March 24, 2009

A Razão pública na época de George W. Bush

Animado por uma conversa com o Diego Viana (e diversos de seus textos), e também pelo texto do Idelber Avelar , vinculo a pequena indicação abaixo:
 
imagem daqui
Outra questão, talvez, seja a guerra com o Iraque. Apesar de protestos, o governo Howard apoiou o ataque preventivo de Bush. Uma extensão dessa guerra contra o terror é a rasura silenciosa de nossos direitos humanos básicos, entre eles, sem dúvida, o direito à razão pública livre. Isso se justifica com o mantra de assegurar as nossas liberdades, suponho, a liberdade do medo. Então, para nos livrarmos do medo, desistimos de todas as nossas liberdades. Não há um debate público aberto. E a questão é: como definir espaço público, na era da proliferação de muitos lugares em que os cidadãos podem expressar suas opiniões? Onde está aquele espaço no qual pode-se comparar as próprias idéias com as de outrem, e no qual intelectuais debatem seu entendimento do que constitui um bom governo? Luc Ferry argumenta que, em nossa sociedade de consumo, a idéia de bem comum torna-se obsoleta. Ser livre significa, de modo geral, ter liberdade de comprar o que se quer, empenhando-se pela felicidade singular a ser obtida por diferentes bens adquiridos no mercado. O universo moral kantiano, em que a felicidade não pode ser o maior bem, pois é, por definição, singular a cada um, torna-se irrelevante. Se isso é verdade, o desafio é pensar o espaço público não como um lugar de expressão singular para certa pessoa. Esta é a definição kantiana de loucura, sempre definida pela singularidade e pela “perda de um sentido de idéias comuns a todos”, incompatível com a nossa forma de viver em comum. Precisamos pensar, mais uma vez, na possibilidade de encorajar a habilidade de pensar por nós mesmos, comparando os nossos pensamentos com os de outros, de maneira consistente. Usando o sensus communis como campo comum e pedra de toque para descobrir os erros do entendimento.
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March 18, 2009

Música, sensação


Quando ouço uma música que me toca e que estava atrelada a você ou a um lugar, noto que não é a sua pessoa que me atinge com a música e não é o lugar que volta à tona com a canção. A música me faz ter é uma sensação…, uma sensação que passou por você ou que passou pelo lugar, mas que não é nem você, nem o lugar. Não é mais, portanto, uma questão de recordar o passado, mas sentir tudo no agora, neste instante. A música e a sensação têm vida própria. E essa sensação me acompanha em meio a essa canção que me invade. O que ficou, o que é presente, é a sensação que me embrulha os sentidos por meio dessa canção. Por isso a sensação não é você, nem é o lugar. O lugar não está mais lá. Você não mais existe. Não anseio mais repetir você ou o lugar. O que busco é o que encontrei na sensação que emergiu do encontro do lugar, de você e da canção.
Dos devires do Prof. Eduardo Simonini, nessa infinita highway.

March 16, 2009

Dâmocles e a espada

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The Sword of Damocles, de Richard Westall (1812)

 

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 Quadro de Felix Auvray

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March 12, 2009

Konstantinus Kavafis - Termópilas (1903)

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Honra àqueles que Termópilas fixaram
em suas vidas para as defender.
Que, jamais se furtando à obrigação,
foram justos e retos nos seus atos,
mas condoídos, também, e compassivos;
generosos, quando ricos; quando pobres,
generosos ainda com seu pouco,
socorrendo a quem pudessem; proclamando
sempre a verdade, embora sem nutrir
ódio algum por aqueles que mentissem.

E de mais honra serão merecedores
se previram (como tantos o fizeram)
que Efialte finalmente há de surgir,
e que os medas finalmente passarão.

