May 19, 2009
Só o cume interessa
Certas coisas não precisam de grandes receitas para realização. Pego minha mochila de 50 reais, algumas frutas secas, dois sanduíches de pão com pão, e sigo em direção à Montanha do Espírito Mau. Se bem que, para isso, uma mochila de 50 reais já é cara (engraçado hoje em dia o preço ser hoje, para alguns, um assunto em questão
).
Chegando na base, encontro diversos carros. Informam que em torno de 50 pessoas (!) subiram o morro.
Nos últimos 20 anos, criou-se toda uma "cultura" de montanhistas, junto a outras culturas de todo tipo de atividade. Hoje existem os marombeiros, skatistas, surfistas, diversas outras tribos e… até mesmo "montanhistas". Muitos deles, inclusive, empreendem uma separação curiosa: nós, os "montanhistas", e eles, os "farofas". Farofa de farofeiro mesmo.
Nunca soube a que categoria me aplico. A julgar pelo condicionamento físico ruim e compulsório, e pelo modo como certos indivíduos auto-proclamados "montanhistas" me trataram no meio da trilha na última vez, devo ser um "farofa".
Existem farofas que fazem muito mal a qualquer lugar visitado. Eles carregam consigo a cidade. Certa vez encontrei alguns deles fazendo churrasco junto ao único córrego de água potável da trilha. Não estavam lá pelo lugar, mas para fazer farra, como em qualquer outro local fariam o mesmo. Repito: não estavam lá pelo lugar. Imaginar que hoje ainda existe a possibilidade de beber água diretamente do chão, sem muitos artifícios, é algo tão raro quanto formidável. Ver indivíduos queimando lenha bem perto de lugar raro assim, uma lástima (e a época era de seca).
Mas enfim, existem os "farofas", aqueles que levam a cidade consigo. Será que todos? Nunca me senti bem em tal categoria, bem como nunca me intitulei "montanhista". É como dizer que, se algumas vezes saio para pescar por prazer, mesmo frequentemente, sou então "pescador". "Vai fazer um ataque?", pergunta algum curioso, evocando o linguajar da "tribo". "Não, apenas subirei o morro".
Nessa mesma última vez no morro, enquanto descia me deparei, no fim da tarde, com um senhor de uns 50 anos. Estava de calça jeans, chapéu comum e coturno de couro. Esse, para muitos "montanhistas", é um "farofa". Não usa equipamentos de marca, e nem aqueles ditos de "alto rendimento". Estava ali sozinho, apenas para sentir o lugar.
Se aquele senhor pertencesse a alguma categoria, eu gostaria de me inserir na dele: alguém que não leva a cidade consigo, e busca algo mais do que uma relação de "consumo" com o lugar. E a admirável discrição o faz passar imperceptível para tribais e afins (enfim, viemos pelo morro, ou pelos outros?).
Ao iniciar a subida, vários "montanhistas" me ultrapassaram, com seus milhares de reais acoplados ao corpo: roupas de marca, botas de última geração, tudo técnico e de "alto desempenho". Passavam como relâmpagos, em busca de melhores tempos e maiores conquistas, todas elas muito longe dali - nos Andes, e quem sabe, no Himalaia. Querendo ou não, não estavam ali. Mantinham outra relação com o lugar, mediada por aeroportos, empresas transnacionais de equipamentos de alto desempenho (made in China e República Dominicana), e povos exóticos (para quem quiser compreender, o "exotismo" comporta a exata medida da tomada de distância, e da ausência de comprometimento, portanto uma relação nunca autêntica). Esses "montanhistas", de algum modo, também carregavam a cidade consigo. Entre eles e os "farofas", nenhuma diferença notável.
De repente, no meio da trilha, algo surpreende. No meio da vegetação, apenas para quem passa vagarosamente, despontam pequenas orquídeas selvagens, à mercê de algum possível olhar atento. Orquídeas são raras, pequenas, discretas, e seu florecer, um acontecimento.






Lucia Malla Says —
Esse texto me lembrou as falas do Meissner, o maior “montanhista” de todos os tempos, que detestava o modo como as pessoas “tomavam para si” as montanhas do mundo, num sentido de posse mesmo. “Atacar” é um termo reflexo desse pensamento. Meissner acredita piamente ainda hoje que a montanha não pode ser referida como as pessoas costumam hj em dia: ela não tem dono. Ela é q precisa ser respeitada pela pessoa q decide subir, e não o contrário.
Adorei, Catatau!
RE: Lucia,
Conheço muito pouco do Messner, e até um pouco mais devido a um vídeo postado por você, se não me engano. Lá ele comentava sobre os novos desafios dos montanhistas, diante dos desafios já realizados. Dizia que os montanhistas deveriam criar seus desafios, do mesmo modo como ele criou os dele. E a fala dele vai bem no espírito do q estamos discutindo: hoje os equipamentos de desempenho conferem outra qualidade ao esporte. Curioso que acabou também conferindo outra qualidade de comportamento aos montanhistas. Apesar de ainda ser um esporte caro, popularizou bastante.
Daí ser estranho esse mundaréu de gente que “quer para si” a montanha, não é mesmo?
Made on May 19, 2009 @ 6:33 pm
Ricardo Cabral Says —
Faço coro com a Lucia, Catatau. E viva a ironia das orquídeas!
RE: Rapaz, o bom é que cada estação do ano reserva uma de suas “ironias”, heheh
Made on May 20, 2009 @ 3:56 pm
_Maga Says —
Deu uma vontade enorme de fazer esse teu passeio.
Você verbalizou o que eu pensava mas não conseguia dizer: os farristas fariam o que fazem em um belo lugar o que fariam em qualquer outro lugar.
Saudade das minhas caminhadas solitárias.
Um abraço
RE: E você, por onde anda, Marcela? Vi que você andou viajando muito nos últimos meses, por lugares incríveis. Como foram as experiências?
abraços,
Made on May 31, 2009 @ 9:18 pm
_Maga Says —
Lindas fotos! Parabéns!
Made on May 31, 2009 @ 9:19 pm