August 5, 2009

O “politicamente correto”

O mundo anda "politicamente correto" demais? Ontem à noite Tulio Vianna participou com outras figuras no MTV Debate, comandado por Lobão.

 
Esse MTV Debate é algo engraçado. E talvez o tema de ontem caiu como uma luva para o modo de organização do programa. Começado o debate, Lobão acende um fósforo em galões de combustível, explodindo o burburinho. Andamos "politicamente corretos" demais? Burburinho geral. Até o fim do programa. 
 
O burburinho era tanto que já no primeiro bloco não se conseguia escutar nada. Informação demais gera redundância, aí está um postulado muito simples. Para acrescentar, burburinho demais gera ruído.
 
Daí o assunto do programa se mostrar muito bem por seus resultados: no burburinho entre prós e contras, ninguém ouviu nada, ninguém mudou de opinião, ninguém se convenceu. Enfim, quem conseguiu dizer algo? E ouvir?
 
A discussão do "politicamente correto" curiosamente se divide em dois "lados": em um extremo podemos nos lembrar do pobre comentário de Reinaldo Azevedo sobre o "bonde do Foucault", os "politicamente corretos" que tem alguma ONG, protestam contra a violência da polícia e compram drogas na favela. Outro extremo o próprio Lobão comentou: o favelado negro, tão revoltado em sua posição, não oferece nem a mão para cumprimentar o playboy branco (no caso, o próprio Lobão, antigo comparsa do Comando Vermelho!).
 
Entre a hipocrisia e a revolta, abre-se um buraco grande o bastante para todo "politicamente correto", no mal sentido, passar.  Há várias possibilidades de satisfazer as consciências: A madame dirigindo o utilitário compra seu "guaraná ecológico"; o empresário que não contrata para maximizar o lucro distribui presentes no fim do ano; a mega-empresa poluidora adota uma pequena área de conservação; a política dos créditos de carbono anda de vento em popa; os indivíduos de classe média se contentam com uma ou outra medida paliativa.
 
E por outro lado muitas lutas sociais perigosamente deixam o rigor de lado, optando pela economia dos estereótipos. Por exemplo, a questão racial brasileira é muito mais delicada do que a dos países "de apartheid" (como dizia  Darcy Ribeiro). Mas o problema do  amálgama sócio-racial, característico do Brasil, reduz-se a critérios exclusivamente raciais por muitos adeptos das cotas (corretos quando afirmam que isso é um meio para radicalização democrática, portanto uma medida entre outras; errados quando esquecem do meio, tornando a prática finalizada em si mesma, e inaugurando curiosas distinções tupiniquins).
 
O mesmo para outros projetos sociais, como aqueles que buscam "melhorar a auto-estima", ou empreendem práticas também paliativas, sem objetivos globais, onde vemos na TV crianças dizendo "quando estou aqui, não estou nas ruas". 
 
No burburinho do MTV Debate, como no burburinho da "realidade", é importante notar a função de tanto discurso sobre o politicamente correto. Às vezes a proliferação dos discursos não indica sua efetividade. Os índices de muitos projetos "sociais" esquisitos, como alguns citados acima, apenas corroboram isso. Michael Hardt disse certa vez que os problemas de esquerda não são idéias, mas problemas efetivos de esquerda. Para esquadrinhá-los, nada melhor do que o rigor.
 
 

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