July 27, 2009
Saramago, entre pios e grunhidos
Imaginemos um instrumento mediático ágil, versátil, dinâmico. Acessível tanto em computador quanto celular, sem contar outros gadgets. Esse instrumento - uma rede social - pode unir milhares, milhões de pessoas, em fluxos de informação contínua e instantânea.
Por exemplo, numa eleição como a do Irã. Diante dos protestos, suspeitas de fraude, e mesmo do assassinato "ao vivo" de uma estudante de filosofia, diversos indivíduos, de forma incrivelmente descentralizada e informal, fornecem as informações ao mundo, no ato. Sem intervenção da mídia ou do governo.
Esse instrumento é o twitter (e essa introdução, banal para muita gente), uma idéia curiosa por reunir milhões de pessoas em uma rede social que permite apenas 140 caracteres por postagem.
Twitter, em inglês, provém da ação de "piar" (o símbolo do site é um passarinho). Fator que põe, de saída, duas perguntas: como uma mídia como essa se popularizou tanto? O que representa sua popularização? José Saramago deu sua resposta curta e grossa, primeiro sobre seu próprio blogue, depois sobre o twitter:
JOSÉ SARAMAGO: Escrever num blog não difere em nada de escrever numa folha de papel. Salvo a extensão do texto em que, no caso do blog, se aconselha uma certa brevidade, os escritores não estão condicionados por normas ou regras que, supostamente, caracterizariam o blog. Não sou frequentador assíduo da internet. Consulto o Google com frequência, nada mais. Quanto a ler outros blogs, faço-a às vezes, mas não mantenho diálogo com eles. Para mim, a internet é uma fonte de informação rápida e em geral eficaz, porém não confundamos: a literatura ou é ou não é, não há meios termos. Muitas transformações teriam de dar-se (e eu não vejo como nem quais) para que a internet tomasse lugar no fazer literário.(…)O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?
SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.
A resposta no twitter foi imediata: uns literalmente grunhiram. Outros, com maior ironia, copiaram a passagem acima, formulação muito próxima de 140 caracteres.
Já outros comentaram sobre algum caráter retrógrado e anti-democrático do escritor. Ele não veria ao redor tantas vozes, tanto discurso tão virtuosamente reunido, tanta liberdade de informação.
Mas será? Será Saramago como outros, retrógrado e velhaco, medroso diante das novas tecnologias, adepto do velho jornalismo centralizado e aos oligopólios da informação, sem o saber?
Novamente, as duas perguntas acima. Se Saramago deu seu veredicto, Gabriel Garcia Marquez não diria o mesmo. Mas o fato de um literato usar o instrumento, e outro não, nada responde pelo valor do instrumento.
Ou melhor, talvez o exemplo mostre o que o twitter é: um instrumento, de repente popularizado por milhões. Saramago comentou algo semelhante ao diferenciar "literatura" e "blog". Embora os blogues imponham textos mais curtos, literatura não é blogue. Existem critérios próprios para definir literatura. Já "blog" é apenas uma plataforma, um outro instrumento.
Definimos o valor de um instrumento por seu uso. O twitter também é um instrumento, como os blogues. Mas se um instrumento se define pelo uso, aquele com mais funções tende a prevalecer, certo? Curiosamente, errado. A equação não parece ser bem essa. Isso por um motivo tão simples quanto o twitter: a partir do momento em que o usuário dispõe de apenas 140 caracteres, ele deverá sempre recorrer a outros instrumentos ou plataformas quando quer mostrar uma eleição fraudulenta ou um assassinato.
Poderíamos imaginar um instrumento contendo então as supostas carências do twitter. Existem vários. O multiply, por exemplo: ele permite criar vínculos de seguidores, como o twitter. Ele cria uma interface simples, de acompanhamento ao vivo de tudo o que se posta, em vários níveis (amigos, amigos de amigos,etc.), um pouco mais do que faz o twitter. Mas ele também permite reunir praticamente todas as mídias: imagem, som, vídeo, escrita, em espaço ilimitado. Moral da história: se consideramos o valor "instrumental" da ferramenta, outras mídias fornecem muito mais mídias (redundância: outros meios fornecem muito mais meios).
E então? Como mídia, consideremos o twitter um instrumento ruim, duvidosamente popularizado, no pior sentido que a palavra "popular" pode carregar?
Aí parecemos novamente condensar duas perguntas em uma: o twitter é apenas um instrumento, mesmo que existam outros aparentemente melhores. O fato dele trazer publicidade (não em sentido de propaganda) efetiva e agenciar fluxos de informação talvez mostre um lado em que os "pios" nada carregam de "grunhidos". Isso tem pouco a ver com a frase de Saramago. Ele erra ao generalizar as mídias. Mas acerta, apontando o dedo a um problema.
Concedendo voz a outros pensadores inspirados em Marx, movimentos de "massa" e de "multidão" não correspondem. Isso talvez ajude a explicar a popularização do twitter, em termos de massa: unidades amorfas de "grunhidos". Mas também mostra que a multidão independe de número e de plataforma; depende, por outro lado, de agenciamentos e singularizações.
O twitter, portanto, não tem em si mesmo nada a ver com grunhidos; o fato de sua popularização, em detrimento a instrumentos mais completos, talvez tenha; mas a questão sobre o que vem a ser um texto literário ou um modo de vida "singular", isso é algo bem diferente





meandros Says —
O usuário deve ser melhor que o seu instrumento, esse é o segredo.
E legal ver a sua mudança de postura quanto aos 140 caracteres ;o)
RE: Você acha que mudei de postura?
Made on August 5, 2009 @ 1:44 am