentador viu que, um pouco diferente de hoje, o significado de Φιλοσοφία envolvia certas condutas conideradas até mesmo perigosas. Com a cicuta Sócrates encerrou sua carreira filosófica (sem cadeiras de filosofia), acusado de corruptor e ameaça pública. No Fédon, lá estava Sócrates, sem traços de infelicidade, esperando a morte, e recompensas prováveis para além da vida. Notou o behaviorista: o artifício platônico trata de um comportamento ligado a consequências positivas, e contingências reforçadoras no pós-vida.
Já o contemporâneo brasileiro, notou o analista funcional, não tinha nem pós-vida, nem perigo, nem cicuta. Um deles tentou iniciar uma conversa sobre a questão da normatividade e da ética nas ciências do comportamento. Sem ouvir o que diria seu objeto de estudo, o Behaviorista antecipou a conclusão (na linha dos estudos contemporâneos nos quais, a partir de dados probabilísticos, infere-se resultados determinantes): a filosofia - o Pensamento - sofria mesmo era de desamparo aprendido.
tradução: Pedro Stein








Diego Viana Says —
Ri até cair no chão, depois continuei no chão, mas chorando.
RE: Achei o tom muito parecido com aquele teu outro texto, Diego.
Made on February 18, 2009 @ 5:08 pm
Leandro K. Says —
Muito bom! Muito bom, mesmo!!!
O desamparo aprendido resume bem a história toda…
Made on February 18, 2009 @ 8:24 pm
Perrusi Says —
Rapaz, que texto curioso. Eu ri, claro, mas fiquei estranho; afinal, estava rindo, no fundo, de mim mesmo.
Made on February 23, 2009 @ 3:17 pm
Diego Viana Says —
Que Pagès que nada, eu é que sou o verdadeiro pai do botulismo, hehehehehe.
Made on February 23, 2009 @ 10:49 pm
_Maga Says —
A história ficou realmente muito boa, dei boas risadas lendo-a… uma pena que o retorno seja mesmo pouco para tanto esforço… Só acho que se trocasse-mos o filosofo e o behaviorista de lugar, os termos mudariam, mas a linha de raciocinio e a conclusão não ficariam distantes… rs
Um abraço
Made on February 24, 2009 @ 3:59 am