December 2, 2009
Google News, “mensalão do DEM” e 2010
Em tempos de "crise", memória curta e tentativas indigestas de generalizar o termo "mensalão" para outros escândalos (e não o contrário, notar que o "mensalão" foi mais um desses escândalos), acessar o Google News é um exercício muito interessante (para não dizer importante).
Por exemplo, um certo José Roberto Arruda. Ele renunciou o mandato de senador após o escândalo da violação do painel eletrônico do Senado (quando ainda era do PSDB e líder do governo FHC). Sua renúncia abriu caminho para a renúncia do próprio ACM (o coroné baiano até tentou culpar exclusivamente o comparsa). Nela, o que disse?
Não roubei. Não matei. Não desviei dinheiro público. Mas cometi um grande erro. Talvez o maior da minha vida.[fonte]
Após a renúncia, Arruda obteve nova aprovação do eleitorado, elegendo-se primeiramente deputado e depois governador. Em uma reportagem da Veja, ele se posiciona de um modo curioso: defende um certo "fisiologismo ético":
Em entrevista à revista Veja, em julho, intitulada “Ele deu a volta por cima”, Arruda disse que é “impossível governar sem fisiologismo”. Quando questionado sobre qual era é o seu limite em relação à fisiologia, ele respondeu:
– É o limite ético. É não dar mesada, não permitir corrupção endêmica, institucionalizada. Sei que existe corrupção no meu governo, mas sempre que eu descubro há punição.
Já começamos a descobrir onde foi parar a ética do fisiologismo. Mas e agora, "mensalão do DEM"? Figuras como ACM Neto tentam desmentir a expressão (será que nos próximos dias algumas emissoras não mudarão o "mensalão do DEM" para "mensalão de Arruda"?). Mas entre a renúncia de Arruda e o "mensalão" de hoje, qual o seu papel no PFL?
Tratou-se de um papel muito positivo, por sinal. Obviamente, a princípio nada além de uma simples renúncia problematizaria a posição de Arruda, certo? Notemos bem: entre a corrupção de Arruda e Arruda, a relação é de exterioridade. Tese endossada com muita ênfase por diversas lideranças que hoje discursam, com relutância, sobre sua expulsão nem tão sumária assim do partido:
Agripino avalia que o senador foi rápido no gatilho [quando renunciou] e com uma "atitude firme e corajosa, marcou positivamente seu destino e deu alívio aos seus colegas, evitando o constrangimento de ter que julgá-lo". Agripino acredita inclusive que Arruda voltará em breve para o Congresso. "Tenho sérias desconfianças que o eleitor do DF, fora do clima de emoção, vai reconduzi-lo ao Congresso no ano que vem".
"Clima de emoção": uma cortina de fumaça "emotiva" que impede o eleitor de ver a verdade. "Verdade": um Arruda livre da corrupção?
Ou então vejamos a primeira convenção nacional do PFL depois de mudar o nome. Em 2007, o partido pretendia lançar candidato para 2010. Quem estava entre os mais qualificados? Rodrigo Maia dá o tom, referindo-se também ao "fisiologismo ético":
Por ora, entre os nomes mais cotados está o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Em primeiro mandato, o ex-líder do governo Fernando Henrique Cardoso recebeu tratamento diferenciado. Ao anunciá-lo para falar aos convencionais, Rodrigo Maia classificou-o como último e principal orador do dia.
Teve coragem de cortar gastos e tenho certeza de que chegará a 2010 como o governador mais bem avaliado do país , disse o presidente dos democratas. Seis banners espalhados pelo Senado (local da convenção) diziam que Arruda é democrata .
O governador levou muita gente ao encontro do partido. Toda vez que seu nome era citado pelos oradores, os presentes o aplaudiam. Gritos de Arruda presidente ecoavam em vários momentos.
Ou
Ninguém vai querer disputar em 2010 se não construirmos uma base. E nomes, temos o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda… [fonte]
De 2007 para cá, o cenário talvez mudou mais do que o PFL esperava. O partido negociava com o PSDB a aliança, na qual o vice seria pefelista. Mas com o "mensalão do DEM", o PSDB do DF se retirou do governo e portanto da base de defesa de Arruda. Há quem diga que isso pode inclusive atrapalhar a aliança em 2010. A reação do PFL, nas palavras do mesmo Rodrigo Maia que há pouco enfatizava as virtudes de Arruda, foi curiosíssima:
Na avaliação dos dirigentes do DEM, a decisão tucana serviu para aumentar o desgaste político do partido, que ficou isolado na administração do escândalo. Foi o suficiente para que o presidente da sigla, deputado Rodrigo Maia (RJ), atacasse o PSDB, fazendo referências às denúncias contra a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, que precisou usar sua força política regional para evitar o sucesso de uma CPI contra seu governo.
"Respeito a decisão de qualquer partido. Mas nós do DEM somos o único partido que está investigando as denúncias contra um filiado. O PSDB poderia ter investigado a governadora Yeda Crusius, mas não fez. Nós faremos investigação", criticou.
Maia foi mais além e se irritou com a possibilidade de o partido supostamente perder a vaga de vice numa chapa presidencial encabeçada pelos tucanos por conta do escândalo. "Se for levar em conta escândalos para definir vaga em chapa, talvez o PSDB nem pudesse lançar candidatura presidencial", atacou.
Como ler tais declarações? Elas são incríveis! Talvez elas são tão mais incríveis enquanto servem de recurso retórico e estratégico dos políticos, espécies de compromissos afirmados em posições não definitivas, quando tudo está ainda suspenso e os fins das negociações não são evidentes. Se o PSDB se distancia, as declarações se agravam; caso se aproxime, a "ordem" se restabelece.
O presidente do próprio PFL declara indiretamente que no caso de Crusius nem está tanto assim em questão problemas efetivos de seu governo, mas sim o apoio político que impediu até uma CPI. Se no RS o PFL ajudou, no Distrito Federal o PSDB não correspondeu. Entre a política e a verdade a ligação não é direta. E se levássemos isso tudo ao limite? "Se for levar em conta escândalos para definir vaga em chapa, talvez o PSDB nem pudesse lançar candidatura presidencial"!
Dada a posição do orador, quem somos nós para duvidar?



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