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February 27, 2009

Deleuze, Guattari, e o exército israelense


http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/p1784_weizman.jpg


Perguntei a Naveh porque Deleuze e Guattari eram tão populares entre os militares israelenses. Ele respondeu que "muitos dos conceitos de Mil Platôs se tornaram instrumentais para nós […], permitindo-nos explicar situações contemporâneas de um modo que não poderíamos fazer até então. Nossos próprios paradigmas foram problematizados. Mais importante era a distinção que eles apontaram entre os conceitos de espaço "liso" e "estriado", [cujo acordo refletiria] os conceitos organizacionais de "máquina de guerra" e "aparelho de estado". No IDF agora utilizamos o termo "alisar o espaço" quando queremos nos referir a operações em um espaço como se ele não tivesse bordas. […] As áreas palestinas poderiam de fato ser pensadas como "estriadas" no sentido que elas são fechadas em cercas, muros, valas, obstáculos e afins". Quando perguntei a ele se mover através dos muros era parte disso, ele explicou que "em Nablus o IDF entendia luta urbana como um problema epacial. […] Deslocar-se através de muros é uma simples solução mecânica que conecta teoria e prática.

A passagem refere-se a outro texto sobre Shimon Naveh (além daquelevinculado), estrategista israelense que emprega livros de diversos ditos "pós-modernos", especialmente Deleuze e Guattari.

Diante da recente invasão israelense a Gaza, o legado de Naveh deixaria muito colunista brasileiro com vergonha.  Duas semanas atrás, um colunista muito popular escreveu, sobre aqueles que apoiam Gaza:

Há os que ensaiam voos de alcance filosófico com sotaque francês: sustentam que a realidade nada mais é do que um "discurso sobre a realidade". Assim, o que o pobre articulista toma como "verdade" seria tão-somente a narrativa mais influente ou mais bem construída.

Se os que apoiam Gaza são supostos "arautos dessa era da incerteza", vejamos o que já disse o General israelense Aviv Kokhavi, sobre algo muito útil para táticas militares:

This space that you look at, this room that you look at, is nothing but your interpretation of it…The question is how do you interpret the alley?

Portanto, se o debate e as referências não são tão recentes, o assunto é atual. Ou melhor, parece atualíssimo. A respeito daquele primeiro texto vinculado sobre a "guerra rizomática", Damian Tabarovsky fez algumas considerações, contextualizando o significado desse tipo de "uso" de Deleuze em um século que, segundo outro autor, seria "deleuzeano". Continuando a passagem do Gen. Kokhavi, se confrontada com as indicações de Tabarovsky ela é muito sugestiva:

This space that you look at, this room that you look at, is nothing but your interpretation of it…The question is how do you interpret the alley?…We interpreted the alley as a place forbidden to walk through and the door as a place forbidden to pass through, and the window as a place forbidden to look through, because a weapona awaits us in the alley, and a booby trap awaits us bind the doors. This is because the enemy interprets space in a traditional, classical manner, and I do not want to obey this interpretation and fall into his traps. I want to surprise him! This is the essence of war. I need to win…This is why that we opted for the methodology of moving through walls.

"A idéia de se emancipar da estrutura imposta pela realidade é um tema-chave da teoria crítica/construtivismo", diz o comentador da fonte. Seja lá o que significa cada um desses termos, a passagem mostra um tom: deve-se empregar táticas militares diversas da guerra "tradicional". Contra a guerra tradicional, sempre se afirmou que táticas de guerrilha serviriam para conferir mobilidade diante da pesada "maquinaria" de um exército formal. Hoje aparece um movimento novo: contra guerrilhas como a do Hamás, novas táticas militares parecem diluir as agora "convencionais" noções de guerrilha.

Algo que impõe novas noções de guerra, novas questões éticas, e também novos ativismos.

Os livros de Naveh estão à venda na Livraria Cultura, e na Livraria Amazon. A primeira citação é retirada de um texto de Eyal Weizman, autor de Hollow Land (livros na Amazon).

1 Comment »

  1. Eurico Dias Says

    Passei aqui para convidar a fazer uma visita ao meu novo site:

    http://www.eucritico.com.br/

    Espero que goste!

    Abraços,

    Eurico

    Made on March 2, 2009 @ 9:52 pm

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