July 31, 2009

Albert Camus: O Estrangeiro

link: webcamus

Via Absorto, encontrei o webcamus, sobre o escritor argelino. O site é muito bom. Traz, além de passagens do próprio punho de Camus, resumos, estudos e comentários sobre suas obras. Abaixo, livre tradução de uma parte do prefácio à edição estadunidense de "O Estrangeiro":

"Resumi O Estrangeiro, já faz bastante tempo, com uma frase que reconheço ser bastante paradoxal: Em nossa sociedade, todo homem que não chora no enterro de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte. Pretendo dizer apenas que o herói do livro é condenado porque ele não joga o jogo. Nesse sentido, ele é estrangeiro à sociedade onde vive; ele erra, à margem, nos subúrbios da vida privada, solitária, sensual. E por isso os leitores são tentados de considera-lo como um arruinado. Ter-se-á contudo uma idéia mais exata do personagem, em todo caso mais conforme às intenções de seu autor, caso se pergunte de que modo Meursault não joga o jogo. A resposta é simples, ele recusa mentir. Mentir não é somente dizer o que não é. É também, sobretudo, dizer mais do que é; e, no que concerne ao coração humano, dizer mais do que se sente. É o que fazemos todos, todos os dias, para simplificar a vida. Meursault, contrariamente às aparências, não quer mais simplificar a vida. Ele diz o que é, recusa mascarar seus sentimentos e imediatamente a sociedade se sente ameaçada. Pedem por exemplo para ele dizer que se arrepende de seu crime, segundo a fórmula consagrada. Ele responde experimentar a esse respeito mais enfado do que arrependimento verdadeiro. E esse tom o condena.

 Meursault, para mim, não é portanto um arruinado, mas um homem pobre e nu, amante do sol que não deixa sombra. Longe de ser privado de toda sensibilidade, uma paixão profunda, porque tenaz, o anima, a paixão do absoluto e da verdade. Trata-se de uma verdade ainda negativa, a verdade de ser e de sentir, mas sem a qual nenhuma conquista sobre si jamais será possível.

Não seria errôneo, portanto, ler em O Estrangeiro a história de um homem que, sem nenhuma atitude heróica, aceita morrer pela verdade."

Essa passagem complementa um dos primeiros "posts" do Catatau (sem a tradução).

***

A propósito de verdadeiras (e não "livres") traduções, vale acompanhar a produção de A Loucura do Dia, de Maurice Blanchot, no Espectral. Vale muito acompanhar também as traduções feitas em O Sopro.

4 Comments »

  1. Ricardo Cabral Says

    Mais uma série de ótimas referências, Catatau, 10 para todas elas.

    Abração

    Made on August 1, 2009 @ 1:47 am

  2. Alba Says

    Maravilhoso, Catatau. Eu me reconheci em vários dos poemas, sabe?

    Made on August 1, 2009 @ 4:07 am

  3. espectral Says

    Obrigado pela menção, querido. =)
    Em alguns dias vou postar a introdução que fiz ao texto para minha tese e a tradução na íntegra para download.

    Te aviso !

    Ah, o nome do blog é ‘átrio do invisível’, uma homenagem ao pessoa.

    (tentei comentar aqui algumas vezes, não sei se os comentários chegaram, favor apagar se for o caso)

    Made on August 5, 2009 @ 1:17 pm

  4. _Maga Says

    Agradeço mais uma vez por ter falado deste livro no Catatau lá dos primórdios. Foi por te-lo visto aqui que acabei sendo atraida para ela em um passeio pela biblioteca.

    Obrigada.

    Foi um dos melhores livros que já li.

    Um abraço

    Made on August 9, 2009 @ 2:27 am

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