Este blog sairá do ar no dia 7/12/2011. Dentro de 30 segundos você será redirecionado
para o novo endereço, http://catatau.wordpress.com



August 21, 2009

As “primeiras impressões” de Vladimir Arseniev


http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/4584.jpg
 

Esse homem me interessou. Algo nele era especial, original. Ele soava simples, paciente, mantendo-se modesto, sem insinuações. Conversamos juntos. Ele contou várias coisas sobre sua vida, e quanto mais me contava, mais inclinava minha simpatia. Eu via diante de mim um caçador primitivo, que durante a vida inteira viajou na taiga e estava livre desses vícios que a civilização das cidades traz. Por suas palavras eu soube que ele obtinha seus fundos para viver com sua arma, trocando objetos de caça por tabaco, munição e pólvora. Obteve seu rifle por herança do pai. Contou ter agora 53 anos; nunca teve uma casa, e viveu sempre  sob o céu aberto,  apenas montando no inverno abrigos temporários de cascas e palha. Os primeiros clarões de suas memórias de infância eram: um rio, uma cabana rústica e o fogo, o pai, a mãe, e uma pequena irmã.

"Todo mundo morreu tempos atrás", ele terminou o relato e se perdeu em pensamento. Permaneceu brevemente silencioso e continuou: "Antes eu também tive uma esposa, um filho e uma filha. A varíola terminou com todos. Agora permaneço sozinho…"

Sua face se entristeceu pela lembrança dos sofrimentos. Tentei confortá-lo, mas que era meu consolo para esse homem sozinho, de quem a morte levou a família, a única consolação na velhice? Ele não reagiu e apenas baixou um pouco mais a cabeça. Eu tentava de algum modo expressar minha simpatia, fazer algo, mas não sabia exatamente o que fazer. Finalmente pensei em algo: ofereci a ele trocar sua velha arma por uma nova. Mas ele recusou, dizendo ser a berdanka prezada por evocar a memória do pai, que ele a usava e ela ainda atirava muito bem. Alcançou-a escorada na árvore, e começou a acariciá-la.

Assisti Dersu Uzala, o filme de Akira Kurosawa vencedor do Oscar em 1975, por dica de Ricardo Cabral e Diego Viana. O filme trata de uma forma belíssima, e até mesmo esquecida, as relações entre o homem e a natureza. "Esquecida" por apresentar certos modos de expressão dessa relação em desuso, devido a 100 anos de "avanços tecnológicos". Hoje, dos esportes de aventura às invasões militares, a palavra de ordem é "rendimento", em termos de material e sua durabilidade, preparo físico, etc. Dersu traz muito do que esquecemos: uma relação imediata com o meio, de onde travamos experiências e colhemos frutos.
 
Além das relações entre o homem e a natureza, o filme trata, também de uma bela maneira, da amizade.
 
 http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/ars170a.jpg
 
Além do filme, há também um site sobre Dersu Uzala. Kurosawa se inspirou no relato "real" de Vladimir Arseniev, publicado em um livro clássico na Rússia e na URSS. A citação acima é uma tradução livre de uma pequena passagem. Por lá não consta a informação, mas temos já uma tradução do livro de Arseniev, encontrável em livrarias virtuais e na Estante Virtual.

2 Comments »

  1. Ricardo Cabral Says

    Fico feliz que tenha assistido, meu caro, e não me surpreendeu ler essas reflexões sobre a amizade, e de um certo tipo de relação com a natureza que se vê algo eclipsada por essas noções de rendimento e da mediação tecnológica. Há um ali um tipo de saber-de-si-no-mundo que anda tão fora de moda, não é?

    Made on August 21, 2009 @ 5:08 pm

  2. _Maga Says

    Um texto pungente.

    Um abraço

    Made on September 10, 2009 @ 2:59 am

RSS feed for comments on this post.

Deixe seu comentário



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.

Ajude o blog comprando um livro na Cultura via Catatau