- Constantine Cavafy (tradução de José Paulo Paes - Poemas, ed. Nova Fronteira). Outra tradução, confira aqui

March 10, 2009

3 anos de Catatau


O primeiro banner do Catatau (um blogue inspirado no livro de Paulo Leminski), feito pelo Meandros

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March 6, 2009

Lavando as mãos

Certo tipo de jornalismo chegou ao ápice no dia de hoje. O Recorde anterior, ou melhor, a marca anterior, pertencia, no contexto daqueles recentes assassinatos de civis por policiais, às receitas sobre como se comportar durante uma abordagem policial.
 
Hoje, quer dizer, o Jornal Hoje superou as espectativas. Ocupou vários dos minutos mais caros da televisão ensinando ao cidadão brasileiro como lavar as mãos:
E no dia a dia, sempre que chegar da rua ou antes das refeições lave as mãos. “Lembre-se de tirar relógio ou anel. Umedeça as mãos, passe o sabonete e lembre-se de ensaboar palma, dorso e dedos das mãos, além do punho e abaixo das unhas”, orienta Marcos Antônio Cyrillo, infectologista.
E o brasileiro, será que não anda lavando muito as mãos por aí?

March 5, 2009

Para tirar vantagem da denúncia

Sergio Leo, em passagem lapidar:

A justa indignação contra a bandalha é manipulável pelos bandalheiros. Tem denúncia? Quero provas, e disposição do denunciante para ir até o fim. A maior parte das denuncias é feita por bandidos contrariados, santo não sabe o que se passa no bordel. Mas se a denúncia não tem resultados públicos, fique certo de que alguém, privadamente, aproveitou-se dela para tirar alguma vantagem.

March 3, 2009

Entrevista com Jean Daniel

PERGUNTA - Como deve ser a relação do jornalista com o poder?
JEAN DANIEL
- Os jornalistas estão entre o poder e a história. E hão de saber como funciona o poder, com a condição de que o fascínio não caia na indulgência e na corrupção. Respeitadas essas condições, é muito interessante ver como funciona um homem que detém todos os poderes. Nesse momento é preciso desconfiar de tudo, até do mínimo detalhe. É difícil julgar com rigor e objetividade pessoas que estão à sua frente. Já me ofereceram de tudo: uma casa no México, por exemplo. Na Tunísia, também quiseram ser muito amáveis comigo. Mas a relação do poder com a imprensa é um problema nos dois sentidos. Já conheci épocas em que havia corrupção entre os jornalistas, mas conheci períodos em que os jornalistas eram acossados. Um homem com poder é um homem que esconde alguma coisa, e é preciso descobrir o que é. É um equívoco pensar que sempre há um crime. Existem os dois excessos, e hoje existe o excesso de transparência: não se sabe que crime existe, mas é preciso descobri-lo. É verdade que um ditador esconde tudo, e nosso papel é descobrir o que ele esconde. Mas já se passou dos limites: quando levada ao extremo -ou por virtude ou por vício-, a transparência chega à violação da vida privada. E há uma intromissão nova, a da fotografia na vida íntima. Quando se ultrapassam os limites, chega-se a aberrações. Veja o que aconteceu agora com Milan Kundera, o grande romancista tcheco, acusado de ter denunciado um companheiro. Ele tinha 21 anos na época; agora tem 79. Não havia provas. Os jornalistas foram a Praga e não encontraram provas. Mas saiu uma manchete junto a uma grande foto de Kundera: Kundera “teria sido”… E, com esse verbo no futuro do pretérito, mais a enorme foto e a manchete, Kundera passa a “ser”. O texto em si era honesto, mas o leitor se atém apenas à imagem e à força da condicional. Jornalismo é escrita, é texto. Mas naquela informação havia apenas a força da imagem, a força do título e a força do tempo verbal. Talvez o jornalista fosse honesto, mas veja só o resultado…

PERGUNTA - É o princípio da calúnia…
DANIEL
- Sem dúvida, só que hoje a calúnia se apoia nas novas tecnologias.

Entrevista com Jean Daniel, diretor do Nouvel Observateur, sobre jornalismo, poder, e Albert Camus (via lista oestrangeiro).