Há quem diga que Curitiba já tem dois carros para cada três habitantes. Verdade ou não, durante os últimos anos as dinâmicas do trânsito mudaram muito.
A faixa de pedestres, por exemplo. Antigamente ela indicava a preferência do pedestre para atravessar a rua. Visto que curiosamente enquanto a tecnologia aumenta os homens se animalizam (outras explicações são bem-vindas!), hoje, dentro de um carro ultra-tecnológico, a leitura das coisas ao redor também se animalizou. Todas aquelas faixas brancas paralelas se dirigindo para a frente só podem indicar "siga", certo? Ou quando não dá para seguir (afinal até os cachorros aprenderam a evitar os grandes trambolhos metálicos), ela só pode indicar "pare em cima".
Isso quando reconhecem a faixa. A função do "Pare" escrito na rua, por exemplo. Até a prefeitura reconhece que definitivamente ela não serve para nada, a não ser, é claro, que a televisão reclame.
Sinal amarelo: certa vez ele significava "alerta", "atenção". Desde a auto-escola se deveria aprender: só passe o amarelo se ele aparecer exatamente no momento em que você passa pela faixa de sinalização próxima ao sinal (sim, isso existe). Mas hoje o significado mudou: "aproveite", ou então mande os "lerdos FDP" para aquele lugar. Sem contar o novo significado do sinal verde: arranque à toda, ultrapasse os lerdos, pois adiante o sinal pode fechar! - quem são estes para atravancar minha passagem assim?
Claro que a fiscalização só pode acompanhar as novas tendências. Se praticamente não há ninguém fiscalizando o cotidiano cada vez mais semelhante a Mad Max (tente atravessar a rua nas rápidas), os fiscais devem estar alguma hora em algum lugar. E todo sábado de manhã (e só de manhã) lá estão alguns, zelosamente multando as madames ao redor do mercado municipal (ainda não tiveram a ousadia de colocá-los para organizar a entrada nos shoppings).
Os curitibanos, com seu "novo jeito" de interpretar
seu mundo, ainda reclamam da própria fiscalização. Eles mesmos notam como ela é apenas setorizada, restrita e um tanto quanto arbitrária (a regra da placa posta na rua vale apenas enquanto o fiscal está ali; em outros lugares iguais a lei não vale porque não há fiscalização etc. etc…).
Eles não concordam com radares e acham estranha essa indústria. Mas não se surpreendem muito quando as
aberrações não precisam nem ser escondidas, afinal todo mundo comete um errinho… E mais: se a indústria dos radares faz
respingar dinheiro público em bolsos privados, "se eu estivesse ali eu faria o mesmo", certo?
Em Curitiba o memorial das vítimas de trânsito fica atrás do museu do automóvel. Os próprios jornalistas chamam uma rua reformada, porém sem calçadas e com o calçamento cheio de entulhos, de "revitalizada" (rua = passagem de carros privados e eventualmente pessoas, não lugar público de pessoas e eventualmente carros).
O mito de que nessa cidade existem ciclovias esconde o fato de que para a prefeitura elas nem são interessantes (tampouco importantes) e, enfim, sempre serviram para o lazer dos domingos de manhã (basta ver o traçado das mais recentes). Bicicleta? A prefeitura dá o tom: ou é lazer de parque ou logo será crime.
Afinal, bicicleta serve para quê? E não me diga que você gostaria de andar a pé, certo? Os ônibus estão ali, menores e mais caros (quando maiores, igualmente lotados), mas ainda ali. Tenha paciência, pois arrancaremos as canaletas para construir o metrô.
Ou ainda, reclama de quê? O povo tanto gosta disso que demonstrou sua aprovação nas urnas. O mesmo grupo não está no governo durante tantos anos à toa. E além do mais, em Curitiba existem dois carros para cada três habitantes…