June 18, 2009
Período de exaustão da democracia representativa
Algum tempo atrás a TV Senado exibiu um documentário sobre a história da Casa. Entre os entrevistados, José Sarney. E o tom dizia respeito a uma certa hiperbolização nos ornamentos e floreios dos discursos, enquanto efetivamente tudo se resumia ao discurso. Pelo menos segundo senadores atuais, comentando sobre o início do Senado.
E ontem o Hermenauta reproduziu uma entrevista com Sarney:
SARNEY – Olha, eu acho que eu tenho um nome que deve ser julgado com respeito pelo país. Eu tenho uma biografia, nunca alguém associou minha vida pública ao nepotismo. Os fatos que colocaram estou mandando examinar. O que estiver errado, se corrija. Se eu tiver algum erro, eu sou o primeiro a corrigir. Mas acho que nunca conduzi de outra maneira que não fosse com correção.
E logo depois,
FOLHA – O que o sr. acha da afirmação do senador Cafeteira de que nomeou seu neto por dever favores a seu filho, Fernando Sarney?
SARNEY – Você acha que eu, como presidente do Senado, tenho minha biografia, vou discutir uma coisa dessa? Não vou discutir um assunto desse. Minha resposta para vocês é essa.
Favor por favor, após confirmar que uma sobrinha foi contratada pelo Senador Delcídio Amaral (PT-MS) por indicação sua (um conhecido artifício de jeitinho networking tupiniquim), Sarney lança sua explicação própria para o sentido da crise:
Estamos num período de exaustão do modelo de democracia representativa
, portanto isso tem muito mais a ver com a história mundial ou o sabor das nações do que com a biografia de Sarney ou a história particular do Senado brasileiro. Por sinal,
Não cometi erro nenhum. Querer julgar toda a minha vida por eu ter pedido por uma sobrinha de minha mulher, acho extremamente errado, uma injustiça em relação a mim. Eu deveria ser julgado com mais respeito. Sou o parlamentar mais antigo neste país. Estou fazendo um esforço grande na minha idade.
Entre biografias e histórias, o Senado lança agora uma campanha televisiva institucional. Segundo dizem, sem relação alguma com exaustões e crises.
O que devemos entender? Ora, houve provavelmente algum ataque político ao senador Sarney, pois se há "atos ocultos", eles não se resumem ao ilustre senador; portanto, isso não tem relação com crise no Senado, pois se há crise, ela é devida a uma "exaustão" da democracia representativa em geral; por fim, um vídeo promocional divulgado em tal momento, ora bolas, não tem nada a ver com tudo o que ocorre.
***
E isso tudo vai mais ou menos em direção a uma pergunta que fiz a um jornalista, dias atrás. Temos aqui um representante da "democracia representativa" dizendo que ela está em crise, mas diante fatores relativos ao próprio estatuto dos "representantes". Não vemos nisso um agente reclamando ser paciente? É incrível como o jornalista se contenta em apenas mostrar, às vezes enunciar algum juízo de gosto, porém nunca analisar. Como se a frase "Estamos num período de exaustão do modelo de democracia representativa", dita por um senador e em dadas circunstâncias, não tivesse teor algum.
Não ocorre a mesma coisa com o blog da Petrobrás? Houve muito gosto e desgosto. Mas - o que é estranho - os holofotes maiores da imprensa não passam daí. Vai ver é o "período de exaustão".


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