April 10, 2009
A Páscoa e a ‘Radicalidade’ do Cristão
Pequeno texto escrito no ano passado sobre alguns significados da Páscoa, e a economia de compromissos assumidos ou não pelo cristão.
Na mesma época, Bento XVI afirmou que a Ressurreição é uma "verdade histórica".
Recomendamos também o texto de André Egg, "A Páscoa Cristã".
Quadro: "Ressurreição de Cristo e mulheres na tumba", de Fra Angelico (1440-41)









André Egg Says —
Muito interessante o texto.
De certa forma, escrevi o que pode ser uma contestação a ele: http://paginadecultura.blogspot.com/2009/04/pascoa-crista.html
RE: Oi André!
Muito bom seu texto! Mas em que medida ele seria uma contestação? Na discussão sobre a historicidade da ressurreição? Na delimitação de certos pontos do cristianismo primitivo?
abraços,
Made on April 11, 2009 @ 1:05 pm
André Egg Says —
Certo. Não é bem uma contestação ao teu texto. Mas talvez à visão implícita no teu texto de que a ortodoxia católica ou protestante seria a única forma de cristianismo que existe.
Eu diria que pus lá uma visão do cristianismo liberal. Muito forte, mas pouco visível.
Agradeço a gentileza de citar no corpo do texto.
Abraço,
RE: Oi André,
Não sei se tive o intuito de mostrar isso no texto, o objetivo principal seria precisamente mostrar que tanto um certo ortodoxismo a partir da instituicionalização da Igreja, quanto o cristianismo primitivo, partem de uma mesma crença (a ressurreição), mas que essa crença impõe (como no cristianismo primitivo) uma certa atitude “radical”, na qual a crença nos ensinamentos não se separa das ações do fiel.
O quanto os cristianismos posteriores e institucionalizados realizam essa não separação entre crença e ação, o quanto eles não assumem de fato a crença da ressurreição, o quanto a Igreja institucionalizada passa a se desviar do cristianismo primitivo para se manter, esse seria o problema a se discutir, e nesse sentido vejo meu texto complementar ao seu. Mas não pretendi defender essas posturas “institucionais”! O que você acha?
abraços,
Made on April 11, 2009 @ 7:45 pm
André Egg Says —
É certo.
Eu não vejo que você defenda as posturas institucionais, a não ser quando você sugere que os discípulos criam “literalmente” na ressurreição, e que foi essa crença que precipitou a nova fé e sua radicalidade de práticas.
De certa forma eu acho que, ao fazer isso você legitima a ortodoxia que construiu a posteriori esta doutrina. Me parece que no primeiro século o exemplo da vida de Cristo falava mais alto que a idéia de sua divindade ou ressureição.
Interessante a questão que você coloca como radicalidade - a relação entre fé e ação. Uma ação para a qual não existem limites, no que seria uma lição decorrente da ressureição. Entendo que para as primeiras gerações de seguidores era a ação que importava. Aos poucos a ação foi posta de lado quando passou a ser mais importante a compreensão da doutrina ou a manutenção de certos costumes litúrgicos, cada vez mais complicados.
Mas houve reformadores em busca de um retorno ao exemplo apostólico, como os monges no século IV.
Acho mesmo que nossos textos são complementares. O teu é muito bom, e me lembra o entusiasmo com as doutrinas que me é tão familiar no meio evangélico do qual sou oriundo. Estou, na verdade, lidando com meus fantasmas.
RE: Ok André, mas será que apenas as instituições ortodoxas compartilham a crença na ressurreição? Não seria essa crença condição de possibilidade também do cristianismo antigo? O “exemplo da vida de Cristo” se separaria da crença na ressurreição, dos primeiros cristãos? Não seria a crença na ressurreição que habilitaria a crença no “exemplo”, dado que após a morte do Mestre os discípulos se dispersaram, tendo ânimo recomposto apenas após a ressurreição?
Temos alguns dados na narrativa dos evangelhos que mostram isso, a dispersão dos discípulos, e seu ânimo recomposto com a ressurreiçao. Tendo valor histórico ou não, o fim dos evangelhos é precisamente isso: Cristo não é um “mestre” a dar exemplo, se fosse apenas isso o fato da crucificação mostraria que os discípulos foram embora (Pedro foi pescar), e os discípulos em Emaús não diriam “nós esperávamos que fosse ele o libertador de Israel” (Lc 24, 21) antes de ver o Cristo revelado.
Enfim, me parece difícil dizer que, apenas a crença na crucificação, sem a crença na ressurreição, seria suficiente para o surgimento do cristianismo primitivo.
Quanto aos monges do século IV, a quais vc se refere?
Sobre o entusiasmo doutrinário, creio que aí está o ponto: aquele de não haver limites entre a crença do cristão, e sua ação. Algo um tanto difícil e incrível, nos dias de hoje.
Made on April 14, 2009 @ 1:44 am