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August 22, 2009

Psicólogos “evangélicos”, e epiléticos confundidos com possuídos


Duas notícias correlatas no mesmo dia: em primeiro lugar, artigo de Contardo Calligaris sobre a psicóloga censurada pelo Conselho Regional de Psicologia no fim de julho. Ela foi censurada publicamente por acreditar poder "curar" homossexuais, fabulando sobre uma "conspiração gay" por trás de interesses institucionais(!). Como se não fossem propósitos científicos e uma grande discussão racional sobre sexualidade que levou à condenação pública de tais práticas, mas um complô (!).
 
Em segundo lugar, uma decisão judicial contra a Igreja Universal favorece um aposentado, sofredor de epilepsia, literalmente carregado para dentro do estabelecimento para ser "exorcizado".

 
É notável o obscurantismo, a necessidade de impor uma mistura cuja fonte doutrinária é duvidosa (pois sobreposta a julgamentos de medicina orgânica e mental). Daí, "goste" ou não, cabe muito bem uma pequena passagem de Freud:
O que as pessoas parecem exigir da psicologia não é o progresso no conhecimento, mas satisfações de algum outro tipo; todo problema não resolvido, toda incerteza reconhecida é transformada em vitupério contra ela. [Prefácio às Novas Conferências Introdutórias]

11 Comments »

  1. Chesterton Says

    A analogia do Calligaris é furada, visto que eventualmente um paciente que se acha gordo e não é fica desnutrido a ponto de ser internado e alimentado à força pela família. Imagine homossexuais internados á contragosto pela familia para serem “alimentados” de heterossexualidade. Ridículo.

    RE: Sim Chesterton, mas a analogia dele vale no sentido de que o problema da anoréxica não é engordar ou não, mas ter uma visão inadequada do próprio corpo… Se bem que a tua analogia também reforça o absurdo de tais práticas. Elas vão bem por aí!

    Tem um problema associado: o Calligaris reconhecer a existência de uma patologia egodistônica relacionada à sexualidade. Isso é complicado, pois transtorno decorrente de sofrimento psíquico (discriminação dos outros ou diante de si mesmo) não se liga dessa forma ao que poderia ser um caráter “sexual” de um “transtorno” sexual.

    Made on August 22, 2009 @ 5:32 pm

  2. Chesterton Says

    a visão inadequada do próprio corpo não se encerra aí, leva à desnutrição. Um problema psíquico leva a problemas físicos. Não é um absurdo familiares e médicos tentarem evitar a auto-destruição, a morte, desses pacientes. É uma obrigação.
    Pacientes procuram consultórios os mais variados por causa da “não aceitação do corpo” - não é uma invenção do Calligaris ou do Conselho de Psicologia.

    RE: Sim, mas daí o que critica o texto de Calligaris?

    Made on August 23, 2009 @ 3:11 pm

  3. Daniel Says

    É a liberdade religiosa gozada ao extremo.

    Made on August 23, 2009 @ 4:51 pm

  4. Pax Says

    Ou seja, posso ser e fazer o que eu quiser? Ou não?

    Se não, quais são os porquês?

    Meu corpo é propriedade minha, ou do Estado?

    Made on August 23, 2009 @ 7:09 pm

  5. Catatau Says

    Pois então, Pax e Daniel,

    Aí que está, as duas situações do post são análogas: há quem julgue necessário conduzir um epilético à igreja para fazer o exorcismo, como há quem julgue necessário, por alguma leitura duvidosa da Bíblia em português e sem notas de rodapé, oferecer uma visão deturpada do que significa sexualidade, em nome de uma terapia desautorizada e contrária a todas as correntes psicológicas, para igualmente conduzir alguém.

    A diferença entre as duas “práticas” é que, enquanto na primeira o indivíduo foi literalmente carregado para a igreja, na segunda se oferecem certas práticas travestidas de ciência, para que uma pessoa “escolha” ser conduzida (escolha a partir de desorientação e desinformação).

    Quais são os limites do uso de nosso corpo? Essa é uma questão muito boa, muito interessante.

