Outra questão, talvez, seja a guerra com o Iraque. Apesar de protestos, o governo Howard apoiou o ataque preventivo de Bush. Uma extensão dessa guerra contra o terror é a rasura silenciosa de nossos direitos humanos básicos, entre eles, sem dúvida, o direito à razão pública livre. Isso se justifica com o mantra de assegurar as nossas liberdades, suponho, a liberdade do medo. Então, para nos livrarmos do medo, desistimos de todas as nossas liberdades. Não há um debate público aberto. E a questão é: como definir espaço público, na era da proliferação de muitos lugares em que os cidadãos podem expressar suas opiniões? Onde está aquele espaço no qual pode-se comparar as próprias idéias com as de outrem, e no qual intelectuais debatem seu entendimento do que constitui um bom governo? Luc Ferry argumenta que, em nossa sociedade de consumo, a idéia de bem comum torna-se obsoleta. Ser livre significa, de modo geral, ter liberdade de comprar o que se quer, empenhando-se pela felicidade singular a ser obtida por diferentes bens adquiridos no mercado. O universo moral kantiano, em que a felicidade não pode ser o maior bem, pois é, por definição, singular a cada um, torna-se irrelevante. Se isso é verdade, o desafio é pensar o espaço público não como um lugar de expressão singular para certa pessoa. Esta é a definição kantiana de loucura, sempre definida pela singularidade e pela “perda de um sentido de idéias comuns a todos”, incompatível com a nossa forma de viver em comum. Precisamos pensar, mais uma vez, na possibilidade de encorajar a habilidade de pensar por nós mesmos, comparando os nossos pensamentos com os de outros, de maneira consistente. Usando o sensus communis como campo comum e pedra de toque para descobrir os erros do entendimento.
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