November 17, 2009
LupaLuna (ou a questão da relação entre ecologia e negócio).
O presente post é a reprodução exata de outro, publicado no ano passado. As perguntas abaixo também permanecem as mesmas.
Organizou-se em Curitiba um grande festival chamado Lupa-Luna. Tem desde Axé, até música eletrônica.
O Slogan é ecológico:
Com o slogan: Música e natureza fazendo eco, o Lupaluna acontece em um espaço de 300 mil m2 - equivalente a 42 campos de futebol, montado a 22km do centro de Curitiba com a Serra do Mar como moldura natural. A expectativa para os dois dias de evento é de mais de 60 mil pessoas, que assistirão às performances simultâneas em três palcos diferentes.
Uma das organizadoras, a SPVS, afirmou que todas as emissões de poluição do evento, desde a organização até a execução, serão medidas. Com o índice total da poluição em mãos, será adotada uma área de mata nativa no município de Piraquara, próximo a Curitiba.
Música e natureza fazendo eco - Em parceria com a SPVS - Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem o Lupaluna vai garantir a neutralização do impacto causado pela realização do megafestival no meio ambiente, por meio da adoção de áreas consideradas não-afetadas pelo homem. Inédita, a iniciativa é chamada de Condomínio Ecológico Lupaluna, projeto que também incentiva a adoção de áreas de mata nativa por outros festivais, empresas e artistas.
Além da área do evento conter o tamanho de 42 campos de futebol, fica bem próxima a outras áreas de preservação ambiental. E tem a Serra do Mar paranaense (um dos últimos redutos de mata atlântica nativa) como vista:
O espaço onde será realizado o evento fica em Piraquara, município onde estão localizados os mananciais que fornecem água para Curitiba e Região Metropolitana. Várias ações que estimulem uma atitude ecológica por parte do púbico serão realizadas, chanceladas pela SPVS que há mais de 20 anos atua na preservação de áreas naturais no Paraná.
E enfim, as perguntas que não querem calar:
- Essa prática é bem semelhante à do sequestro de carbono, bem familiar à SPVS. O conceito é simples: paga-se a preservação de um lugar para poder poluir outro, "neutralizando" a poluição. Que tipo de benfeitoria traz conservar uma área já conservada, para justificar a poluição de outra área?
- Fazendo as contas, temos uma área já preservada, e uma poluição prevista. O saldo final não é negativo?
- A área "neutralizada" pela SPVS será maior que 42 campos de futebol? Seria, ainda, somada ao impacto deste evento?
- Não se poderia adotar a mesma área sem uma festa?
- O "impacto causado pela realização do megafestival" não seria neutralizado simplesmente não realizando um "megafestival"?
O Lupa Luna talvez faça parte de algumas outras práticas, empreendidas na Serra do Mar paranaense. Algumas entidades, como o Santuário Nhundiaquara, já organizaram raves, e tem instalações que mais parecem construções havaianas do que caiçaras. Sinal dos tempos?
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E suponhamos que medidas como essa, da Lupa Luna, sempre se realizassem. No horizonte, é essa a proposta dos organizadores: poluo o equivalente a um campo de futebol, para não mexer em outra área equivalente a um campo de futebol. Depois, repito o processo, indefinidamente. Considero, ainda, o índice de recuperação da natureza, versus a prática indiscriminada de poluir x neutralizar.
A equação é algo como 0 + (-1) = -1
Isso quer dizer que, se a área utilizada como neutralização fosse derrubada, teria valor -1. Como não é, seu valor é igual a zero (mantém-se uma área que, de qualquer modo, seria mantida). A única operação em conta, na área que será preservada, é a de derrubá-la. Ou o que dá no mesmo, não se conta a recuperação de áreas derrubadas, mas apenas o não abatimento de áreas preservadas. Não as derrubando, seu valor absoluto é sempre vazio.
O que não ocorre com a área poluída, que sempre tem valor negativo (-1).
Resultado? Tiro um e mantenho outro, mas a conta só é de tirar ‘um’ ou ‘dois’. Uma operação que, no fim das contas, não soma.
Moral da história: A natureza só tem a permanecer como está, ou perder; já o investidor, só tem a ganhar, podendo investir e ao mesmo tempo se apoiar na auto-promoção "ecológica".
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O que gera o contra argumento: "ok, mas eles poderiam muito bem organizar uma festa assim, e não ter nenhuma atitude de defesa do meio ambiente. Não é assim que se faz sempre? Pelo menos os organizadores propoem adotar uma área de mata para preservar, não é mesmo?"
O problema desse contra-argumento é o fim de tal prática. Ora, obviamente preservar um quinhão de terra vale mais do que não preservar nenhum. Mas o problema é que esse tipo de política compensatória é um modelo cada vez mais adotado. No Brasil, existem diversas ONGs, criadas com esse objetivo de preservar terras, financiadas com dinheiro de outros países. Mas o fim são precisamente as cotas de poluição: pode-se poluir mais lá, comprovando que se preserva aqui.
O problema desse modelo reside, portanto, precisamente em seu caráter compensatório. Não implica necessariamente a recuperação do que foi já explorado, ou se implica, é sempre em vista de um jogo de cotas que legitima explorar outro lugar. No fim das contas, trabalha-se não para reverter danos ecológicos (e "reverter" é uma noção bem complicada), mas com uma espécie de vínculo utilitário entre (1) o lucro que se apóia no discurso ambiental, e (2) o lucro de investimentos comuns, ordinários.
O Festival toca em um tema que já aparece, e que será cada vez mais frequente. Mas que incrivelmente é pouco discutido.






joêzer Says —
esse teu post devia estampar os jornais e revistas rpcs da vida! e por falar em ecologia como o velcro que fecha os negócios: http://notanapauta.blogspot.com/2009/10/religiao-ecologica.html
Made on November 17, 2009 @ 5:24 pm
Sonia Palma Says —
Me lembrei daquela antiga historinha do tal “pagamento de indulgências”, num mundo onde se pagava para ser pedoado dos pecados e ter um lugarzinho no céu…
RE: É verdade Sonia, ainda mais quando temos uma idéia de QUEM paga as indulgências.
Made on November 17, 2009 @ 6:14 pm