    Mas quais são os limites de podermos intervir no corpo do outro, na existência alheia, impondo regras muito particulares e que são as nossas, e que consideramos se identificar com a verdade universal, a despeito de 100 anos de reflexões e pensamentos sobre a liberdade indo em via contrária? Saímos da discussão sobre o uso do próprio corpo, e da liberdade religiosa, para entrar na discussão sobre o fanatismo e o constrangimento das liberdades alheias segundo regras duvidosas.

    Made on August 23, 2009 @ 8:45 pm

  6. Lília Says

    O que se faz, tanto na igreja universal como no caso da psicóloga é se aproveitar da ignorancia alheia sobre determinado assunto, oferencendo respostas que essas pessoas não conseguem obter em troca de benefício próprio. são perversos.

    Made on August 23, 2009 @ 9:14 pm

  7. Chesterton Says

    Porque a analogia do Calligaris favorece a intervenção dos que pretendem ajudar os que não se aceitam. Se os portadores da egodistonia são como os anoréxicos, assim como os anoréxicos são internados para alimentação parenteral, os egodistônicos “seriam” (a sugestão é dele) tratáveis.

    RE: Concordo com você que ele deu algumas “brechas”, Chesterton. Especialmente no fim do texto: aquilo que ele falou com certa ironia pode muito bem ser lido pelo alvo como um “ué, mas é bem isso que fazemos! E com satisfação, por sinal”

    Mas creio que não deveríamos levar o debate nesse nível - nível no qual qualquer palavra mal colocada favorece as ilusões do visionário. Deveriamos supor um leitor razoável, não um visionário (muito embora escolher entre esses leitores é também responsabilidade do escritor, bem como tapar possíveis brechas… tarefa bem pedagógica por sinal, já que lidamos não apenas com desinformação, mas desinformação sustentada como verdade). De todo modo você acerta, mostrando a brecha (convenhamos que não é uma brecha p um contra-argumento, por sinal)

    Made on August 23, 2009 @ 11:30 pm

  8. Chesterton Says

    Lilia, a psicóloga não vai na casa do homossexual pedir para tratá-lo. Repito, há pacientes que procuram ESPONTANEAMENTE ajuda. Nem todo homossexual é gay! Boa parte se revolta contra sua condição. Caraca, qual a dificuldade em aceitar isso?

    RE: Não sei o que a Lilia responderá, Chesterton, mas uma coisa é certa: um psicólogo, como disse o Calligaris, não tomará partido de saída. Está totalmente fora de questão considerar a priori o que DEVERÁ SER o paciente, chegue ele no consultório revoltado ou não, desorientado ou não com sua condição. Em questão está orientá-lo, e não veladamente desorientá-lo por um preconceito prévio.

    Não é uma dificuldade em aceitar, mas uma constatação a fazer; é o mínimo.

    Made on August 23, 2009 @ 11:34 pm

  9. Dri Viaro Says

    Oi, passei pra conhecer seu blog, e desejar boa semana.
    bjs

    aguardo sua visita :)

    Made on August 24, 2009 @ 4:17 pm

  10. Lília Says

    Chesterton,

    é claro que as pessoas podem estar insatisfeitas com um estado em que ela se encontra. mas o homosexualismo não é um estado de espirito ou uma escolha qualquer. a decisão por um objeto amoroso faz parte da construção psiquica e é feita desde que somos crianças. a questão da insatisfação pelo fato de ser homosexual é social, nossa sociedade ainda discrimina e reprime esse tipo de escolha … que é tão normal como a escolha hetero. Se a pessoa não se aceita é por conta de uma questão externa e não interna, pois desde o momento em que ela inconscientemente escolheu amar alguem do mesmo sexo ela já aceita isso internamente.
    Queria deixar claro que acredito que ser ou não homosexual não é uma questão de vontade e sim de desejo.

    Made on August 24, 2009 @ 4:49 pm

  11. Chesterton Says

    Lilia, estamos falando de pessoas diferentes, eu falo de pessoas que não aceitam o corpo que habitam. Não da garota que se apaixona por outra garota, mas da garota que quer ser garoto para conquistas garotas. Ou do garoto que quer ser garota para conquistar garotos heterossexuais. Deu para entender?

    Made on August 25, 2009 @ 2:03 pm

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